Cinema

Padre: Mais um filme apocalíptico torcendo por uma franquia

Paull Betany estrela mistura de ação e terror baseada na HQ do coreano Hyung Min-Woo
Por Mayara Maluceli (13/05/2011) // Comente


“Se alguém pretende causar-lhes dano, sai fogo da sua boca e devora os inimigos; sim, se alguém pretender causar-lhes dano, certamente, deve morrer” (Apocalipse 11:5). Esse trecho bíblico consegue demonstrar todo o poder que a Igreja tem para impedir qualquer mal exterior de outras criaturas enfermas da fé católica.

Seguindo à risca a citação, Hyung Min-Woo lançou a série de histórias de um padre promissor que por engano libertou um anjo caído, provocando fatalidades e vinganças sobre-humanas. “Padre” foi o primeiro manhwa (HQ de origem coreana) do gênero ação/terror a ser lançado no Brasil. E, depois de alcançar sucesso internacional, as histórias foram interpretadas para as telonas.

Scott Charles Stewart ficou encarregado de transpor o conto desse missionário vingador para os cinemas dando origem ao “Padre”. Depois de mostrar suas habilidades com efeitos visuais além do ordinário em “Sin City” (2005), Stewart assina pela segunda vez a direção de um filme apocalíptico.

“Padre” de Stewart conta a história do Padre Guerreiro (Paul Bettany) que, após o fim da guerra entre humanos e vampiros, foi obrigado a viver escondido entre os cidadãos comuns em uma cidade controlada pela Igreja. A trama começa, de fato, quando sua sobrinha é sequestrada por um grupo de vampiros (ou melhor, criaturas monstruosas sedentas por sangue) que voltaram a atacar as cidades. Contrariando as ordens da Igreja, o Padre parte em uma busca, no estilo faroeste, com a ajuda do namorado da garota e de uma Padre Guerreira (Maggie Q, que interpreta Nikita no seriado de TV de mesmo nome).

Para aqueles que não estão familiarizados com o universo coreano de Hyung Min-Woo, o cenário urbano do mundo pós-apocalíptico lembra o sombrio universo de “1984”, baseado na obra de George Orwell, em que todos são vigiados por um Estado intitulado de Big Brother. As cenas, por exemplo, em que o Papa aparece em um televisor gigante que cobre toda a sala, trazem aquela sensação de constante observação, como acontecia no clássico de Orwell.

O diretor Stewart visualmente foi fiel à inspiração em HQ. Os quadros parados, em que apenas o cabelo se movimenta, remeteram aos quadrinhos coreanos de Min-Woo. Além disso, as cenas iniciais que explicam a guerra entre padres e vampiros foram apresentadas em forma de animação, que contém traços, também, similares à série original.

Fora isso, o filme conta com alguns erros incômodos. O primeiro é a falta de contexto. A história promete um épico em que coloca padres como militares da humanidade que sacam poderosas armas de suas batas negras. De fato, isso é explicado no início do filme. Porém, os conflitos internos dos personagens, principalmente do Padre Guerreiro, não são mencionados. Afinal, são essas dúvidas psicológicas que, muitas vezes, explicam as sagas heróicas e envolvem os espectadores. Se o roteiro de Cory Goodman acrescentasse alguns flashbacks, ou se investisse no sonho que atormenta o Padre Guerreiro, o filme tomaria uma direção diferenciada e agradaria mais.

Imagem de Amostra do You Tube

Outro deslize foi cometido por Paul Bettany, que parece ter um favoritismo por filmes que envolvem a religião em sua trama: “Dogville” (2003), “O Código de Da Vinci” (2005), “Criação” (2009) e “Legião” (2009, também de Scott Stewart). Mesmo com tanto apreço pela temática, o personagem de Bettany não conseguiu transpor para o público suas dúvidas sobre a Igreja, como confessa no início da trama. Aliás, quem fica em dúvida sobre alguma coisa é o público referente à atuação de Bettany, que deixou a desejar. Suas falas murmuradas, seu olhar pouco intenso, carecendo credibilidade. Por parte, a culpa da performance de Bettany deve-se à ausência de profundidade do roteiro, sem contextualizar a dor do personagem.

Com todos esses apetrechos cinematográficos, “Padre” acaba por ser mais um filme apocalíptico para a indústria hollywoodiana torcendo por uma franquia.

Mayara assina o blog http://maluceli.wordpress.com/.

PADRE
(Priest, EUA, 2011).
Direção: Scott Charles Stewart.
Roteiro: Cory Goodman, baseado em HQ de Hyung Min-Woo.
Elenco:  Paul Bettany, Cam Gigandet, Karl Urban, Maggie Q, Lily Collins.
Terror / Ação.
87 minutos.

Estreia no Brasil: 13/05/2011.

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Mayara Maluceli é aspirante a ser uma “contadora de histórias”, desde um perfil sobre uma realizadora social no sertão brasileiro até as resenhas sobre a sétima arte hollywoodiana. Quando pequena, acompanhava os filmes da cabeça aos pés, e admirava os contos narrados por pessoas da vida comum no engenho de seu avô, no interior de Pernambuco. Acredita que o jornalismo se encontra nessas pequenas ruelas recheadas de roteiros cinematográficos da vida real. Contato: maluceli@gmail.com


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