Sidney Sanctus e o amor pela poesia e as artes

Fotos e imagens: Acervo pessoal/Sidney Sanctus

Sidney declara poema publicado na Mirante

A poesia dificilmente proporciona retorno financeiro. Ao mesmo tempo, é um dos meios artísticos e culturais com o qual o artista, o autor, se relaciona de maneira mais profunda. O santista Sidney Sanctus é exemplo dessa ligação intensa entre o artista e sua arte. Começou a escrever aos 15 anos – segundo ele, como a maioria das pessoas que se enveredam pelo universo poético: “apaixonado por uma menina do primeiro colegial”. Desde então, tornou-se um dos nomes mais notórios da literatura caiçara. Participou do mítico grupo Picaré, que sacudiu o meio cultural santista na virada dos anos 70 para os 80. Hoje, aos 50 anos, tem no currículo os livros Chocolate com Pipoca (1981) e Musa Atômica (2010). Sua obra também está presente, entre outras publicações, em três antologias – Picaré, Uma Dúzia de Poetas (1982), Impressões (2009) e Noite das Flores (2010), além da Mirante, na qual divide a edição, desde 2008, com o amigo, poeta e criador da revista, Valdir Alvarenga.

O CineZen aproveitou o lançamento recente de Musa Atômica para conversar com Sidney. Quem o conhece, sabe que, além de autor (“sou exclusivamente poeta, em relação à prosa, apenas sou leitor”, afirma), Sidney é, acima de tudo, um amante e grande conhecedor das artes e artistas. Em entrevista exclusiva, contou sua trajetória cultural, como surgem seus escritos (“creio que o artista deve ter mais transpiração do que inspiração”), o relacionamento com as demais artes, a paixão por “Star Trek”, e comentou o segmento literário de Santos. E mais, falou do momento da poesia no Brasil: “Infelizmente a poesia é a arte menos valorizada, embora eu acredite que seja a mais produzida. Hoje em dia quase todo o mundo se diz poeta, embora a qualidade desses tantos deixe muito a desejar. Acredito que o momento atual de nossa civilização seja um inimigo para a poesia”. Abaixo, o bate-papo completo:

Como começou sua relação com a poesia? Teve influência de algum parente, amigo?
Sidney Sanctus |
Comecei a fazer poesias em 1975, com 15 anos, e creio que é a repetição da maioria das pessoas que começam a escrever: apaixonado por uma menina do primeiro colegial. A partir daí, passei a participar de grupos de poetas, até que em 1978 conheci Raul Christiano Sanchez, amigo até hoje. Ele idealizou e formou a Academia Santista Juvenil de Letras, da qual participei. Em 1980 a Academia foi extinta, mas foi criado o Picaré, grupo diversificado e independente, que englobava além de poetas, diversos artistas da Baixada Santista: músicos, atores, pintores, escultores, cartunistas, todas as artes estavam representadas no grupo, que foi marcante no início da década de 80 na nossa região.

Lendo seu livro Musa Atômica, percebe-se uma forte carga de erotismo. De onde surgem suas inspirações para escrever? Mulheres? Romances? Você teve algum poeta como inspiração.
SS | A história desse livro é interessante. Em 2010 fiz 50 anos de idade (17 de julho). Na noite de comemoração, dois grandes amigos meus, o casal Vieira Vivo e Cláudia Brino, também poetas, simplesmente me deram de presente o Musa Atômica! Eles escolheram 20 poemas meus, que foram publicados em diversas revistas e antologias e imprimiram o livro. Eles possuem uma editora independente, a Costelas Felinas. Foi um presente maravilhoso, espetacular, fiquei realmente muito emocionado e vou ser eternamente agradecido a eles por tal deferência. Posteriormente lancei Musa Atômica neste ano, em março, durante a semana em homenagem ao poeta santista Rui Ribeiro Couto, dentro do projeto “O Escritor na Rua”, iniciativa do Valdir Alvarenga. Sobre o erotismo do livro, é que a maioria dos poemas versam sobre este tema, mas eu gosto de escrever sobre vários assuntos: amor, vida, filosofia, social, tédio, angústia, espiritualismo, mitologia e o meu preferido: mulheres! São vários os poetas nos quais me inspirei; mais do que inspiração, digo que aprendi com os mesmos: Charles Baudelaire, Pablo Neruda, Fernando Pessoa, Federico Garcia Lorca, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Arthur Rimbaud, Stéphane Mallarmé, Antero de Quental, Edgar Allan Pöe, Mário de Sá-Carneiro, Emiliano Perneta, Vinicius de Morais, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e muitos outros… Creio que o artista deve ter mais transpiração do que inspiração, além de ter um grande embasamento literário, conseguido através da leitura dos grandes escritores, como também a admiração às grandes obras das diversas artes (música, pintura, teatro, escultura, etc.) e principalmente o amor à vida e à natureza!

Sidney, primeiro à esquerda, no lançamento da antologia Impressões
A poesia, para atingir o leitor, precisa ser escrita com base em algum acontecimento real? Ou você consegue escrever imaginando situações?
SS |
Eu sempre digo que a poesia, assim como toda e qualquer manifestação artística para atingir o público, tem que ter acima de tudo qualidade. Há um conceito de que a Arte é a imitação da vida, sendo assim ela pode perfeitamente ser baseada em fatos reais. Eu particularmente prefiro escrever criando situações, sinestesiando sentimentos. Sou partidário de que o artista tem que ser um criador de universos fantásticos, povoador de galáxias oníricas…!

 

| Valdir Alvarenga e a Mirante seguem firmes e fortes na disseminação cultural

Quando e como surgiu sua parceria na Mirante?
SS |
A Mirante é uma revista literária santista, independente e que foi criada em 1982 pelos poetas Valdir Alvarenga e Antonio Canuto. Eles também fizeram parte do Grupo Picaré, mas nesse ano o grupo começou a perder força, muitos dos seus integrantes saíram, foram cuidar cada um dos seus interesses particulares. Eu, a princípio, passei a colaborar com a revista e me tornei subeditor a partir do número 60, em janeiro de 2008.

É possível viver no Brasil como poeta? Nota-se que, entre as artes, a poesia talvez seja aquela em que menos se consegue retorno financeiro.
SS | Não, não é possível viver de poesia no nosso país. Infelizmente a poesia é a arte menos valorizada, embora eu acredite que seja a mais produzida. Hoje em dia quase todo o mundo se diz poeta, embora a qualidade desses tantos deixe muito a desejar. Acredito que o momento atual de nossa civilização seja um inimigo para a poesia. Atualmente as pessoas preferem ver televisão, assistir um filme em DVD no conforto de sua casa, ficar ouvindo suas músicas preferidas em seu aparelho de CD ou ainda ficar navegando na internet. E todos esses meios, excluindo a internet, não favorecem a poesia. Você não vê um sarau poético ou uma entrevista com um poeta no horário nobre da televisão. Infelizmente o brasileiro prefere ver as fúteis novelas da TV ao invés de ler um bom livro. Há ainda o problema que as grandes editoras geralmente não gostam de publicar livros de poesia, principalmente de novos autores, apenas os já consagrados. A maioria das pessoas diz gostar de poesia, mas quando você oferece a elas um livro ou revista que custe R$ 20, ou até mesmo R$ 10, pouquíssimas vão comprar, a não ser que sejam conhecidas do autor.

Aos 18 anos, Sidney em sua 1ª participação em um evento literário - o 3º sentado, da esquerda para a direita, é o falecido poeta Aristeu Bulhões

Qual sua visão sobre o meio literário em Santos? Existe um movimento? Os escritores se ajudam? Há apoio estatal para a cultura ou é necessário depender de suporte privado?
SS | Santos, assim como a Baixada Santista, tem excelentes escritores nos dias de hoje. Existem alguns grupos literários que procuram estimular e divulgar as obras dos nossos autores. Destaco o Clube de Poetas do Litoral, da Cláudia Brino, a revista Mirante, já citada, a revista Poetizando, do Walmor Comenero, Grupo Poetas Vivos, da Regina Alonso, Casa do Poeta de Praia Grande, entre os principais. Acho que há um clima de amizade e coleguismo entre os escritores, embora desentendimentos sempre vão ocorrer como em qualquer coisa que tenha a presença humana. Sobre o apoio estatal para a cultura, o mesmo é muito pequeno e acanhado. A Secretaria de Cultura de Santos promove alguns eventos, se bem que eu gostaria que eles acontecessem em muito maior número. Gostaria também que o poder público tivesse um carinho maior pelos escritores da cidade, realizando concursos literários com boas premiações e publicações das obras, se não com o custo total das mesmas, pelo menos com uma generosa participação financeira em suas produções. Quanto ao suporte privado, acho o mesmo também muito tímido – às vezes, só se interessa por autores já consagrados e não patrocina novos autores e obras.

Quem conversa com você, percebe que, além de conhecer a obra de grandes poetas, você também sabe muito a respeito da história deles. Procura conhecer o autor além de sua obra para conseguir se identificar com ele? Qual sua relação com os poetas que você costuma ler?
SS | Eu basicamente sou autodidata. Em literatura, não tenho formação acadêmica, mas tenho muitos anos de leitura e pesquisa dos grandes autores. Como você disse, sempre procurei conhecer seus trabalhos, como também suas vidas, seus dramas pessoais, seus sonhos fabulosos, seus amores impossíveis. A respeito de identificação, eu diria que tenho mais admiração, cultuo seus poemas e seus textos e os reconheço como grandes gênios da humanidade, como também os músicos e pintores. Como ficar indiferente a um homem (Beethoven) que fazia música surdo? Ou a um outro (Mozart) que, aos 5 anos de idade, compôs um concerto para piano? Como não ficar extasiado ao ver quadros (pintados por Picasso) que revolucionaram a Arte com seus grafismos curvos? Ou as incríveis sinestesias pictóricas surrealistas daquele monstro chamado Salvador Dali? Enfim, a minha relação com os poetas e artistas é uma só: admirar seus lindos trabalhos e aprender com os mesmos, tanto em termos de técnica e criatividade, como também em lições de vida.

Com a repórter da TV Tribuna, afiliada da Globo, Audrey Kleys, no lançamento de Musa Atômica

Falando um pouco de cinema. Você é fã de “Star Trek”. Consegue enxergar alguma relação entre a poesia e o cinema? Já se inspirou em algum filme ou personagem para escrever?
SS | Sim, “Star Trek” é a mais fantástica série de ficção científica já criada, tanto é que gerou mais quatro séries dentro do seu universo e 11 filmes. Não só o cinema, mas todas as artes são poesia. O poeta Martins Fontes disse: “Tudo no Universo é Poesia!”. O filme “Sonata de Outono”, de Ingmar Bergman, é pura poesia; a ópera “Carmen”, de Bizet, é pura poesia; o quadro Noite de Estrelas, de Van Gogh, é pura poesia! A poesia pode se expressar em diversas formas: escrita, música, quadro, palco, ópera, cinema. O grande Richard Wagner, quando compôs suas óperas, imaginou-as como “Arte Total”. Ou seja, ele quis que todas as artes estivessem presentes em uma só. E realmente conseguiu. Sua tetralogia “O Anel dos Nibelungos” (composta por quatro óperas: “O Ouro do Reno”, “A Valquíria”, “Siegfried” e “O Crepúsculo dos Deuses”) é um maravilhoso exemplo de todas as artes irmanadas.

Quais seus próximos projetos?
SS | Para o segundo semestre deste ano, será lançada uma Antologia em comemoração aos 30 anos do Picaré, organizada pelo Raul Christiano Sanchez, na qual farei parte. Para o próximo ano, talvez publique um livro com grande parte da minha obra produzida até agora. Patrocinadores se habilitem, por favor!

Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do site.
SS | Eu gostaria primeiramente de agradecer a você, André Azenha, pela oportunidade dada a mim de deixar algumas opiniões a respeito dessa coisa sublime chamada Poesia, bem como as artes em geral. Para os leitores, apenas recomendo que continuem a prestigiar toda a forma de Arte, pois ela é como um bálsamo, que nos eleva espiritualmente e ajuda a prosseguir através dos caminhos difíceis que é a vida no nosso mundo atual. Que Deus e as Musas iluminem a todos. Grande abraço.

Interessados em adquirir os livros ou entrar em contato com o entrevista basta enviar email para sidneyexcelsior@hotmail.com.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

7 thoughts on “Sidney Sanctus e o amor pela poesia e as artes

  1. OLA PARABENS SÃO DE CORAÇÕES SENCIVEIS COMO O SEU QUE A HUMANIDADE PRECISA SAUDAES E A EXTERIORISAÇÃO DA CERTEZA DA CONTINUAÇÃO DA VIDA APÓS O DESPRENDIMENTO DO ESPIRITO DAS VESTES CARNAIS OBS SÓ PODE SENTIR AQUELE QUE AMA – CARO AMIGO GOSTARIA SE PUDER QUE ME ENVIE O EMAIL DO FAUSTO JOSE POIS FASEM UNS 30 ANOS QUE NÃO O VEJO OBRIGADO E FIQUE COM DEUS

  2. Conheço o Sidney Sanctus há alguns anos e conhecia pouco do trabalho poético dele. Adquiri o Musa Atômica e me surpreendi positivamente com a qualidade poética do livro, é um poeta de primeiríssima linha, precisa mesmo publicar todo o material já escrito e acumulado. Os amantes da Arte ficam no aguardo.

  3. Sidney, foi uma grata surpresa saber que voce gosta de poesia, coisa rara nos dias atuais onde impera muita violencia urbana, parabens e muitas felicidades nesta sua trajetória poética, um forte abraço do amigo Barbosa (sintraport)

  4. Sidney!!!!!!

    Estou muito feliz por você. Parabéns e Sucesso!
    Você merece!
    beijão!

  5. Parabéns ao André pela entrevista e ao Sidney por estar sempre nos presenteando com belos versos, que demonstram sua sensibilidade impar. A Poesia agradece.
    beijos
    Regina Azenha

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