Flashdance: Músicas, coreografia e Jennifer Beals tornaram filme cult

“Flashdance” foi um filme que deixou marca. Fez um sucesso danado, e com o tempo virou um pouco um símbolo daqueles anos 80. Virou meio cult, ou, para muita gente, inteiramente cult.

As músicas do filme foram tremendos sucessos – o disco da trilha sonora vendeu 700 mil cópias nas duas primeiras semanas após o lançamento. Nanni Moretti, um diretor  – ele também bem cult, até citou o filme em seu “Caro Diário”, de 1993.

É um filme com fotografia toda caprichadinha, com jeitão de coisa feita por quem domina o cinema publicitário, ou a linguagem dos clipes. E é idiota – tem a mesma seriedade de um anúncio de carro ou um clipe.

Esse diretor Adrian Lyne, nascido na Inglaterra, mas com carreira nos Estados Unidos, se especializaria depois em pornôs suaves, ou não tão suaves, como “Nove e ½ Semanas de Amor” (1985), “Atração Fatal” (1987) e “Proposta Indecente” (1993); também fez em 1996 uma refilmagem de “Lolita” – meu Deus, para que filmar de novo o romance que já havia sido adaptado para o cinema por Stanley Kubrick?

Sintomaticamente, aqui ele tem como comparsa o roteirista Joe Eszterhas, autor de várias histórias com muita violência e muito sexo, como “O Fio da Suspeita”, de 1985, e “Instinto Selvagem”, de 1992, o filme da mais falada cruzada de pernas da história, aquela de Sharon Stone diante de um bando de policiais aparvalhados numa delegacia de San Francisco.

Vejo no Dicionário de Cineastas de Rubens Ewald Filho, depois de ter anotado os dois parágrafos acima, que de fato Adrian Lyne trabalhou no cinema publicitário, ainda na Inglaterra, antes de se radicar nos Estados Unidos. “Uma carreira de comerciais inovadores, ganhou em 1976 e 1978, no Festival de Filmes Comerciais em Cannes.”

A experiência no cinema publicitário fica muito óbvia em “Flashdance”, de 1983, seu segundo longa-metragem, desde a sequência de abertura – e ao longo de todo o filme. Há muito super-hiper-big-close-up, há muita luz forte entrando pela janela e marcando boa parte da tela, há muita montagem de planos curtinhos, um atrás do outro. Um belo visual, não há dúvida alguma.

Além do visual de comercial premiado, o filme tem outras duas grandes qualidades: a coreografia, excelente, e Jennifer Beals.

O filme não existiria sem Jennifer Beals – o filme é Jennifer Beals. Ela é linda, tem um corpo perfeito, obra de escultor renascentista, dança muito bem, e consegue fazer carinhas de inocente, de safada, de marota, de inexperiente, de tudo – e todas são deliciosas.

Foi o segundo filme dela; nasceu em 1963, tinha 20 aninhos quando fez o filme. Segundo o iMDB, os produtores fizeram testes no país inteiro atrás de uma jovem para o papel principal, e houve três finalistas: Leslie Wing, Demi Moore e Jennifer Beals. O iMDB registra 57 títulos na filmografia dela até 2008, entre filmes e episódios de seriados de TV – mas a verdade é que ela jamais voltaria a ter um papel como o de Alex Owens deste filme aqui. Talvez nem precisasse. Se fossem fazer um apanhado das cenas mais marcantes do cinema americano dos anos 80, ela teria que aparecer na pele de Alex Owens.

http://www.youtube.com/watch?v=qhWGVsHrELw&feature=youtu.be

E aí, para se falar da personagem de Jennifer Beals, chega-se à explicação de por que o filme é idiota. O problema é a história que se conta, a historinha bolada por Thomas Headley Jr. e roteirizada por ele e Joe Eszterhas. É assim: Alex Owens, 18 anos de idade, trabalha de dia como metalúrgica, numa empresa na industrial Pittsburgh; à noite, dança num bar, faz exercícios, treina, malha. Tem mais energia que todas as turbinas de Itaipu juntas. Mora num galpão, uma ex-fábrica meio abandonada – mas tudo com muito charme. Aliás, tudo no filme tem o charme de uma propaganda de cartão de crédito, até o bar meio vagabundo da periferia de Pittsburgh, até as ruas da periferia de Pittsburgh.

Ela sonha em entrar para uma academia de balé clássico, e é incentivada para isso por uma senhora que já teve seus dias de glória em cima de sapatilhas, mas tem medo – quando vai se inscrever na academia, de jeans e tênis, é a única mais morena no meio de um bando de bem vestidíssimas e waspíssimas branquelas ricas; envergonhada, sai correndo.

Aliás, essa é a melhor sequência do filme. A pior, a mais grotesca, é uma em que ela entra numa boate de striptease e retira de lá, como se fosse um Indiana Jones, a amiga que ficou frustrada com um fracasso num concurso de dança no gelo e resolveu cair na vida.

Mas vamos em frente. O patrão, um sujeito jovem e bonitão que já foi pobre, mas subiu na vida (e qual é o problema? estamos na América, a terra do sonho, em que há oportunidade para todos, uai), é claro que se interessa por ela. Ela dá uma esnobadinha nele. Afinal, é moça católica, que se confessa sempre. Mas depois aceita o convite dele para jantar e dá pra ele numa boa, já que ninguém é de ferro ou Madre Tereza. Depois a relação tem uns probleminhas, depois tudo vai se resolver.

E alguém duvida que ela vai lá fazer uma apresentação diante da severa e inicialmente entediada banca examinadora da academia, e arrasar como um Baryshnikov, uma Isadora? Afinal, estamos na América, a terra etc, etc, e num musical que é um continho de fadas filmado por um sujeito forjado nos comerciais de TV.

* Texto publicado originalmente no 50 Anos de Filmes

FLASHDANCE – EM RITMO DE EMBALO
(Flashdance, EUA, 1983).
Direção: Adrian Lyne.
Roteiro: Thomas Hedley Jr. e Joe Eszterhas, baseados em história de Thomas Hedley Jr..
Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson.
Drama / Musical / Romance.
95 minutos.

Principais prêmios e indicações:

– Oscar: Canção ( “Flashdance… What a Feeling”).
– Indicação ao Oscar: Fotografia, Montagem, Canção (“Maniac”).
– Bafta: Montagem.
– Indicação ao Bafta: Som, Trilha sonora, Canção (“Flashdance… What a Feeling”).
– Globo de Ouro: Trilha sonora, Canção: ( “Flashdance… What a Feeling”).
– Indicação ao Globo de Ouro: Filme em comédia/musical, Atriz em comédia/musical (Jennifer Beals), Canção (“Maniac”).
– Grammy: Álbum de trilha sonora original para filme ou especial de televisão.

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

One thought on “Flashdance: Músicas, coreografia e Jennifer Beals tornaram filme cult

  1. quando eu crescer quero ser que nem a Jennifer Beals muito linda ela
    amei o filme =)

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