A Estrela, o fracasso glorioso de Julie Andrews

Disse o grande cineasta Robert Wise que, em 1963, quando buscava a atriz ideal para interpretar Maria Von Trapp, procurou Walt Disney, e este, entusiasmadíssimo, mostrou-lhe copiões da obra-prima “Mary Poppins”, com sua descoberta, Julie Andrews. ”É a nossa garota!” disse um impressionado Wise ao produtor Saul Chaplin, e imediatamente foi atrás de Julie para oferecer-lhe um contrato de dois filmes. Ela prontamente concordou.

O primeiro filme viria a ser o estrondoso sucesso mundial adorado e cultuado por gerações, o clássico musical “A Noviça Rebelde”, de 1965, vencedor de cinco Oscars, inclusive melhor filme e diretor. Derrubou “…E o Vento Levou” e se tornou, durante vários anos, o campeão de bilheteria de todos os tempos. Como Julie havia recebido o Oscar de melhor atriz na sua estreia no cinema por “Mary Poppins” no ano anterior, a Academia não quis lhe dar o segundo consecutivo por “A Noviça Rebelde”, embora fosse a favorita.

Enquanto ela consolidava seu status de rainha de Hollywood com sucessos de bilheteria como “Mary Poppins”, “A Noviça Rebelde”, “Hawaii”, “Cortina Rasgada” e “Positivamente Millie”, Wise continuava procurando um projeto sob medida para os talentos de sua amiga para repetir o sucesso de “Noviça”.

Acabou achando em “A Estrela”, uma cinebiografia musical da estrela da Broadway Gertrude Lawrence, aquilo que ele definia como um “perfeito showcase para Julie Andrews”, ou seja, uma espécie de vitrine para mostrar os múltiplos talentos da atriz e cantora, então rainha absoluta dos musicais de Hollywood e a favorita das multidões.

Presa por contrato e confiando plenamente no amigo e mentor Robert Wise, Julie teve que recusar o papel principal em A Primavera de uma Solteirona” (que deu um Oscar para Maggie Smith), para poder trabalhar nesse ambicioso e fascinante projeto, apesar de já ter recusado fazer um filme também sobre Miss Lawrence.

Uma superprodução, gastos milionários


Como tudo que Julie Andrews tocava se transformava em ouro, não houve economia no orçamento e os números até hoje impressionam. Foram 185 cenários, locações em Nova York, Cape Town, Londres e na Riviera Francesa, 3.040 figurinos – sendo que 125 deles só para Julie (um recorde ainda hoje), que no filme praticamente os troca a cada minuto e meio, ao custo de incríveis US$ 750 mil, mais jóias exclusivas da Cartier de Paris.

Com sua busca compulsiva pela perfeição, Wise selecionou pessoalmente 75% dos 12.000 figurantes, exigiu livros com datas coerentes nas estantes em cenários, filmou e refilmou cenas. Algumas fontes afirmam que foram 186 dias de filmagem (outras reportam 165) e dois meses de pré-produção, mas é um consenso que todo esse perfeccionismo consumiu um ano de dedicação de Julie ao musical, cuja estreia se deu em 1968.

Mas, apesar de tanto empenho, algo deu errado. Nenhum computador ou grande vidente da época poderia prever que “A Estrela”, o novo musical da atriz mais amada do mundo e dos criadores do maior sucesso de bilheteria de todos os tempos, pudesse ser um desastre, e que os US$ 14 milhões gastos não retornariam, tornando o filme um grande fracasso. Os chefões da Fox não podiam acreditar no triste destino da superprodução, e procuraram salvá-lo com tentativas desesperadas e inéditas então, como mudar o modernoso pôster destacando o rosto de Julie com uma estrela em seu olho para outro parecido com o da “Noviça”, relançá-lo mais curto e até com outros títulos (“Those Were the Happy Times”, “The Loves of a Star”)! Tudo em vão.

Não era o que o público esperava de Julie Andrews

Em retrospecto, os motivos do fracasso tornam-se claros. O principal é que “A Estrela” foi anunciado com toda a pompa como sendo a nova realização da triunfante equipe de “A Noviça Rebelde”: o diretor Robert Wise, o produtor Saul Chaplin e a megastar Julie Andrews. Infelizmente, o público, que esperava algo como uma sequência do célebre musical, não se identificou com a saga de uma talentosa, porém temperamental, estrela inglesa da Broadway nos anos 30 e 40. O público ficou chocado ao ver uma Julie Andrews desbocada, com um senso de humor bem diferente de Maria Von Trapp, incapaz de se relacionar com a filha, trocando de homens a cada ano e alcoólatra. Uma heresia!

Outra razão é a sofisticação da obra e suas inovações não muito bem absorvidas na época: este é um filme em que não há par central, é sobre a paixão de uma atriz pelo teatro; seus amores são secundários. A figura masculina principal da vida de Gertrude não é um capitão da marinha que inspira um grande romance, mas sim seu melhor amigo (gay, por sinal), o escritor, compositor, ator e diretor Noel Coward, que no filme afirma que Gertrude era casada com a carreira. Esse inusitado casal de uma certa forma foi precursor da dupla Julie Andrews-Robert Preston no grande sucesso “Victor/Victoria” e de Julia Roberts-Rupert Everett em “O Casamento do Meu Melhor Amigo”.

Para piorar mais ainda o naufrágio nas bilheterias, havia a concorrência de outro grande musical na mesma época, “Funny Girl”, um sucesso que era igualmente sobre uma grande estrela da Broadway (Fanny Brice), marcando a estreia de Barbra Streisand nas telas já com um hit consagrado, ”People”, mas com uma grande love story com o bonitão Omar Sharif. Apesar de uma estreia promissora em San Francisco e em Londres, “A Estrela” tornou-se cadente. Uma pena, porque, apesar de difícil e longo, o filme tem diversas qualidades.

Uma grande reverência do cinema ao teatro, um tributo a Julie

Este musical é sem dúvida uma das maiores reverências que o cinema já fez ao teatro, e também um dos maiores tributos de amor que um premiadíssimo diretor poderia fazer para sua musa. Ele usou Todd-AO 70 mm para mostrar a amplitude dos palcos e confiou em Julie totalmente. Ela retribuiu com um verdadeiro tour de force, virtualmente aparecendo em cada minuto do filme. Está belíssima, confessando no making of do DVD que nunca esteve mais glamurosa na vida. Em grande forma, prova sua versatilidade em cenas de comédia que se alternam com outras dramáticas, assim como em números musicais que vão do music hall da época da Primeira Guerra Mundial até “Lady in the Dark”, na Broadway de 1941. Julie brilha em coreografias elaboradíssimas do mestre Michael Kidd (“Sete Noivas Para Sete Irmãos”), que recriam o glamour daquela época.

http://www.youtube.com/watch?v=jDrEmvyA-mE

Sua lendária voz cristalina passeia com facilidade em dificílimas canções que incluem o melhor dos irmãos Gershwin, Cole Porter e Kurt Weil (“Someone to Watch Over Me”, “Parisian Pierrot”, “My Ship”). Há uma sequência notável da peça “Vidas Privadas” e outra de “Tonight at 8:30” e um maravilhoso “Limehouse Blues” em que Julie evoca Cyd Charisse. No espetacular número de jazz final, “Jenny”, Julie veste um figurino sexy e dança, executa acrobacias, passa deslizando por um círculo de fogo e, aterrissando de pé e com muito fôlego, termina de maneira triunfal, como Michael Kidd exigia. Os dois se tornaram grandes amigos e ela lhe entregou um Oscar Honorário em 1997.

Como pano de fundo, as duas guerras mundiais, a lei seca, a depressão

Robert Wise começa o filme com a ouverture, numa cena típica para a plateia da Broadway, com todo aquele clima mágico do teatro em que os músicos da orquestra vão se acomodando no fosso da orquestra, afinam seus instrumentos, para em seguida tocar uma medley com as principais canções da carreira de Gertrude Lawrence. Ao fundo, a cortina estampa os nomes dos shows que ela estrelou, com luzes que vão se alternando em diferentes cores. Tudo isso é valorizado com a fotografia em 70mm que dá ao espectador a ideia exata da amplidão da boca de cena dos palcos nova-iorquinos. O criativo cineasta faz, portanto, sua primeira grande homenagem ao teatro. O entr’act ou intermission, com outra medley, não foi incluído no DVD, embora esteja presente na versão em laserdisc.

Usando sua brilhante montagem do admirado clássico “Cidadão Kane”, de Orson Welles, como referência, Wise inovou ao apresentar Gertrude Lawrence, no começo do filme, já estrela consagrada da Broadway, assistindo a um documentário – um newsreel em preto e branco (no DVD, infelizmente, está num tom sépia inadequado) sobre sua trajetória, desde a infância pobre na Inglaterra, sempre ressaltando o grande talento musical, a obstinação pela carreira, seus métodos às vezes nada éticos, até sua chegada à América e o triunfo nos palcos da Broadway. Gertrude comenta com o diretor a veracidade dos fatos apresentados com seu humor ferino e senso crítico afiado, não poupando ninguém.

Wise aproveita e mostra como pano de fundo as transformações no mundo e eventos políticos, tais como a lei seca, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, a depressão. Nesse newsreel vemos as reações de Gertrude Lawrence, num efeito que possivelmente foi revisto e ampliado mais tarde em “Forrest Gump”. Em 1936, ela fica doente de tanto trabalhar e vai parar num hospital e, no leito, maquiada porém abatida, chora ao ouvir o discurso de abdicação do Rei Edward VIII em favor do seu irmão, o futuro Rei George VI. O fato histórico foi abordado em “O Discurso do Rei”, o grande premiado do Oscar 2010. Gertrude se comove com a decisão do rei de largar tudo por um amor, algo que ela jamais conseguiria fazer em sua vida.

O elenco de apoio também é ótimo. Uma curiosidade é que a grande amiga de Gertrude, a atriz Beatrice Lillie (outra lenda da Broadway) não pôde ser retratada no filme, pois ela só cedia os direitos sobre sua imagem se pudesse interpretar a si mesma. Robert Wise descartou imediatamente o delírio da diva, já com idade muito avançada, pois como poderia interpretar uma contemporânea de Julie Andrews, então com 32 anos? Coincidentemente, Lillie havia trabalhado no sucesso de Julie do ano anterior a “Star!”, “Positivamente Millie”, de 1967, interpretando a impagável vilã chinesa, Mrs. Meers. A solução encontrada por Wise foi eliminá-la da trama e ampliar a participação de Noel Coward, brilhantemente interpretado por Daniel Massey, afilhado do próprio na vida real. No papel de Robert Aldrich, aquele que talvez tenha sido o maior amor de Gertrude – depois do teatro, claro – está Richard Crenna, da série “Rambo”, de Stallone.

Imenso fracasso comercial na época, o filme se transformaria em cult

O fracasso comercial milagrosamente não ofuscou a grande qualidade artística do musical, que recebeu sete indicações ao Oscar de 1968, para Ator coadjuvante (Massey), Direção de arte, Fotografia, Figurino, Trilha sonora, Edição de som e Canção original, “Star!“ (Van Hausen-Cahn), realmente muito bonita, posteriormente gravada por Frank Sinatra. O filme rendeu um Globo de Ouro de Melhor coadjuvante para Massey, também indicado como Estreante do ano, e deu indicação de Melhor atriz para Julie Andrews, além de outra para a canção original. Recebeu também indicação de Melhor roteiro de musical pelo Sindicato dos Roteiristas.

Em suma: “A Estrela” foi realmente um fracasso, mas um fracasso glorioso para Julie Andrews, talvez da mesma forma que “Cleópatra” também o foi para Elizabeth Taylor. No início dos anos 90, um negativo do filme em ótimo estado foi encontrado no arquivo de uma biblioteca e, assim, novas cópias restauradas, mostrando todo o esplendor de “A Estrela”, começaram a ser exibidas em art houses lotadas em Nova York e Londres. A aceitação do público foi apagando a fama de maldito do controverso filme e deu início a seu atual status de cult, possibilitando seu lançamento em VHS, laserdisc e DVD. Recentemente, em setembro de 2010, “A Estrela” foi exibido na New York Public Library’s Performing Arts – High Fashion in the Movies, no Bradford International Film Festival, em março de 2011, e na série “31 Days of Oscar” da TCM, em fevereiro e março de 2011.

Imperdível para fãs de musicais, de teatro, de standards da música americana e, acima de tudo, da grande diva, lenda dos palcos e das telas Julie Andrews. Sem dúvida, um monumental trabalho de atriz. Star!

Atenção: Spoiler. Quem não viu o filme não deve ler a partir daqui

Robert Wise termina o filme de maneira pungente: após triunfar no seu retorno à Broadway em “Lady in the Dark”, Gertrude vê uma cena do documentário de sua vida mostrando seu último casamento, e ouve-se a voz de Noel Coward lendo seu telegrama para ela – “neste e em todos os dias, eu te amo”.

Ela se vira para o diretor do documentário e diz: “o telegrama é verdade. Quanto ao resto, esqueça, não mude nada, deixe do jeito que está…”, e, olhando para a câmara, termina com nostalgia e tristeza: ”Deixe do jeito que era…”. E com isso Wise sugere, mas não mostra, o ocaso da estrela se aproximando – ela morreu em 1952, durante sua temporada em “O Rei e Eu”, musical pelo qual ganhou o Tony de melhor atriz.

Brilhantemente, Wise volta o filme para a seqüência do casamento, com Gertrude dizendo com sua energia inesgotável ao novo marido, e a nós: “Eu não fui atriz à toa! Eu sei muito mais sobre a vida e os homens que a maioria das pessoas, e as únicas coisas que realmente importam na vida são compreensão, felicidade e ser totalmente autêntica o tempo todo”.

*Algumas das imagens neste texto são reproduções digitalizadas da coleção pessoal de Waldemar Lopes

A ESTRELA
(Star!, EUA, 1968).
Direção: Robert Wise.
Roteiro: William Fairchild.
Elenco: Julie Andrews, Noel Coward, Richard Crenna, Michael Craig, Daniel Massey, Bruce Forsyth.
Musical / Biografia.
176 minutos.

Principais prêmios e indicações:

– Indicação ao Oscar: Ator Coadjuvante (Daniel Massey), Direção de arte, Fotografia, Figurino, Trilha sonora, Edição de som e Canção original (“Star!”).
– Globo de Ouro: Ator coadjuvante (Daniel Massey).
– Indicação ao Globo de Ouro: Atriz em comédia/musical (Julie Andrews), Canção original (“Star!”) e Revelação do ano (Daniel Massey).
– Sindicato dos Roteiristas (WGA): Melhor roteiro de musical.

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

2 thoughts on “A Estrela, o fracasso glorioso de Julie Andrews

  1. sou fã da Julie, e para mim este trabalho é maravilhoso,mesmo que muitos digam que o filme é chato, que dá vontade de dormir quando estão assistindo. já assisti diversas vezes a esse filme e sempre que posso assisto e a cada vez que assisto me apaixono mais pela pessoa e trabalho desta maravilhosa atriz. Fico chateada quando leio algumas opiniões que muitasvezesse exceden em critiacas ruins e até mesmo maldosas em relação a Julie, mais como cada pessoa tem sua opinião respeito. Julie é uma das melhores atrizes de sua epoca e continua encantando com seus trabalhos maravilhosos seja como atriz, cantora ou mesmo autora. é um exemplo de superação e conquista. sempre que estou em dificuldades me lembro da celebre frase dita por Julie atravez do personagem Maria em A noviça Rebeude: Quando Deus fecha uma porta, em algum outro lugar ele abre uma janela.

  2. Bela crítica, como pouco ou nada se faz na imprensa. Adquiri o filme recentemente, de uma excelente videolocadora de Brasília que (infelizmente!) está fechando.

    Fiquei mais ansioso. Acho que o verei hoje ainda.
    Abraços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *