Último Tango em Paris: O Amor além dos valores sociais

Maria Schneider e Marlon Brando

Seria o Amor uma mera invenção do homem? Mas o que representa esse sentimento além dos valores atribuídos e incorporados pela sociedade? Esses são os temas que entrelaçam uma história aparentemente simples, mas que questiona um dos principais sentimentos humanos.

Em “Último Tango em Paris”, o diretor Bernardo Bertolucci revela o Amor e seus dramas, sem rótulos, o Amor incondicional, com suas dores e a eterna incompreensão desse sentimento tão real e ao mesmo tempo tão abstrato.

Marlon Brando interpreta Paul, americano de meia-idade que vê sua vida ruir com o suicídio da mulher. Ao caminhar pelas ruas de Paris, encontra uma jovem parisiense (Maria Schneider), com a qual viverá uma paixão imensa por três dias.

A vida dos personagens principais (Jeanne e Paul) se realiza num quarto sem mobília. Sem se conhecerem, envolvem-se intensamente e iniciam uma verdadeira reconciliação de si mesmos por meio do sexo, de forma mais instintiva possível. Ali, sem estipular regras, sem estabelecer qualquer contato com o mundo lá fora, desnudam a si e ao mundo. Constroem um mundo distante dos padrões sociais, onde impera os sentidos e desconstroem-se, reinventam-se na vida.

Para que os instintos sobreponham às regras sociais, eles estabelecem entre quatro paredes que a única regra é não falar nada sobre as vidas pessoais No segundo encontro, Jeanne diz: “é lindo não saber de nada!”. Chegando ao extremo, substituem os próprios nomes por grunhidos. Assim subvertem o mundo, seus significados e os fetiches por uma vida onde o instinto sobrepõe. Talvez o verdadeiro sentido além de rótulos, títulos, exigências sociais, onde as sensações prevalecem sobre os valores instituídos pela sociedade.

http://www.youtube.com/watch?v=NWaGLOMZPUY

Numa cena marcante para o cinema e que ficará gravada na mente de muitas gerações, a jovem Jeanne em diálogo com Paul: “Vou falar-lhe de segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo.”

Bertolucci tinha apenas 32 anos quando dirigiu “Último Tango em Paris”. Sem dúvida, uma obra-prima do cinema, madura, reveladora, provocadora e que nos faz repensar todos os nossos valores. Que nos faz questionar o sentido de cumulação, sendo que o maior sentido, no cerne, é apenas viver a vida.

Curiosidade – Marlon Brando não usava maquiagem e praticamente improvisou todas as suas falas, fazendo com que o personagem se confundisse com o ator real. Lançado em 1972, o filme teve sua exibição proibida no Brasil até 1979 pelas cenas consideradas, na época, muito chocantes.

ÚLTIMO TANGO EM PARIS
(Ultimo tango a Parigi / Last tango in Paris, Fraça / Itália, 1972).
Direção: Bernardo Bertolucci.
Roteiro: Bernardo Bertolucci, Franco Arcalli e Agnès Varda (adaptação do diálogo em francês).
Elenco: Marlon Brando, Maria Schneider, Maria Michi, Giovanna Galletti, Jean-Pierre Léaud, Massimo Girotti.
Drama / Romance / Sexo.
129 minutos (tempo da edição brasileira em DVD).

Principais prêmios e indicações:

– Indicação ao Oscar: Diretor, Ator (Marlon Brando).
– Indicação ao Globo de Ouro: Filme/Drama, Diretor.
– Sindicato Italiano dos Jornalistas de Filmes: Diretor.
– Crítica de Nova York: Ator (Marlon Brando).
– David di Donatello Awards: Prêmio Especial (Maria Schneider).

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *