Regina Alonso em papo exclusivo

Regina Alonso no Café com Letras
Pouco mais de uma hora de conversa, e o escritor Carlos Gama se junta à mesa. Papo vai, papo vem, comenta: “A Regina é especial. Diferente das pessoas que, ao conseguirem abrir uma porta, entram e se trancam nela, ela abre a porta e leva a gente junto. Incentiva a todos”.
Foram quase três horas de bate-papo, duas destinadas à entrevista que a pedagoga, poeta e escritora Regina Alonso concedeu ao CineZen. Minutos depois de começarmos, ela saca da bolsa todos os livros de sua autoria e diz: “Trouxe pra você”, de forma natural. E realmente passa a impressão de ser uma apaixonada pela arte, cujo entusiasmo contagia rapidamente.

Regina com Cláudio Kukzuk, em palestra sobre a cultura indígena no Café com Letras
Natural de Santos, a sagitariana de 67 anos trilhou uma longa carreira como professora de Ciências e Matemática. Quando se aposentou, enveredou pelas artes e não parou mais. Já publicou os livros Ofício, Ondas vão e vem, de haicais, Tábua de Marés e, recentemente, Circularidade. Planeja para esse ano o lançamento de outra obra, Vento Noroeste, que mistura prosa e poesia haicai. Sem contar as participações em antologias, revistas literárias e jornais.
Também escreveu o texto de “Refavela, refazendo o sentido”, peça dirigida por Renato Di Renzo. Ministra e coordena oficinas poéticas em escolas e ONGs, coordena dois grupos, Café com Letras, mantido pela AMBEP de Santos, e Outras Palavras, patrocinado pela ONG TAMTAM. Não bastasse tantos projetos, participa do Grêmio de Haicai Caminho das Águas e do grupo Poetas Vivos, ambos de Santos, e integra a Associação Vicentina de Letras.
Recebeu prêmios em inúmeros eventos, entre eles: Conto/Mapa Cultural Paulista 2007-2008, Haicai: XVI Encontro Brasileiro de Haicai, e as 23ª e 25ª edições do Concurso Takemoto.
A entrevista aconteceu na aconchegante cafeteria e revistaria Millôr, próxima à Praça Independência, no Gonzaga, regada a xícaras de café. A poeta contou sua história, falou sobre as atividades que desempenha, projetos e o meio cultural santista. Confira:
O início nas artes
Como surgiu sua ligação com a literatura?
Regina Alonso: Vem de ainda menina, ali no Mercado (bairro de Santos), onde morava. Tinha uma tia-avó contadora de histórias. Que era maravilhosa. Também eu e as outras crianças do bairro brincávamos todos os dias de estátua, passa-anel e a “hora da poesia”. Era um barato.
E na Escola Portuguesa, que ainda existe na rua Sete de Setembro, que prestigiava a literatura e o teatro. Acredito que tudo isso foi me pegando. Tinha que fazer texto em prosa, com um pé na poesia. Fiz o ginásio no colégio Canadá, e fui aluna da professora Célia Zaragoza, que tinha um jeito de ensinar maravilhoso. E ela passou um trabalho pra gente e na hora da aula pediu a cada aluno pra ler. Fiz um texto curto, chegou minha vez e eu li. Ela disse: “estão vendo, isso é um texto poético”.

Aí fui estudar, trabalhar, dar aula para turmas da primeira à quarta série, de Ciências Físicas e Biológicas e Matemática (risos). Casei, tive minha filha. Mas sempre continuei lendo.
Eu sempre gostava de ler, de cinema, de música, teatro. Aposentei-me e nos três primeiros meses você fica assim: “como eu fazia tanta coisa. Eu tenho que achar a minha praia”. Comecei a escrever um pouco… isso em 1992. Escondia, não mostrava pra ninguém. Até que mostrei à minha filha. Ela falou pra tentar concursos, ver o que acontecia. Um dia eu chego da minha caminhada e o marido diz: “tem um telefone pra você ligar”. Ligo e: “Olhar, a senhora foi premiada. Primeiro lugar”. Então passei a participar com freqüência de concursos, e geralmente era premiada.
Uma outra amiga falou que eu devia fazer prosa. E ela me ajudava muito, mandava muitos livros. Um dia eu peguei, mandei um conto, e fiquei em primeiro lugar. Todos os contos que mandei foram premiados em primeiro lugar. E claro, surgiu a angústia do livro.
O primeiro livro
Comente o processo de concepção…
RA: A Litteris Editora, do Rio, fez um concurso, cujos primeiro e segundo lugares teriam a edição do livro bancada. Até o décimo eles faziam um preço irresistível. Não fiquei nem em primeiro nem em segundo, acho que em quinto, e assim consegui editar o primeiro livro, Ofício. O lançamento foi na Realejo. Foi muito bom. Nem sabia que viria tanta gente. Vendi mais de 100 livros no dia.
E não parou mais…
O segundo foi…
RA: Bom… Minha filha me trouxe um livreto só com haicais. Interessei-me tanto e comecei a participar de encontros, oficinas, eventos de haicai. Fui chamada ao SESC de Taubaté, fiz oficinas no SESC Santos também, em escolas, na rua, como em frente ao Aquário. Em 2009, a Teruko Oda, principal nome do haicai brasileiro, me ligou e falou: “Regina, você ainda não tem livro de haicai publicado”. Daí surgiu o Ondas vão e vem, que faz parte do projeto Dulcinéia Catadora, no qual também se inspirou o Ademir Demarchi. Foi lançado na Casa das Rosas.
E depois?
RA: Ano passado eu tinha o propósito de um livro, que seria uma homenagem ao Narciso de Andrade. Mas não deu pra bancar. Então falei com a Cláudia Brino, da Edições Costelas Felinas. Decidi fazer um livro menor. O Tábua de Marés é um livro que tenho muito carinho, é um livro pequeno, trata das marés. A Cláudia e o Vieira Vivo (responsáveis pela editora) são muito caprichosos, fizeram um excelente trabalho. O Renato Di Renzo (artista plástico e arte-educador) fez essa capa maravilhosa. Os poemas são a respeito das mudanças do mar, as mudanças da maré e o homem diante dessas transformações. O mar se transformando como universo para o homem, que também é mutável.

E recentemente você lançou o Circularidade.
RA: Ano passado, quando lancei Tábua de Marés, fiquei alucinada. Precisava expor meu trabalho. Chega uma hora que a obra não é mais sua. Precisa ir adiante. Tenho um livro de haicai, que começou sendo um haibun, diário de bordo, um diário que era muito comum entre os japoneses, onde eles se valem da prosa e da poesia. Mas a prosa e a poesia não se isolam. Elas conversam entre si. O nome era Haibun Urbano, por que a minha viagem era uma viagem na cidade, na metrópole, onde eu viajava sem sair do lugar. E fui fazendo devagarinho.
Ano passado achei que estava pronto. Já tinha uns cinco anos. Mandei pra minha mestra Teruko. Ela disse: “Se eu fosse você não chamava Haibun Urbano, por que o haibun tem mil exigências. Seu livro pode ser lido como um haibun, mas eu preferiria deixar isso na entrelinha e não no título”. E eu respeito a opinião dela. Eu disse então o novo nome: “Vai ser Vento Noroeste”. Uma das coisas que me marcou sempre na cidade, desde menina, é o vento noroeste. Esse livro já era pra ter sido lançado entre junho e agosto de 2010. O prefácio é da Teruko. Só que o marido dela ficou muito doente. Ela disse até que eu poderia passar o prefácio para outra pessoa. Eu disse que não, que esperaria. Então comecei a me dedicar ao Circularidade.
Fiz os contatos, em várias editoras, até que eu acabei fechando com a gráfica e editora Vice Rei, de São Vicente. Gostei da maneira que eles trataram, muito interessante. A capa também é do Di Renzo. Esse livro tem uma história de seis anos, quando comecei muitas reflexões sobre a questão do tempo e dessa coisa que você vai, você parte pra voltar, a inexorabilidade do tempo, que a vida flui através disso, dessa coisa toda, que você quer, mas te escapa. Eu fiquei fixada nisso. De primeira mão fiz 16 poemas. Escrever é trabalho, é suor, mas sabe quando vem mais figurado, já? Depois ficaram em repouso. Retomei por que eu queria essa conversa entre os poemas, fechando esse círculo. Foi lançado em 14 de abriu no Rolidei e teve boa repercussão na cidade.
Apresentação dos Poetas Vivos, na Ao Café
Novo antigo projeto
E o Vento Noroeste sairá quando?
RA: A Teruko conseguiu escrever o prefácio, muito lindo, muito generoso, dizendo que o livro pode ser lido como haibun e aí comecei a fazer uma pesquisa de preço e surgiu assim, pela internet, da All Print, de São Paulo. O (Carlos) Gama esteve lá e gostou muito. Eu gostei da proposta deles e decidi me arriscar. Eles fazem distribuição em livraria, se o livro for aceito na livraria, claro. E eles estão me enviando tudo pela internet. Então acho que o Vento Noroeste, que reúne prosa e poesia haicai, deve sair entre junho e agosto desse ano.
Demais atividades
Fale sobre suas demais atividades.
RA: Como faço parte do grupo Poetas Vivos, e como não tínhamos onde nos apresentar, fomos bater à porta do Rolidei. Há seis anos não havia esse movimento de poesia na cidade. Levamos poesia com música. Gostaram, e nos deram toda última quinta-feira do mês. Praticamente nosso grupo todo, com exceção do cantor, faz parte do grupo Seis e Meia. Nesse meio tempo, tinha um curso de dramaturgia, e o Renato Di Renzo disse pra eu fazer. Cursei em três anos. Montamos a peça, baseada na obra do Shakespeare, “Noite de Reis”, adaptada para “Diga, Mas não Me Queiras”. Trouxemos toda a base mesmo. A dramaturgia do próprio Shakespeare. Mas nós trouxemos uma linguagem mais acessível e contemporânea. Pesquisamos e fizemos tudo: todo o figurino e todos os objetos cênicos. A temporada foi de quase três meses e agora temos ido a escolas, ONGs, aos domingos. No momento, estamos fazendo um trabalho do Molière, “Doente Imaginário”, muito interessante também. Estamos realizando um cruzamento com “O Alienista”, do Machado de Assis.

Apresentação na Ao café
E como surgiu o convite para escrever a peça “Refavela, refazendo o sentido”?
RA: Essa foi uma experiência inesquecível. O Renato Di Renzo fez o convite, eu hesitei no começo, pois apesar de escrever, nunca havia escrito dramaturgia. Ficamos trabalhando praticamente um ano nessa peça. O pessoal do Dique vinha ensaiar no domingo à tarde, eles chegavam na perua do padeiro. Iríamos trabalhar a história do Gilberto Gil. Mergulhei na obra dele. E toca a fazer texto. Levava e o Renato: “Pode jogar fora”. Ou: “Calma, continua. Esse aqui você não joga, guarda”. Aí, ele pegava quando o pessoal chegava, conversava, conversava. Teve uma moça que contou a história dela, meio tímica, de como ela veio do Nordeste. Depois o Renato pediu pra que ela contasse a história na frente de todo mundo. E o Renato: “Essa é a peça pronta, por que a história do Gilberto Gil é a história de um homem em suas travessias. Então temos aqui a peça. Não vai ser linear, contar a historinha, por que isso pode ser consultado num livro. Vamos contar uma história universal, que as pessoas se identifiquem”. Nunca tinha feito isso de construir o texto no coletivo. Fizemos o lançamento da peça no SESC, depois levamos toda a comunidade do Dique ao Coliseu.
E os Poetas Vivos?
RA: Temos quase 35 trabalhos montamos, onde aliamos poesia e música, trabalhos sobre Adélia Prado, Quintana, Cecília Meireles.Temos trabalho só de cordel, fazemos figurino. O grupo vai fazer seis anos. Nasceu da ideia da Jaíra Presa. A gente se apresenta toda última quinta do mês no Rolidei, uma vez por mês na Ao Café e eventualmente na Pinacoteca de Santos.
Também há o Café com Letras. Eles me contataram pra ver se eu tomava conta da parte cultural. Já fez seis anos. Toda primeira e terceira quinta do mês, sempre à tarde, aberto a todo mundo que quiser. É da AMBEP, Associação dos Mantenedores e Beneficiários da Petros, na Ana Costa, 259, conjunto 53. A entrada é franca. Das 14h30 às 17h.

Poetas Vivos, também na Ao Café
Quando esse grupo começou, convidei mais duas amigas, com a proposta de incentivar a leitura e a produção de texto. Uma proposta que deve ter na literatura, é trabalhar com tudo. A gente se transforma também. O que eu notei: se você dá o texto e a pessoa produz, é uma coisa, mas se você trabalha com a pessoa a leitura de tudo, de objetos, da música, de toda a arte, a criação é bem mais complexa. A gente abre espaço pra toda pessoa que tiver algo pra contar na arte.
Anualmente realizamos um evento literário. De dois em dois com lançamentos de livros. O primeiro livro foi editado e bancado pelo Rio de Janeiro, primeira antologia Café com Letras. O segundo foi um livro todo artesanal, feito pelas Costelas Felinas. Fazemos oficinas nesses eventos.
E tem o projeto Outras Palavras, no Rolidei, sempre na quarta terça-feira do mês. Trabalhamos com literatura e a leitura, mas não a leitura, leitura. E sim tudo, desde visual, fotografia, música, tudo. E há produção de textos. Começamos em 2008. Ano passado fizemos o primeiro livro, Outras Palavras.
Você também ministra oficinas?
RA: Onde me chamarem, eu vou e faço. Em escolas. Fiz um ano todo, em 2009, na Secretaria de Educação, com os professores, chamada “Poesia Nossa de Cada Dia”. Foi muito bom. Faço na Vila Cascatinha, na ONG Heitor Ribas, uma vez no mês, de manhã e de tarde. Atualmente estou dando mais ênfase no haicai, por que os alunos participarão de concursos. Mas diferentes gêneros. Ministro também oficinas na Unisanta, no Pró-Ler. Fiz também oficinas no CAMPS, com mais de 100 adolescentes de 14 a 17 anos, de tarde. Eles conceberam produções encantadoras. Conseguimos mais de 200 livros, pra dar um pra cada aluno.
Meio literário santista
Para encerrarmos, gostaria de saber sua opinião sobre o meio literário em Santos. Há união? Apoio?
RA: Tudo o que está acontecendo em Santos, na literatura, é por conta do próprio criador, do próprio autor e dos próprios grupos. É muito mais uma vontade nossa. Como os Poetas Vivos. Não há patrocínio, nenhum apoio para que possamos nos dedicar integralmente ao projeto… Temos apoio do Rolidei, no sentido que nos abre o espaço para nossas apresentações. A Pinacoteca também abre o espaço, como também outros lugares, a exemplo da Ao Café, e a Millôr. Mas tudo por que estamos fazendo contato. Mas fora isso, você não vê. Fomos convidados pelo Guarujá. Sempre vamos duas, três vezes por ano. Cubatão também. Vamos a escolas. Os estabelecimentos particulares nos pagam, mas geralmente vamos de forma gratuita.
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Interessados em contatar Regina e saber mais sobre seus projetos podem ligar para 13 3261-4481 ou escrever para orgone1@terra.com.br.
André, mais uma vez parabéns por tão bela entrevista.
Bom demais ver divulgado esse talento santista que é a Regina Alonso.
Abraços a ambos
Regina Azenha
ótima entrevista, personagem maravilhoso. parabéns de novo pra vc, andré!
Querida amiga Regina Alonso, seu dinamismo, criatividade, simpatia e gentileza com todos, indistintamente, são um exemplo e estímulo para todos nós que trabalhamos com cultura.
Parabéns.
Parabéns, André!
Parabéns pela escolha, pela maestria com que conduziu a entrevista e pela forma clara como relatou o que colheu.
Regina Alonso é um personagem muito importante da cultura regional e, até, estadual. Com sua sensibilidade e capacidade de escrever com o coração, vai alçar voos muito mais altos.
Seu mais recente livro, pode ser saboreado em http://www.circularidade.com.br
Aproveitem!
Oi Carlos! Obrigado pela presença, apoio e a lembrança do site. Grande abraço, André
Parabéns, REGINA ALONSO, seu trabalho com a Poesia é especial, principalmente as performances com o Grupo Poetas Vivos, que valoriza aquela coisa bem popular e caiçara da nossa gente praiana. Grande beijo! SANCTUS.
Sou fanzaço da regina….Vida longa a mestra!!
José Bilherti
Ubatuba-SP