Superman renuncia à cidadania americana nos gibis e gera campanha direitista

Action Comics #900

Incrível como a arte pode desencadear discussões ora relevantes, ora babacas. Nem daríamos resposta à discussão, se alguns veículos da mídia poderosa norte-americana não decidissem apelar. Em Action Comics #900, HQ lançada esta semana nas lojas especializadas dos EUA, causou burburinho ao mostrar o Superman renunciando à cidadania estadunidense.

O Superman soviético na clássica HQ Entre a Foice e o Martelo

A história foi escrita por David Goyer, roteirista dos filmes recentes de Batman e do próximo longa do Homem de Aço. A trama retrata o herói defendendo o povo nas ruas de Teerã das forças opressoras do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinajad. E também renunciando à sua cidadania dos EUA, para não ter que submeter as ações aos desígnios do país ou da ONU. O último filho de Krypton argumenta que os governos o limitam e que o mundo é pequeno demais – e conectado demais – para depender desses conceitos.

A direitista, ultraconservadora, sensacionalista e hipócrita Fox News declarou que, agora, o Superman é “anti-americano”. Já o Examiner chegou ao ponto da intolerância ao publicar que a DC Comics, editora responsável pelos gibis do personagem, Batman, Mulher-Maravilha, entre tantos outros, será boicotada.

É o cúmulo do ridículo que meios de comunicação de grande porte dêem tanta atenção a uma história em quadrinhos. Nem quando o Superman foi soviético, na clássica HQ Entre a Foice e o Martelo, disseram besteiras assim.

A partir do momento que ele passou a ser publicado em vários países, tornou-se um personagem do mundo. Vale lembrar que, em “Superman IV: Em Busca da Paz”, último filme do herói estrelado por Christopher Reeve, Super-Homem decidia acabar com as armas nucleares do planeta. Eram os anos 80, tempos de guerra-fria. Oeste contra o Leste. Auge dos filmes que mostravam personagens dos EUA derrotando soviéticos, latinos, etc. “Rambo”, o próprio Rocky Balboa, em “Rocky IV”, e muitas outras produções surgiram com essa visão ufanista. Depois ainda seríamos obrigados, na década seguinte, a ver um presidente americano liderando soldados terrestres contra aliens em “Independence Day”. Ufanismo é pouco. Um dos momentos mais constrangedores e ridículos do cinema daquela nação. E mesmo nessas ocasiões, quando o homem de aço resolveu não ser apenas estadunidense, veículos de comunicação comentaram tanto.

Action Comics #900

Em pleno século XXI, propagar uma campanha de direita apenas por que um personagem dos gibis decidiu servir ao planeta que o acolheu, agir em igualdade para todas os povos, é sinal de desespero das mentes conservadoras. Os EUA podem ser o país com o maior poder monetário, com o maior poder bélico no mundo, mas jamais podem se considerar a voz do planeta, ainda que líderes frágeis e gananciosos de outras nações abaixem as cabeças para garantir a fatia do bolo.

"Superman IV": herói atende pedido de garoto e luta contra ameaça nuclear

O outro lado da mídia dos EUA também deu a cara. O New York Post publicou uma declaração conciliatória do co-publisher Dan Didio: “O Superman é um visitante de um planeta distante que há muito abraçou os valores dos EUA. Como personagem e como ícone, ele incorpora o melhor do Modo de Vida Americano. Em uma história curta na revista Action Comics #900, ele renuncia à sua cidadania para dar um foco global à sua batalha que nunca termina. Mas ele permanece, como sempre, comprometido com seu lar adotivo e suas raízes, como um garoto fazendeiro do Kansas vindo de Smallville”.

A polêmica recebeu comentários no Twitter de vários autores. Os mais liberais gostaram da ideia – apesar de que ainda não se sabe se a mudança será aceita como cânone do personagem – e os mais conservadores obviamente chiaram.

O episódio ainda serviu para ilustrar o desconhecimento do grande público sobre o universo dos quadrinhos: Steven Whacker, editor da Marvel Comics, recebeu vários e-mails com reclamações pelo que a sua editora havia feito com o Homem de Aço. Relembrando, o Superman é da DC. E a ignorância segue bela e formosa em todas as camadas da sociedade…

PS: Será muito bom se David Goyer  e companhia utilizarem o contexto dessa história para “Superman – O Homem de Aço”, próximo filme do herói. O CineZen apoia a ideia.

Action Comics #900
André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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