Valdir Alvarenga e a Mirante seguem firmes e fortes na disseminação cultural

Fotos: Arquivo/Valdir Alvarenga

O poeta e editor da revista, Valdir Alvarenga

Fim dos anos 70, começo dos 80. Os militares ainda estavam no poder, mas teriam apenas mais alguns poucos anos no (des)comando político do Brasil. Na capital Brasília, Renato Russo e companhia, garotos endinheirados, filhos de diplomatas e políticos e, em São Paulo, uma molecada da Zona Leste, que precisava batalhar o pão de cada dia, tinham algo em comum: descobriam a liberdade de criação musical pelo punk rock. Influenciados pelo lema “faça você mesmo”, que já havia eclodido no Reino Unido e nos EUA, criavam música sem esperarem o apoio das grandes gravadoras.

Outros jovens, de Santos, litoral paulista, sem ligação com o punk e nem a influência estrangeira, faziam eles mesmos a difusão da literatura através do Picaré: núcleo de escritores criado por Raul Christiano Sanchez e Rafael Marques em 1979. Assim como os músicos que atuavam fora do mainstream, e por isso muitas vezes incompreendidos por cabeças reacionárias, os escritores do grupo, de cunho antiacademicista, realizavam o que ficou conhecida como poesia marginal. Fez-se então o embrião do que, pouco tempo depois, seria a Mirante que, hoje, próxima dos 29 anos de existência, detém o título de mais longeva revista literária independente do país.

Em entrevista exclusiva, o editor da Mirante, poeta e coordenador do Projeto Leia Santos, Valdir Alvarenga, autor dos livros Plenilúnio, Pequeno Marginal e Autógrafo, conversou com o site sobre a trajetória da publicação trimestral, lançada em eventos que reúnem música, poesia, produtores culturais, jornalistas e escritores, em locais descolados de Santos, como a livraria Porto das Letras, o Espaço Corisco Mix e a Biblioteca Municipal Mário Faria, na orla da praia.

A semente

Reunião do Picaré em dezembro de 1981 - Valdir é o sexto em sentido contrário


Um dos grandes marcos na época do Picaré foi a Feira de Literatura Independente, de 1981, onde a poesia dominou o foyer do Teatro Municipal de Santos por uma semana, com mostras de livros, varais de poesia, recitais e mesas redondas, tomadas por autores de todos os cantos do Brasil. “No final do evento, a apoteose: Santos, cidade de memoráveis passeatas de reivindicações políticas e estudantis, pela primeira vez viu uma passeata poética, que seguiu pela avenida Ana Costa, rumo à praça Independência”, recorda Valdir. No evento, encontravam-se Antonio Canuto, Edilza de Souza, Sergio Marques Ferreira, Orleyd Faya, Fausto José, Vieira Vivo, Inês Bari, Sidney Sanctus, que viria a se tornar coeditor da revista, e o próprio Valdir.

Durante sua existência, o Picaré editou e lançou importantes trabalhos, como Plenilúnio, primeiro livro de Valdir; Sol da Noite, de Inês Bari; Caosurbanocromia, de Alex Sakai, e Fruto Futuro, de Canuto, além de A Produção Independente na Literatura, catálogo para o movimento produzido por Raul Christiano. “Mas como tudo – na vida – que começa tem um fim, o grupo Picaré encerrou suas atividades pesqueiro-poéticas, mas seu espírito continuou e continua através de Mirante”, diz Alvarenga.

O começo e o crescimento da revista “mutante”

Capa da edição número 4 da Mirante

Em 1982, Valdir e Antônio Canuto, numa necessidade quase física em continuar a produção literária alternativa e abrir espaço para novos autores, criaram a Mirante, de postura ética livre e engajamento político e partidário diferente da linha editorial do Picaré. O nome foi escolhido por Alvarenga: “No morro da Penha, onde fui criado, havia um mirante que me possibilitava avistar a Cidade”, lembra.

Desde então, a revista desenvolveu seu caráter “mutante”, como costuma definir o editor. Feita a partir de folhas de sulfite A4 e então mimeografada, a Mirante trouxe em seu número 1 “A Arte de Araquém (Alcântara)”, fotógrafo que teria seu trabalho reconhecido internacionalmente, e uma célebre entrevista com o jornalista e escritor Roldão Mendes Rosa, falecido em janeiro de 1988. Vale republicar trecho da matéria, reproduzido em reportagem do jornal A Tribuna, de Santos, em 12 de abril do ano passado.

Ao ser perguntado sobre qual a importância das academias para a literatura, Roldão respondeu: “Se um dia as academias fossem fechadas – eu não defendo isso, a vida literária continuaria a fluir do mesmo modo. Quem cultiva rosas continuaria a cultivá-las e quem planta batatas continuaria a plantar batatas. O que interessa das academias, atualmente, é o prêmio literário. O premiado edita seus poemas, fica um mês de papo pro ar e compra um tênis na esquina”, disparou.

E a Mirante seguiu a passos largos e independentes sem render-se à academia e ao mainstream, muitas vezes fazendo mais pela cultura do que determinadas entidades oficiais. Afinal, sempre resgatou a obra de autores consagrados – publicou textos de Vinícius de Moraes, Rimbaud, Pablo Neruda e T.S. Eliot, entre outros, bem como disseminou autores da Baixada Santista – a exemplo do próprio Roldão, Madô Martins, Narciso de Andrade, Carolina Ramos, Sidney Sanctus – e outras localidades do país e até Portugal. São mais de cem autores e artistas publicados.

| Sidney Sanctus e o amor pela poesia e as artes

Manifesto da literatura marginal, chegou a ser alvo das mentes distorcidas da Ditadura Militar. “Foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional porque literatura marginal era sinônimo de subversivo”, recorda Valdir.

A nova fase

Lançamento da Mirante 72 na Biblioteca Mário Faria

Entre 1997 e 2007, Valdir contou com a parceria de sua então esposa Cláudia Brino. Depois da separação, a revista voltou a ser apenas dele, que expandiu o conteúdo editorial para outras áreas da cultura. Atualmente, a Mirante tem poesia, prosa, quadrinhos, caricaturas, textos sobre cinema, teatro, artes plásticas, etc. E a cada edição traz um tema em destaque, seja ligado ao signo do mês, bem como a datas importantes, como o centenário do nascimento da poeta norte-americana, que viveu anos no Brasil, Elizabeth Bishop, matéria de capa da edição 72, lançada em março deste ano. Imperdível para os cinéfilos de Santos é a série de reportagens de Paulo Renato Alves sobre a história dos cinemas no município.

A revista de 84 páginas segue feita em sulfite, agora reproduzida em xerox, é diagramada pela mulher de Valdir, Irene Estrela Bulhões, que trouxe novas ideias e expandiu o visual da publicação, e coeditada por Sidney Sanctus. Realizada dessa forma, mantém uma forte ligação com o passado, em alguns casos um passado quase esquecido e ressuscitado pela publicação, porém sem esquecer a modernidade. Incentivador cultural que é, Valdir faz questão de, em todas as edições, sempre colocar no expediente endereços de sites que abordam a cultura da Baixada Santista. A mesma edição 72, que inovou ao trazer a diagramação em formato “calendário”, presenteou o leitor com o encarte especial “A Volta de Namor”, escrito por Argemiro e ilustrado por Ziraldo, publicado originalmente no Pasquim em 1974.

O poeta

Valdir Alvarenga

Questionado se a Mirante dá algum retorno financeiro (o exemplar custa R$ 10), Valdir demonstra que não se trata de fator preponderante para seguir editando-a. É raro exemplo de pessoa que não perde tempo com discursos forjados para agradar gregos e troianos ou discussões teóricas que não chegam a lugar algum. Não precisa ficar apedrejando de forma gratuita colegas do meio cultural para chamar a atenção.

Em seu perfil no Orkut, se define como “amante da poesia, devoto da natureza, meu Deus é a vida a quem agradeço por tudo que me tem oferecido, meu modo de viver é simplesmente viver cada momento, pois ele é sempre novo”. É apaixonado por astrologia, música clássica, literatura, o universo, “tudo que eleva e nos leva e conduz ao sentimento de estar vivo num planeta maravilhoso embora tão maltratado”. Faz aquilo que ama, necessita e acredita. Considera-se abençoado, já que pôde trabalhar com literatura: é funcionário público na Biblioteca Municipal Alberto Souza, e dirige o Leia Santos, da Secretaria de Cultura. Do projeto, saíram o Espaço Leitura, que disponibiliza jornais e revistas de forma gratuita à população, e o Adote um Livro, pelo qual são distribuídas entre 100 e 150 obras literárias semanalmente, em diferentes locais de Santos. Tem como projeto relançar o livro Autógrafo. Que demais envolvidos com a cultura santista o tenham como exemplo.

Interessados em adquirir a Mirante, assiná-la ou colaborar com a revista, podem escrever para mirantepoesias@hotmail.com.

Projeto Leia Santos no Dia Mundial da Água
André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

One thought on “Valdir Alvarenga e a Mirante seguem firmes e fortes na disseminação cultural

  1. É isso aí, meu irmão! Vamos continuar juntos essa batalha pela disseminação da poesia e das artes. Seu trabalho é maravilhoso, vc não avalia a importância q vc tem nesse nosso mundo poético! Parabéns, grande abraço! PELA POESIA !!!

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