Ricardo Vasconcellos, Diretor Geral do Curta Santos

Ricardo, durante o 8º Curta Santos (Foto: Acervo pessoal/Ricardo Vasconcellos)

Produtor cultural, diretor de teatro, roteirista, ator, Assistente de Coordenação da Oficina Pagu, diretor do Conselho de Cultura de Santos… Ricardo Vasconcellos, 41 anos, é um incansável do meio artístico. Apaixonado pela cultura e profissional dedicado, durante anos assinou a produção executiva do Festival Santista de Curtas Metragens, o Curta Santos, função que ainda mantém. Desde 2010, também ocupa a direção geral, após o falecimento do célebre Toninho Dantas, amigo de longa data e com quem deu vida ao evento.

Mas Ricardo ainda quer mais. Mergulhado atualmente na produção da 9ª edição do Curta Santos, planeja novos rumos para sua equipe. O primeiro, bem provável, é a realização de uma mostra ou festival de cinema sobre a diversidade sexual, que deverá acontecer este ano, em Santos, e levará o tema às escolas. Essa e outras novidades foram contadas ao CineZen em longa e agradável conversa na Oficina Pagu, centro do município, durante bela tarde de sol.

Foram quase duas horas de papo, nas quais Ricardo narrou seus primeiros passos no teatro, o surgimento do Curta Santos e como funciona sua realização, as novidades dessa edição, entre elas a homenagem ao Instituto Criar, de Luciano Huck, a tendência natural em transformar a equipe do festival numa produtora cultural, sua atuação no terceiro setor, a amizade e a relação profissional com Toninho. E mais: explicou o diálogo com a Prefeitura, a necessidade do município em investir na cultura, para que as pessoas enxerguem em Santos um pólo turístico fora da alta temporada, entre outros assuntos. Confira a entrevista, imperdível:

O início nas artes

Ricardo e Junior Brassalotti, Diretor de Produção do festival (Foto: Pimentel/Curta Santos)

Você é formado em Administração. Como surgiu o interesse pelas artes?
Ricardo Vasconcellos | Na verdade sempre atuei. Comecei na escola como ator, e depois, aos 15 anos, entrei para um grupo teatral. Fiz minhas primeiras peças, pulei de um grupo a outro, conheci mais sobre as artes cênicas. Quando cheguei aos 17 anos, queria uma faculdade. Eu ainda não conhecia direito o que eram artes cênicas. Não tinha faculdade da área na cidade, tinha que ir pra São Paulo. E não sei se estava preparado pra sair. Vivia com minha família. Então resolvi fazer Administração e trabalhar em empregos comuns, principalmente na área financeira, entre 1987 e 88. Paralelamente eu fazia teatro. Nisso, comecei a produzir meus próprios espetáculos, nos quais atuava. Atuei no Teatro Vasco da Gama, e com o grupo fui a várias cidades e festivais. Ganhamos alguns prêmios no Festa também.

Já formado, fui para São Paulo fazer Indac (Escola de Atores), com o intuito de me profissionalizar como intérprete. Em 1993, saí do meu trabalho e fui fazer testes. Aí fiquei em cartaz no TBC, com uma peça infantil. Percebi que o curso era muito direcionado ao Antunes Filho. Mas meu pensamento não era só o teatro experimental. Queria fazer musical, espetáculos que pudessem circular por vários lugares. Almejava viver exclusivamente daquilo que escolhi. E percebi, naquele momento, que não era possível. Fazia muita coisa, pontas em novelas (como “Mico Preto” e “As Pupilas do Senhor Reitor”), comerciais de televisão, etc. Percebi que não rolava, era formado e estava insatisfeito. Fiquei um ano e pouco lá. Voltei a Santos e, junto com outros amigos, montamos um outro grupo e fizemos dois espetáculos: um infantil e outro adulto. E comecei a vender os espetáculos às escolas, a participar da produção de novas peças, captar recursos para projetos de outros grupos. Em 1995 resolvi escrever uma peça infantil, “O Menino que Desejava Voar”. Produzi o espetáculo inteiro. Chamei alguns atores e amigos. Apresentamos a peça diversas vezes em várias escolas. Ganhamos vários prêmios e percebi que queria ainda mais.  Me encontrei.

No outro ano, fiz uma adaptação do Shakespeare, do “Romeu e Julieta”, mas para crianças, “Romeu e Julieta – Um Romance de Virar a Cabeça”, que trazia o folclore nacional para dentro do espetáculo. Fomos o primeiro grupo de Santos a fazer temporada no Centro Cultural São Paulo. Viajamos por todos as unidades do Sesc no país. Aí veio aquela coisa de ser produtor. Comecei a fazer várias propostas para prefeituras, a entender o que era circulação. Promovi outros grupos da região. Comecei a criar um diálogo com a produção executiva. Logo em seguida a Neyde Veneziano viu o espetáculo e viu que eu poderia estar dentro do elenco do grupo Pernilongos Insolentes. Daí surgiu o convite pra voltar a atuar no “Geração Trianon”. Fiquei lá fazendo o espetáculo com o grupo, ganhei premio de ator coadjuvante em Florianópolis, no Festival Internacional de Teatro. Depois, ela me convidou para fazer o “Marquesa de Santos”, onde eu interpretava sete personagens. Fui assistente de direção dela na encenação de São Vicente, em 1999. Depois fui convidado pra trabalhar na Oficina Pagu.

O nascimento do Curta Santos

Com a equipe do Curta Festa 2011, evento realizado pela parceria entre o Curta Santos e o Festival Santista de Teatro - Ricardo é o sexto em pé, no sentido contrário (Foto: Pimentel/Curta Santos)

E como surgiu o Festival?
RV | Já conhecia o Toninho Dantas. Em 1997 e 1998 o ajudei a fazer o Festa, Festival Santista de Teatro. O Toninho estava se desligando da Federação de Teatro Amador. Éramos muito amigos. Resolvemos fazer um festival de teatro estadual. Fizemos aqui. Eu era o produtor executivo e convidamos outras pessoas pra ajudar na organização do Festaesp, em 2001. Nesse período, chamamos a (atriz) Bete Mendes e o (cineasta e escritor) José Roberto Torero, com quem tínhamos amizade. Ambos conheciam o movimento cultural da cidade. Aí o Torero levantou a bola, aqui na Oficina Pagu: “Por quê vocês não fazem um festival de cinema?”. Ele deu o contato da Zita Carvalhosa, que era do Festival Internacional de Curtas-Metragens.

E aí nós fomos lá. Não sabíamos direito quem era a Zita. A convidamos pra vir comer um peixe em Santos (risos). Sabíamos que ela era importante, mas não o grau de grandiosidade dela para o meio cinematográfico brasileiro. Ela aceitou. Percebeu dois loucos, meio caipiras, caiçaras, comendo peixe. Levamos a Zita pra conhecer um monte de gente. Perguntamos se era possível fazer uma itinerante do festival de São Paulo aqui. A Zita viu que dava caldo e topou! Fizemos um pequeno recorte, que foi o Curta Santos, uma mostra dentro do Festival Internacional de Curtas. E esse recorte foi maior que as demais itinerantes, como do Rio de Janeiro. A gente deu um valor muito grande pra realização do evento.

Era Diretor Adjunto e, no segundo Curta Santos, assumi a produção executiva.  Decidi estudar (MBA) Gestão do Terceiro Setor para tentar entender mais como é esse processo das ONGs. Meu artigo na UniSantos se chamou “Eventos como captação de recursos para o terceiro setor”. Sempre acreditei que podemos, com eventos culturais, atrair parceiros para a entidade social. Aí tentei fazer artes cênicas novamente…

Trabalho social

A Casa do Trem (Divulgação)

Você trabalhou na Casa do Trem nesse período?
RV | Quando entrei para a Oficina Pagu também passei a atuar na Casa do Trem. Pelo trabalho que eu desenvolvi com os pré-adolescentes no Dique da Vila Gilda, fui chamado pra trabalhar na Casa do Trem com adolescentes que estavam em risco social e drogas. Desenvolvi um projeto dentro da área de teatro mesmo. Quis entendê-los. Dirigi um clipe de rap deles. Fiz um pequeno documentário interno, que falava da vida de cada um, seus sonhos. Foi uma experiência muito valiosa de vida, que eu trago pro meu projeto também. Como sempre fui artista, a sensibilidade vem à frente de qualquer coisa.

Novos projetos

E chegou a cursar mestrado…

RV | Tentei fazer um mestrado na Unicamp, durante 2004. Em Artes Cênicas mesmo. Fiz duas matérias como aluno especial da pós-graduação. Ia cursar mestrado em Artes Cênicas e percebi que as pessoas da minha classe buscavam algo que eu já tinha, que é viver dentro da área cultural, envolvido em algum evento. E eu procurava conhecimento. Só que eu tinha que renunciar tudo isso que eu já tinha de certa forma construído, pra ficar no lado acadêmico, em pesquisa. Percebi que não era essa a minha praia. Eu podia contribuir muito mais do que ficar na base de pesquisa. Mas foi muito bom porque deu um gás maior internamente, pra perceber que realmente a arte e a cultura formam o meu jeito de viver. Não tinha como sair. Só atuar na área paralela. Aí assumi isso de vez e continuei realizando minhas coisas. Hoje eu tenho vontade de retornar ao palco. Já falei aqui pro pessoal, pra Neyde Veneziano, com quem converso eventualmente. Mas pra voltar preciso estar instigado, desafiado, querendo. Hoje eu estou mais aceitando desafios, do que apenas propostas.

Tem algum projeto para atuar?
RV | Para atuar não, mas realizar outro evento sim. O Curta Santos é o nosso carro-chefe, mas aqui existem pessoas que pensam além. Por ter feito essa faculdade, fui criando uma forma de gestar. Desejo e incentivo as pessoas a também criar, oferecer algo, não só no projeto Curta Santos, mas em outros projetos.

E como seriam esses projetos?
RV | Nesse primeiro momento queremos estar no audiovisual, mas entrelaçado a outras áreas. Você precisa fazer algo que primeiro provoque, fale de determinado assunto que crie alguma ação. Essa ação pode ser uma mostra, um encontro. O Curta Santos tem uma história, um caminho mais ou menos determinado, que estamos colocando para os próximos anos, que a gente decide. Porém, também temos outras formas de dizer, e aí a gente precisa achar qual o nicho. Não dá pra fazer tudo dentro do Curta Santos. Temos que potencializar algumas coisas dentro do projeto. Para poder potencializar, temos que elaborar alguma ação, que pode ser algo de formação. A gente percebe que o Curta Santos não está sendo único na nossa vontade. Particularmente, o que eu falo à equipe, é que preciso sempre de desafios, não só com o Curta Santos.

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A equipe do festival é ligada à Prefeitura?

RV | Não, todos aqui são independentes, ninguém é funcionário de nenhum lugar. Temos como representante jurídico a Associação dos Artistas. Atuamos na área de audiovisual deles. Eles também participam do festival de teatro, têm uma orquestra, e nós somos o núcleo audiovisual da Associação dos Artistas.

Sua ideia é fazer da equipe do Curta Santos uma espécie de produtora cultural?
RV | Exatamente. Por exemplo, se você quer falar sobre determinado assunto, aí vai e enfia no Curta Santos… E o festival vira uma grande colcha de retalhos. O Curta Santos tem uma missão, o por quê veio, que é falar do cinema brasileiro, estimular a produção audiovisual da região, transformar artisticamente alguns produtos que, de repente, podem virar algo maior. E aí a gente percebe que o festival tem alguns segmentos que podem ser potencializados. Estamos de certa forma pegando esses nichos e potencializando. A equipe aqui é enxuta. Neste momento somos seis pessoas. Estamos agregando mais uns cinco ou seis, e quando chega ao festival, teremos a equipe de produção do evento. Agregaremos outras pessoas para o festival em si. Se houver outra mostra, alguém da equipe vai fazer. E aí vou chamar algumas pessoas pra me auxiliar. E depois, quando houver outro evento, vou chamar pessoas que atuarão dentro desse evento. Então estamos, de certa forma virando uma produtora. Essa vontade já vem dos anos anteriores, mesmo com o Toninho. Não colocar tudo num só evento.

Você considera que a região tem demanda para uma variedade maior de eventos culturais?
RV | Quando a gente fala de evento, não pode deixar de falar da questão de formação. Quando se cria um evento, antes é preciso saber se tem a possibilidade dele existir, o por quê dele existir. Faço um diagnóstico de alguns parceiros, agentes que atuam dentro daquela área, se não é uma ideia prepotente, se aquilo que está sendo proposto condiz com o que a cidade de repente está precisando. Se não você dá um tiro sem um alvo.

http://www.youtube.com/watch?v=rNyz7WaZpBA Ricardo em propaganda do Ponto Com
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Cinema e cultura da diversidade sexual

Há algum projeto específico em andamento?
RV | Estamos em busca de realizar mais dois. Um eu posso adiantar e vou encabeçar. Não sei se será um festival ou uma mostra, sobre o cinema e a cultura da diversidade sexual. Seria para o final do ano. A gente percebe que existe uma lacuna na cidade, que há 20, 25 anos atrás, era considerada a capital da AIDS. Não existe nenhuma outra ação além da ação de saúde. Temos a questão do bullying nas escolas, a questão da homofobia, do preconceito em tudo quanto é lugar… No início do ano já conversei com os secretários de Cidadania, Saúde. Só não demos o start por que ainda precisávamos fincar essa edição do Curta Santos. Com o início das inscrições, agora posso começar a pré-produção desse novo evento.  A equipe virá quando precisar fazer a produção. A pré-produção será comigo e mais duas ou três pessoas. Vai ser uma coisa menor, mas que tenha ressonância na cidade para reflexão. Se não tiver isso, não adianta… Será apenas mais um grupo que vai discutir o tema, mas a discussão vai parar nesse grupo mesmo.

Eu permeio alguns eventos da área da diversidade sexual. Conheço bastante trabalhadores que vivem exclusivamente desse mercado. E ao mesmo tempo há várias ações que poderiam ser desenvolvidas, mas que não são, por que as pessoas têm receio de tocar no assunto. Queríamos tocar no tema de maneira leve, mas que tivesse consciência dos órgãos públicos. Por isso primeiro fui aos órgãos públicos, para depois falar com ONGs. Elas atuam diretamente… Queremos colocar esse projeto dentro das escolas. É uma coisa menor, não é do tamanho do Curta Santos. É uma coisa embrionária, para que durante o ano a gente possa sedimentar, trazer algumas pessoas que possam esclarecer.

Hoje na cidade temos técnicos que são consultores do Ministério da Saúde, sobre a questão da prevenção. Precisamos colocar isso em evidência. Precisamos do diálogo com a sociedade. É um próximo desafio. Como vai ter o desafio do décimo Curta Santos. Fora o trabalho da Oficina Pagu, realizado diariamente. Hoje estou como Assistente de Coordenação. Tudo isso me deu força de decisão, de chegar e não ter receio de algumas coisas que antes eu tinha. E cada vez mais eu quero estar presente, discutindo dentro da cidade essa questão cultural. Não é à toa que represento a sociedade civil como Conselheiro de Cultura e Cinema.

Toninho Dantas

Toninho Dantas, que em vida foi grande amigo e parceiro profissional de Ricardo, no cartaz do Curta Santos 2010 (Divulgação)

Com a perda do Toninho, como foi o processo para superar a falta dele e seguir com o Curta Santos?
RV | O Toninho, antes de qualquer coisa, era meu amigo. Aprendi muita coisa com ele. Ele também deve ter aprendido comigo, com meu jeito de ser. Respeitávamos o jeito de ser um do outro. Às vezes, mesmo sendo artistas e escolher a arte como vida, tínhamos jeitos diferentes de encará-la. Acho que por isso ficávamos juntos e conseguimos fazer o Curta Santos. Enquanto ele ficava e puxava parte da equipe pra fazer determinada coisa mais artística, eu puxava a equipe e ia fazer a coisa estrutural. Como dizíamos, eu era a terra enquanto eles voavam.

O Toninho tinha um jeito único. Hoje estamos diferentes. Não perdemos o brilho. Ele jamais nos perdoaria se perdêssemos esse brilho. Ele sabia que a gente ia tocar de uma outra maneira e que essa maneira ia dar outras formas. Já estávamos caminhando pra isso que é a profissionalização. E não termos receio disso. Junto com essa equipe entendemos que precisamos cada vez mais ter conhecimento do que a gente faz, ter a técnica, não ter receio de arriscar em algumas coisas e continuar realizando. Acho que agora cada vez mais quando a gente vai fazer uma edição a gente pensa estruturalmente, onde a gente pode ir, como a gente pode ir.

Com o Toninho era um pouco mais visceral. Tínhamos aquelas coisas que vinham na cabeça dele, que também depositava na equipe, que deixava você em transe, você sonhava, e esse sonho a gente sugou um pouco e transformou mais dentro da nossa realidade. A gente sabe que não tem agora uma figura ímpar como ele. Ele era um visionário, e não temos um visionário hoje na equipe. A gente tem a marca que foi de uma pessoa que constituiu isso. Então vamos pro nosso lado melhor, que é o lado técnico, fazer um evento onde as pessoas sintam-se acolhidas.

Está sendo um desafio. Assumir a direção geral, além da produção executiva, que são dois cargos bem diferentes. O caminho será cada vez mais a gente colocar essas pessoas que estão na equipe pra assumirem mais papeis. Quem sabe a gente ter uma outra pessoa da equipe com outra posição, não sei se no Curta Santos, mas em outro evento que a gente possa criar, sendo Diretor Geral desse evento, ou Diretor Executivo de outra ação. A equipe está se firmando. Não sei se ela continua. De repente alguém recebe um convite. Acho que aqui sempre foi um trampolim pra outras coisas. Algumas pessoas ficaram, por que temos que dar continuidade ao trabalho. É melhor você ter o que escolher.

Parcerias

Vocês têm parcerias…
RV | Aqui a gente tem a parceria da organização social que administra as oficinas culturais, e a parceria principal é com a Oficina Pagu, onde temos a sede. E a gente conta também, a cada ano, para a realização do festival, com o apoio da prefeitura e também dos parceiros, algumas emendas parlamentares que conseguimos como apoio. Administramos pra tentar sobreviver o ano todo. A Oficina Pagu abriu as portas pra gente ter a nossa sede. E damos a contrapartida com algumas ações que fazemos. É nossa casa.

9º Curta Santos

Cartaz do 9º Curta Santos (Divulgação)

Como surgiu a ideia de homenagear a cineasta Laís Bodanzky?
RV | Ano passado já tínhamos feito um convite e era pra Laís estar presente na homenagem do festival ao projeto social que ela realiza. No entanto, quem veio foi o marido, o roteirista e diretor Luiz Bolognesi. Já tínhamos a ideia de homenageá-la com o premio Chico Botelho. Não só pela admiração, mas também o envolvimento dela com o cinema brasileiro. E a gente quer dar essa homenagem como reconhecimento, não apenas por ela ser reconhecida na mídia. Mas não tivemos a oportunidade. Ela sempre estava ocupada ou com algum filme ou com o projeto social. Esse ano ela conheceu melhor o festival e percebeu que a gente tem essa característica de homenagear diretores novos, que estão no terceiro ou quarto filme. É difícil alguém fazer tantos filmes nesse país.

Acontecerão mais homenagens?
RV |
Sempre tem três ou quatro nomes que a gente coloca em votação e vai tentando aquela pessoa. Aquelas que forem mais próximas, afetivas conosco, a gente chama. Fazemos essa homenagem de uma forma carinhosa, dando uma mostra da carreira dessa pessoa, algum momento de brilhantismo dentro da abertura, para que a pessoa se sinta acolhida ali. Também sempre homenageamos iniciativas sociais à produção de audiovisual no país. Já homenageamos as Oficinas Querô, Kinoforum, e este ano a gente fez o convite ao Instituto Criar, que aceitou. Já tinha colocado a ideia pra eles. O instituto é do Luciano Huck. Eles aceitaram e agora estamos na tratativa de quem virá. Não sei se ele… Mas é uma forma de homenagear uma pessoa da mídia que ele é, e investe nessa área e forma profissionalmente tantas pessoas. Ele acredita nisso. Não fica apenas no discurso. Às vezes usa a imagem dele pra promover o próprio instituto. Acho muito legal. Como já homenageamos o Chorão (que fez o argumento do roteiro e produziu “O Magnata”), que utilizou o recurso dele próprio, como produtor, para o cinema brasileiro. Se cada vez mais tivermos pessoas com esse tipo de iniciativa, teremos produtos e serviços do mundo inteiro. E estamos conversando com as outras estrelas, celebridades, para a presença delas no festival, entregando algum prêmio a um dos homenageados. Estamos chamando os oficineiros, devemos acertar em breve. Serão oficinas de Novas Mídias, de Formação de Audiovisual, onde os participantes farão um curta ao final do evento, de Marketing Cultural, sobre como pegar esses filmes e colocá-los no mercado virtual e potencializá-los tanto em divulgação como ferramentas.

Foto: Arquivo pessoal/Ricardo Vasconcellos

Esse ano retorna a mostra nacional. Por quê ela ficou ausente do festival?
RV | Não tínhamos recurso. Estamos nos fóruns dos festivais e lá existem algumas regras pra que nós possamos fazer um evento de audiovisual, como um festival de cinema. E se você coloca, você precisa fazer com qualidade, não é só colocar lá. Então, ao invés de arriscar com pouco recurso, partimos para fortalecer a mostra regional e trazer convidados que nos facilitariam na questão de recursos. Quando você faz uma mostra competitiva, tem que trazer todos os participantes, custear hospedagem, etc.  Então convidávamos alguns nomes, não para competição, e não deixamos de ter uma mostra nacional. Nos outros anos fizemos mostras especiais, como do Cine PE, de Goiânia, da Amazônia. E a gente deixou esse gostinho nacional pras pessoas daqui verem o que está sendo feito lá fora. Ano passado trouxemos alguns longas e alguns curtas. Neste ano estamos mostrando o que está sendo produzido no momento. É a produção atual do cinema nacional. As pessoas que estão participando do festival vêm aqui para trocar experiência. Alguns dos realizadores daqui já fizeram parte de filmes que participaram da mostra nacional. Ano passado, por exemplo, na mostra da Amazônia, o pessoal de lá acabou levando gente daqui pra filmar com eles. Festival serve pra isso, pra naquele momento as pessoas celebrarem o cinema e trocarem figurinha.

Haverá exibição de longas esse ano?
RV | Teremos sim. Vamos ter a mostra especial lá na Praça do BNH (bairro da Aparecida). Serão três longas. Vamos fazer algo tipo um noitão. Estamos quase acertando com nosso parceiro Sesc, Será num formato diferente. Vai ter uma coisa cômica junto. E nesse mesmo dia, começando às 19h, vamos ter três longas exibidos na praça, um atrás do outro. Vai ser aberto à população. Pedimos até para o próprio responsável do SESC fazer a curadoria. O Sesc detém vários títulos que podem ser exibidos. Então, de repente, eles podem ter algum filme relacionado ao tema (“Para todas as mulheres do mundo”).

Necessariamente nacionais?
RV | Sempre nacional. Acho que temos que elogiar o que é feito em nosso país. Claro que, se você vai falar de uma mostra especial, podemos colocar grandes nomes como Woody Allen, Stanley Kubrick, Bergman. Mas vamos celebrar o melhor do cinema brasileiro. Esses festivais existem pra escoar esse tipo de produção. Eu sou favorável aos festivais por isso. Muita gente realiza produtos audiovisuais e não têm onde exibir. Acho que o festival é esse momento. Não só o festival, mas as mostras, todas que celebram o cinema brasileiro… Devemos dar prioridade àquelas produções que não foram exibidas ou foram pouco exibidas naquela região. Por quê não prestigiar esse trabalho e colocá-lo numa telona, naquela tela em frente a um monte de gente que não te conhece e ver a reação das pessoas? Tem filmes que passaram pelo Curta Santos, que foram vistos mais que alguns longas. Filmes aqui de Santos. A gente sempre é chamado pra fazer alguma mostra em outra cidade. Fizemos itinerantes do Curta Santos na Alemanha, todas as cidades da região, Goiânia, São Paulo.

Enquanto não houver uma distribuição de títulos dentro do Brasil, a gente vai ficar ainda com a importância dos festivais. Assim que mudar isso, gradativamente as pessoas vão parar de fazer festivais e irão para as salas de cinema assistir os filmes que estão circulando. Ninguém vai ficar reclamando: “Não passou aqui Santos, só em São Paulo”. O Curta Santos está indo atrás pegar títulos, não só de curtas, de exibir o melhor do cinema brasileiro em todos os formatos e tamanhos que não foram exibidos na nossa região.

Secretaria de Cultura

Para completar, qual a relação do Curta Santos com a Secretaria de Cultura da cidade? Há apoio?
RV |
Ele (Carlos Pinto, atual Secretário de Cultura) sempre foi muito aberto com a gente. Claro, a gente sempre pede mais (risos). Sempre esteve presente, no sentido de intermediação com outras coisas. Em alguns momentos, de certa forma, discordou de algumas ações. Mas percebeu que estamos de dois lados: ele no organismo público, e nós como independentes. No entanto, vamos em parceria e jamais faltou diálogo. Acredito que, a partir do próximo ano, a Prefeitura precisaria injetar, além de recursos, algumas ações. Poderia potencializar o Curta Santos como um momento de turismo dentro da cidade, criar algumas estratégias para atrair turisticamente as pessoas durante esse período. Não só durante o festival, mas em outros lugares. Mostrando que pertencemos ao calendário da cidade, as pessoas de determinados nichos perceberão que podem vir a Santos, não apenas no verão. Estamos estreitando mais essa relação, conversando com outros pares: além da Secretaria de Cultura, as secretarias de Turismo, Meio Ambiente e Educação. A prefeitura entendeu que o festival, mesmo realizado por agentes culturais independentes, é um evento da cidade. Não é um evento particular. Se a cidade não aceitar, a gente não faz. As pessoas esperam para tentar se inscrever no festival, entrar na seleção e que seus trabalhos sejam vistos.  O Curta Santos eleva o nome da cidade no meio cultural brasileiro. As pessoas do meio cinematográfico conhecem o evento. Sabem que existe, ouviram alguém falar dele ou que já participou do festival. A cidade é charmosa, tem tanta coisa a oferecer.

Foto: Acervo pessoal/Ricardo Vasconcellos

Para fazer a inscrição no Curta Santos, basta acessar www.curtasantos.com.br.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

One thought on “Ricardo Vasconcellos, Diretor Geral do Curta Santos

  1. Brilhante entrevista.
    O Curta Santos, é um evento maravilhoso que proporciona a todos a oportunidade de divulgar
    os curta- metragens ainda tão pouco difundidos no Brasil. Parabéns.-

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