Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)

Christian Bale e Heath Ledger (Foto: Warner Bros. Pictures/ Divulgação)

Ao sair, na época de seu lançamento nos cinemas, da sala de projeção de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, a sensação de ter assistido um divisor de águas na trajetória do cinema não pôde ser descrita em poucas palavras. Ficou impossível caminhar contra a maré e não entrar de cabeça no hype formado a partir de uma campanha viral ao melhor estilo de “A Bruxa de Blair” e “Cloverfield”, até um poderoso esquema de marketing que incluiu o lançamento do DVD animado “O Cavaleiro de Gotham”, com tramas localizadas entre “Batman Begins” e a obra recém lançada no cinema.

Tanta expectativa criada em torno de do filme foi aumentando devagarinho, fazendo com que se tornasse a produção mais esperada, e depois, a com maior bilheteria de 2008 – faturou quase US$ 1 bilhão ao redor do mundo no ano, e ultrapassou a marca com seu relançamento nos cinemas em 2009.

O processo para a concepção do longa começou três anos antes com “Batman Begins”, que zerou a cronologia do personagem criado por Bob Kane na telona, deu credibilidade a um subgênero cinematográfico – o das adaptações das histórias em quadrinhos – não levado a sério (exceto pelos fanáticos) e satisfez os fãs que haviam torcido o nariz para os longas de Tim Burton (que justiça seja feita, eram divertidos e bacanas) e de Joel Schumacher (péssimos).

A morte prematura de Heath Ledger (escalado para viver o Coringa), aos 28 anos, por overdose de medicamentos antes do lançamento do filme e os primeiros trailers fizeram o burburinho se tornar uma bola de neve. E não houve decepção. As primeiras críticas da produção compararam-na com “O Poderoso Chefão 2” e “O Império Contra Ataca”, continuações superiores aos filmes originais de suas respectivas franquias – daria ainda para incluir aí “O Exterminador do Futuro 2”.

“É a melhor adaptação de uma HQ para o cinema já realizada”. “Oscar póstumo para Ledger”. “Indicação de Melhor Filme no Oscar de 2009”. Essas foram algumas bolas levantadas pela imprensa especializada. E “O Cavaleiro das Trevas” é isso tudo e mais. Não é apenas um filme de ação, mas tem seqüências eletrizantes (custou US$ 150 milhões). É um drama policial denso, tenso, com toques de tragédia principalmente no ato final, porém tem ótimas sacadas irônicas (principalmente vindas do mordomo Alfred, tão bem composto por Michael Caine). Tem tempo de projeção considerado longo para o filmes de heróis (mais de duas horas e meia de duração), mas o espectador nem sente os minutos passarem tamanha hipnose causada por cada cena, cada diálogo. É um trabalho minucioso de direção (de Christopher Nolan, que também assina o excelente roteiro com o irmão Jonathan), e uma magnífica parábola com o mundo atual. Até que ponto vale seguir as leis oficiais? Todo ser humano é incorruptível? É necessária a existência de um vigilante?

Além disso, é a jornada e a transformação de duas figuras do lado da lei (uma “oficial”, a outra de “capa e máscara”) que precisam confrontar seus ideais perante o caos causado por um lunático. É uma obra completa, com tudo no seu devido lugar.

Diferente de outras adaptações cinematográficas de HQs, em que os atores dão entrevistas dizendo que se divertiram ao interpretarem seus personagens, tanto em “Batman Begins” como em “O Cavaleiro das Trevas”, os artistas se dedicaram como se estivessem participando de um drama shakespereano. Vestiram a camisa e saíram, cada um à sua maneira, com atuações excepcionais. Se no anterior a plateia pôde presenciar o encontro de Liam Neeson, Ken Watanabe, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, entre outros, nesse pôde conferir os remanescentes Christian Bale (o melhor de todas as encarnações de carne e osso do homem-morcego), Morgan Freeman, Michael Caine, Gary Oldman e até Cillian Murphy (em rápida aparição), mais os “novatos” Maggie Gyllenhall (ocupando o posto que havia sido de Katie Holmes, como a promotora Rachel Dawes), Aaron Eckhart, Eric Roberts e Heath Ledger.

Na trama, Batman tornou-se o medo dos bandidos da cidade. Junto com o tenente Gordon (Oldman), conseguiu finalmente fazer com que os traficantes sentissem medo. Porém, sua presença levou cidadãos a passarem a se vestir como ele e tentar “fazer justiça”. No campo dos tribunais, o município passa a ter um promotor confiável, Harvey Dent (Aaron). Em meio a tudo isso, surge o Coringa, que propõe à bandidagem a solução para que o crime volte a governar Gotham: matar Batman. Atentados passam a acontecer, juízes, policiais e civis são mortos. Caos e pânico se instalam.

Mesclando ação, suspense, policial e drama, o público é jogado num épico que retrata uma imagem de sociedade desorientada, que busca sedentamente alguém em quem confiar, que possa salvá-los da desordem. O roteiro também dá uma pequena cutucada no governo americano da era Bush, quando questiona (numa cena entre Bale e Morgan Freeman), se é ético e/ou necessário estar plugado aos celulares de todos os munícipes para vigiá-los e conseguir informações.

Se a direção de Nolan – inspirada, segundo ele próprio declarou, em “Fogo Contra Fogo”, principalmente no duelo psicológico entre os dois rivais, como ocorreu com os personagens de Al Pacino e Robert de Niro no longa de 1995) – é espetacular (ele praticamente abriu mão de efeitos computadorizados e filmou quase tudo “de verdade”), a trilha sonora de James Newton Howard e Hans Zimmer cria os momentos perfeitos de tensão.

O elenco é a cereja de um bolo cujos ingredientes casaram-se perfeitamente. Caine e Freeman surgem carismáticos como sempre, Maggie dá uma dimensão dramática ao papel que a até mais bonitinha Holmes não havia conseguido antes, e Bale e Eckhart conseguem transmitir os conflitos internos de seus personagens. O primeiro enxerga no promotor Harvey Dent uma esperança de poder deixar a cidade nas mãos de um “cavaleiro branco” e assim, levar uma vida normal. Já o segundo mergulha numa viagem sem volta de transformação intensa, perante sentimentos como injustiça e perda. E juntos a Rachel formam um triângulo amoroso.

E há Heath Ledger. Todos os comentários se concretizaram perante uma interpretação histórica. Seu Coringa não é um mero “palhaço do crime”. É um sujeito que dá medo. Quando ele aparece já se sabe que algo muito ruim pode acontecer. A forma como compôs o vilão – o modo de andar, de lamber os lábios e a fala fantasmagórica, mais o visual borrado, com um “quê” de “O Corvo” -, faz o Coringa de Jack Nicholson, tão elogiado à época do primeiro Batman de Tim Burton, parecer brincadeira de criança. A atuação do falecido ator ganhou reconhecimento mundial, rendendo muitos prêmios póstumos a ele.

O difícil agora será encontrar algo melhor no quesito “filmes baseados em quadrinhos”. Pois “Batman – O Cavaleiro das Trevas” é a prova de que é possível agradar o público sem deixar de conceber uma trama inteligente. É a sensação de dever cumprido de seus realizadores e a satisfação imensurável dos fãs do homem morcego.

O DVD e o Blu-ray do filme têm áudio e legendas em inglês, português e espanhol. A edição dupla tem nos extras (quase todos também com áudio e legendas em inglês, português e espanhol) os bastidores do longa, entrevistas com equipe de produção e elenco e outras surpresas que irão agradar em cheio aos fãs da obra. Ainda que a ausência de Heath Ledger possa decepcionar o espectador.

O filme voltou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 2009, desta vez na tela IMAX (algumas cenas foram feitas especialmente para este formato). O intuito do relançamento do longa na tela gigantesca foi levar a produção a ultrapassar a bilheteria mundial de US$ 1 bilhão – fato consumado, tornando o filme  um dos poucos na história a conseguir a marca.

Além disso, o Blu-ray do filme bateu recordes de vendas em seu lançamento, superando as expectativas da Warner. Um divisor de águas na história cinematográfica.

BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS
(The Dark Knight, EUA / Reino Unido, 2008).
Direção: Christopher Nolan.
Roteiro: Christopher e Jonathan Nolan.
Elenco: Christian Bale, Morgan Freeman, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhall, Eric Roberts, Cillian Murphy.
Ação / Drama / Policial.
142 minutos.

Principais prêmios e indicações:

– Oscar: Ator coadjuvante (Heath Ledger), Edição de som.
– Indicação ao Oscar: Montagem, Efeitos visuais, Som, Maquiagem, Fotografia, Direção de Arte.
– Saturn Award: Melhor filme de ação / aventura / thriller, Trilha sonora, Roteiro, Efeitos visuais, Ator Coadjuvante (Heath Ledger).
– Sindicato dos diretores de arte: Excelência em produção de direção de arte.
– Bafta: Ator Coadjuvante (Heath Ledger).
– Indicação ao Bafta: Fotografia, Figurino, Montagem, Maquiagem, Trilha sonora, Direção de arte, Som, Efeitos visuais.
– Sindicato dos figurinistas: Excelência em figurino para filme de ação.
– Crítica de Chicago: Fotografia, Ator coadjuvante (Heath Ledger).
– Empire Awards: Filme, Diretor, Ator (Christian Bale).
– Globo de Ouro: Ator coadjuvante (Heath Ledger).
– Grammy: Melhor álbum de trilha sonora para filme, televisão ou outra mídia visual.
– Festival de Hollywood: Filme do ano de Hollywood.
– Crítica de Las Vegas: Ator Coadjuvante (Heath Ledger).
– Crítica de Los Angeles: Ator coadjuvante (Heath Ledger).
– MTV Movie Awards: Melhor vilão (Heath Ledger).
– Crítica de San Diego: Ator coadjuvante (Heath Ledger).
– Crítica de São Francisco: Ator coadjuvante (Heath Ledger), Fotografia.
– Sindicato dos Atores (SAG): Ator coadjuvante (Heath Ledger), Elenco de dublês.
– Crítica de Toronto: Ator coadjuvante (Heath Ledger).
– Crítica de Vancouver: Ator coadjuvante (Heath Ledger).
– Crítica de Washington: Ator coadjuvante (Heath Ledger).

Estreia no Brasil: 18/07/2008.*

Reestreia no Brasil em IMAX: 06/02.2009.

Reestreia no Brasil em salas convencionais: 13/02/2009.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

5 thoughts on “Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)

  1. Concordo plenamente com você, André. BATMAN BEGINS foi a grande ausência na lista dos indicados a melhor filme do ano. Uma injustiça. No entanto, o enorme sucesso artístico e de público é a sua grande consagração, coroada com a magistral interpretação de Heath Ledger , um grande ator que merecidamente ganhou todos os mais importantes prêmios para um ator coadjuvante. Em Batman Begins ele roubou a cena e ainda por cima deu o troco a Philip Seymour Hoffman,levando o Oscar deste ano – os dois previamente tinham se confrontado em 2006, tendo Heath (indicado pelo sublime Brokeback Mountain) perdido para Philip (vencedor por Capote). BRAVO, HEATH LEDGER! E parabéns, André, seu site está arrasando!!!

  2. Atuação sensacional deste grande ator. Mas ele não nos deixou na mão. Deu-nos um show de interpretação neste último filme do Batman, do qual sou fã declarado.
    Oscar de melhor ator coadjuvante merecidíssimo!!!

  3. a honra é do CineZen de receber a presença de leitores queridos e inteligentes. que os próximos filmes de super-heróis mantenham o nível deste!!!

  4. Quando assisti TDN, sai do cinema sem saber o que pensar, fiquei atordoado. Era um filme fantástico, sem dúvida, mas não consegui assimilar seu potencial. Levei um ano, mas hoje tenho certeza que este é o melhor filme da década, um marco de nosso tempo e um clássico do cinema.

    1. Fala Cesar, tudo bem? Com certeza é um clássico, inclusive eleito pelo público do IMDB, maior banco de dados do cinema na internet mundial, como o filme da década. O filme já tem recebido reconhecimento, mas terá muito mais com o passar dos anos… Devia ter levado os principais prêmios no Oscar e só não levou pq ainda existe preconceito com filme sobre super-heróis. Acontece que o Dark Knight ultrapassa o gênero… é drama policial como há muito não se via… e o Nolan mostrou que é possível alcançar bilheterias fantásticas sem abrir mão de uma trama com qualidade… Tem gente que aprendeu, outros continuarão batendo cabeça… abraços!!!

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