Lars Von Trier é expulso do Festival de Cannes

Kirsten Dunst, Lars Von Trier e Charlotte Gainsbourg na apresentação de "Melancolia" em Cannes

Lars Von Trier foi expulso do Festival de Cannes nesta quinta-feira, 19, em virtude dos comentários durante a entrevista coletiva de imprensa, ontem, sobre seu novo filme, “Melancolia”, tido como favorito para a Palma de Ouro. O cineasta dinamarquês gerou polêmica ao dizer, sarcasticamente, entender Hitler e ser nazista.

As declarações irritaram grupos judeus e constrangeram, inclusive, a protagonista do longa, Kirsten Dunst, que estava ao lado do diretor na entrevista. A declaração repercutiu em todo o mundo.

Von Trier tentou fazer “humor negro”, falando em inglês, que não é seu idioma. Logo após o fim da entrevista, emitiu um comunicado se desculpando. Não adiantou. Foi declarado persona non grata no festival. “O conselho dirigente do festival… lamenta profundamente que o evento tenha sido usado por Lars Von Trier para expressar comentários que são inaceitáveis, intoleráveis e contrários aos ideais de humanidade e generosidade que presidem sobre a existência do festival”, diz o comunicado divulgado pela organização do evento. “O conselho dirigente condena esses comentários e declara Lars Von Trier como uma pessoa não bem-vinda no Festival de Cannes, com efeito imediato.”

Abatido com a repercussão gerada pela besteira que fez, Von Trier disse estar se sentido muito mal com o ocorrido. “Normalmente, o que chamam de minhas provocações, têm algum propósito. Desta vez, foi só um desentendimento provocado por uma brincadeira estúpida que fiz”, desabafou à imprensa após saber da expulsão.

“Me arrependo do que eu disse. Quer dizer, me arrependo de ter dito isso na conferência de imprensa. Eu poderia dizer isso para os meus amigos, porque eles me conhecem e sabem que eu não sou um nazista. A imprensa escandinava, que me conhece melhor também, nem tocou no assunto. Tem a ver com um tipo de humor, que não cabe para declarações públicas, mas tem a ver também com algumas palavras sendo colocadas fora de contexto. Mas eu realmente sinto muito pelo fato de ter ferido algumas pessoas. Definitivamente, não era minha intenção”, argumentou.

Abaixo, estão dois vídeos que trazem a entrevista, em diferentes ângulos e sem a interferência das “traduções” sensacionalistas, respondendo sobre a influência da arte nazista em seus trabalhos, e reflita se a punição foi justa:

Atrizes

Obviamente a imprensa voou para cima da atriz Kirsten Dunst. Segundo ela, ninguém pode dizer “brincando” que é nazista. Dunst se negou a fazer declarações mais aprofundadas a vários meios de comunicação, entre eles a Agência Efe, sobre os comentários do diretor.

Diante da insistência dos jornalistas, Dunst opinou que não se pode fazer brincadeiras sobre assuntos como o nazismo, após afirmar que faz parte da personalidade do diretor fazer piadas frequentemente. Em relação à decisão do festival de declarar Von Trier persona non grata – o que não significa que seu filme ficará excluído da competição – Dunst disse: “depende do festival, tem que perguntar a eles o que pensam sobre o assunto. Pelo menos estamos na competição e seremos julgados pelos méritos do filme”, acrescentou a atriz.

Já a atriz francesa Charlotte Gainsbourg, que também estrela o filme, havia programado conceder entrevistas, mas cancelou sua agenda alegando indisposição, segundo a agência de comunicação encarregada de marcar os compromissos.

O filme

A trama de “Melancolia”, descrita como um “filme catástrofe psicológico” pelos produtores, acompanha o casal formado por Justine (Kirsten Dunst) e Michael (Alexander Skarsgård), que estão celebrando o casamento em uma festa suntuosa na casa de sua irmã (Charlotte Gainsbourg) e do cunhado (Kiefer Sutherland). Enquanto isso, o planeta, Melancolia, está se dirigindo à Terra. Veja o trailer:

http://www.youtube.com/watch?v=1_yfoxp1i3o&feature=player_embedded


Opinião do
CineZen

Que Lars Von Trier é talentoso, ninguém duvida. Que realizou filmes controversos, também não. Mas é preciso ter cuidado ao dar declarações desse gênero. Mesmo que ele esteja brincando, sendo irônico, sempre existirão pessoas que levarão ao pé da letra essas palavras. É com a desculpa de ouvir frases do tipo, que assassinos e psicopatas colocam em prática ideias preconceituosas e intolerantes. A exemplo dos riquinhos de Higienópolis que não querem, tadinhos, um metrô no bairro para não atrair “gente diferenciada”, postura igualmente imbecil e preconceituosa. E o mundo atual não precisa, e não deve permitir, tais atitudes. Sejam elas contra negros, gays, brancos, héteros, pobres, ricos, orientais, palestinos ou judeus. Quem prega a separação, a diferença, com a desculpa de que está dando continuidade à sua religião, cultura, ou preservando seus “iguais”, deve ser combatido. Mas pacificamente. Com ideias e leis em prol da igualdade. Não há ninguém acima de ninguém, ninguém mais “certo” que o outro. Seja a religião que for, a opinião política que for, a ideia que for.

A expulsão, após as desculpas do diretor, também soa exagerada. Mas Von Trier deveria ter o mínimo de noção da repercussão que poderia gerar ao falar tanta bobagem. A desculpa que se trata de um humor comum em seu país não cola, já que ele, há anos, se relaciona com pessoas de diferentes nações e culturas. Que fique a lição ao cineasta, mas que também não deixemos de assistir seus filmes, sempre interessantes. Mesmo por que, até agora ele jamais concebeu uma obra de teor nazista ou intolerante.

O CineZen é um site independente sobre cinema, DVD e Blu-ray, TV e eventualmente literatura, quadrinhos, teatro, música e artes plásticas, lançado em 29 de março de 2009. Tem o objetivo de informar, analisar obras e cobrir eventos dessas áreas (com atenção para a Baixada Santista), prestar serviços e atuar no incentivo ao cinema nacional.

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