Uma reavaliação de Superman – O Retorno

Kate Bosworth e Brandon Routh não deixaram saudades nos fãs

Lá por 2004, quando foi divulgado que o Superman ganharia um novo filme, os fãs se empolgaram. Afinal, o diretor seria Bryan Singer, responsável pelos primeiros excelentes longas dos X-Men e que largara a série mutante para realizar o sonho de filmar seu herói favorito. O cineasta era tão admirador dos dois primeiros filmes do personagem, estrelados por Christopher Reeve em 1978 e 1980, que decidiu fazer de “Superman – O Retorno” uma continuação daquelas produções, ignorando o terceiro e o quarto trabalhos de Reeve no papel. O resultado foi uma trama contemplativa, com várias referências ao original, citações bíblicas, romance e pouca ação, sem contar a falta de química e carisma dos atores que viveram Clark Kent e Lois Lane, respectivamente Brandon Routh e Kate Bosworth. Público e crítica ficaram divididos, a bilheteria foi abaixo do esperado pela Warner e a franquia kryptoniana precisaria ser reiniciada no cinema.

Brandon Routh, Kevin Spacey e Bryan Singer durante as filmagens de "Superman Returns"

Ao ser entrevistado pelo site Voices From Krypton, Singer reavaliou seu trabalho no longa de 2006. “Eu nunca falei muito sobre isso e é uma coisa difícil, porque tenho orgulho do que [o filme] é. Há muitos filmes meus que acho que foram fracos e que poderia ter feito melhor e sei os motivos. Mas em ‘Superman – O Retorno’… se eu voltasse a ele, faria um primeiro ato mais forte. Talvez abrisse com o avião ou algo assim”.

O diretor explica sua visão sobre a fábula do Homem de Aço. “Sempre achei que a origem do Super-Homem era a história de Moisés – uma criança enviada numa nave para cumprir seu destino. E também é a história de Cristo e todo o seu sacrifício. Então, quis fazer a minha versão e achava o mito de Cristo tocante. Coloquei a minha própria visão, o que é uma porcaria para um filme de verão. Hoje, se eu fosse produzir uma continuação, seria um reinício. Voltaria e faria novamente o original, mas só pensei nisso recentemente. Seria muito menos romântico e mais cheio de ação. Seria algo bem diferente de ‘O Retorno’ e posso dizer isso hoje quando já mantenho uma distância dele”.

http://www.youtube.com/watch?v=ZSsYSqg6AtA

É importante ressaltar que “Superman – O Retorno” não é essa porcaria e nem foi o fiasco financeiro que muitos consideram. O filme custou cerca de US$ 200 milhões e rendeu o dobro ao redor do mundo. Um bom lucro, mas aquém de um blockbuster protagonizado pelo principal super-herói dos quadrinhos. Se levarmos em consideração que “Batman – O Cavaleiro das Trevas” arrecadou mais de US$ 1 bilhão… Além disso, conta com cenas espetaculares, como aquela em que o último filho de Krypton salva um avião em queda, ou a em que ele, mesmo afetado pela kryptonita, se desfaz no espaço do continente rochoso criado por Lex Luthor. A metáfora para a jornada de Jesus Cristo e a inclusão de um filho para o herói são pontos interessantes na trama, mas que poderiam ter melhor desenvolvimento.


O calcanhar de Aquiles da obra foi o elenco. O geralmente interessante Kevin Spacey recriou o Lex Luthor encarnado por Gene Hackman na franquia original. E a dupla protagonista sofre da falta de carisma. Brandon Routh parece um clone de Christopher Reeve que deu errado e Kate Bosworth, tadinha, soava muito nova e bobinha para interpretar alguém expressiva como Lois Lane.

O fato do Superman não trocar sopapos com ninguém também não ajudou. Numa determinada cena, sem seus poderes graças à kryptonita, ele é cercado pelos capangas de Lex e não esboça reação. Como se dependesse dos poderes para demonstrar coragem.

Daí todo o cuidado que a Warner tem para o novo filme do herói, que será lançado em 2012. O diretor escolhido, Zack Snyder, é expert em cenas de ação regadas a suor e muitos músculos (“300”, “Watchmen”). O elenco já tem Henry Cavill (série “The Tudors”) no papel principal, a ótima Amy Adams como Lois Lane, os experientes Kevin Costner e Diane Lane como os pais de Clark e o talentoso Michael Shannon para viver o temido General Zod. O roteiro é de ninguém menos que David Goyer e Christopher Nolan, dos últimos filmes do Batman, o que deve garantir inteligência ao enredo. Nolan ainda é produtor do projeto. Nos resta esperar e conferir se o Super receberá, dessa vez, o tratamento adequado, a exemplo daquele dado ao Cavaleiro das Trevas recentemente. Potencial para tanto existe.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

2 thoughts on “Uma reavaliação de Superman – O Retorno

  1. Olá André Azenha. 4 anos depois da publicação do artigo eu a encontro, pois sou um grande fã desse filme, apesar de reconhecer suas limitações (entre as quais incluo apenas uma que você mencionou que é sobre a aparente idade de Lois). Nos mais, eu acho que a principal fraqueza do filme enquanto obra e não enquanto produto foi o plano de Luthor (apesar de entender como ele serve ao roteiro e como ele pode relido como uma metáfora da ambição irracional e destrutiva da mente humana) e acrescentaria também o uso inoportuno de CG em algumas cenas. No mais, acho que os atores se saíram muito bem, inclusive Brandon Routh foi muito elogiado por críticos de cinema (quem reclama da sua apatia, realmente não entendeu a alma do personagem nem o momento em que ele vivia: a constatação da completa destruição de Krypton, o “casamento” da Lois, etc.) Ao você falar que ele não esboçou reação diante dos capangas de Luthor, você acabou ignorando que a kryptonita não só tira os poderes dele como é mortal o deixando totalmente debilitado e um homem totalmente debilitado não teria condições de reagir a ex-presidiários brutamontes, principalmente um homem sem o menor treino em artes marciais.
    Além do mais, comparar The Dark Knight com Returns me soa exagerado, já que TDK é um ponto fora da curva e ele surgiu depois que a franquia já havia sido reestabelecida com Batman Begins (que, diga-se de passagem, faturou menos que SR).
    Volto a dizer que, na minha opinião, o filme não falhou enquanto filme ou obra de arte, mas sim enquanto produto, uma vez que ele depende totalmente dos clássicos para ser apreciado e compreendido em sua plenitude, o que seria improvável para a geração mais jovem de expectadores.
    No mais, acho um filme bem superior à massa de filmes “blockbuster”, bem superior a “Man of Steel” (aí sim, Lois e Clark não têm química, ou têm ainda menos), o que se comprova pela comparação entre a recepção da crítica e o número e importância das premiações dada a ambos. Eu ainda acho que a Warner errou ao não continuar e errou mais ainda ao escalar Snyder como diretor e ainda mais ao fazê-lo atrelado ao Nolan, pois são estilos totalmente diferentes e isso ressoa no filme, totalmente esquizofrênico se analisados o primeiro e os segundo e terceiro atos como uma unidade.
    No mais, como fã do personagem, apesar da desconfiança, torço pelo sucesso de Batman v Superman.

  2. O que dizer sobre o comentário do Wagner, simplesmente espetacular. Vou salvar tanto a crítica quanto o cometário, dignos de uma moldura.

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