Era uma vez a Chapeuzinho Vermelho…


A diretora Catherine Hardwick começou a carreira impressionando a crítica com o drama adolescente “Aos Treze” (2003). Depois, foi massacrada pelos jornalistas e arrebatou o público com o romance sobrenatural “Crepúsculo” (2008). Pairava a dúvida sobre o talento da cineasta perante a plateia adolescente. “A Garota da Capa Vermelha”, novo trabalho dela, até surgiu com premissa interessante, de mostrar uma versão mais sexy e sombria da fábula de Chapeuzinho Vermelho. No entanto, acabou devastado pela mídia e teve bilheteria decepcionante nos EUA. Merecidamente.

Amanda Seyfried é Valerie, jovem dividida entre o casamento arranjado com o rico Henry (Max Irons) e seu verdadeiro amor, o lenhador Peter (Shiloh Fernandez). A situação se agrava quando sua irmã é morta por um lobisomem e um padre caçador (Gary Oldman) alerta: durante o dia a fera tem aparência humana e está entre eles.

Difícil não comparar o filme com “Crepúsculo”. Além da diretora e a presença de Billy Burke como o pai da heroína, há o triângulo amoroso teen e o ambiente gelado em meio à floresta. E Robert Pattinson fez escola. Os dois jovens que disputam o coração de Valerie possuem a mesma nulidade como intérpretes apresentada pelo vampiro sem sal. Vai ver todos buscaram inspiração em nosso querido Ricardo Macchi, o cigano Igor da novela “Explode Coração”, que repetia as (in)expressões para cenas de alegria, tristeza, raiva, etc.

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O restante do elenco é respeitável. Daí a grande decepção. Temos o atual Comissário Gordon Gary Oldman, Virginia Madsen, experiente em longas que realmente assustam (“O Mistério de Candyman”, “Anjos Rebeldes”), a veterana Julie Christie e Amanda Seyfried (“Mamma Mia!”). Só que não há química nem atuações inspiradas. Seyfried, que ofuscou e acabou com a carreira de Megan Fox em “Garota Infernal” (2009), tem beleza, talento, carisma, mas parece mal agenciada, se entregando a papeis que não a deixam mostrar suas qualidades.

Amanda Seyfried, Billy Burke e Virginia Madsen

Em seu primeiro filme como diretora, Hardwick reclamou do baixo orçamento que a teria impedido de trabalhar melhor a direção de arte e os efeitos visuais. Com “A Garota da Capa Vermelha” tal argumento parece desculpa esfarrapada. Os cartazes do filme impressionaram com o contraste entre o vermelho da capa de Valerie e a neve. Herança de “Herói” (2002), do chinês Zhang Yimou, no qual Maggie Cheung e Zhang Ziyi surgiam vestidas de vermelho entre árvores, em lindas imagens. Na produção oriental, as cores eram fundamentais para o desenvolvimento da narrativa. O que não ocorre aqui. O rubro está presente apenas para lembrarmos em qual história a trama é inspirada.

Voltando a “Crepúsculo”, a diferença entre Chapeuzinho e os vampiros bundões criados pela escritora Stephenie Meyer, é que a história da personagem está inserida no subconsciente mundial. Não se trata de literatura rasa, que vende milhões e pouco tempo depois cai no esquecimento, porém uma fábula que seguirá sendo contada de geração para geração, independente de produções cinematográficas ruins baseadas nela.

Curiosidade: Leonardo DiCaprio tentou pegar carona no filão adolescente e coproduziu o filme. Se deu mal.

A GAROTA DA CAPA VERMELHA
(Red Riding Hood, EUA / Canadá, 2011).
Direção: Catherine Hardwicke.
Roteiro: David Johnson.
Elenco: Amanda Seyfried, Lukas Haas, Gary Oldman, Billy Burke, Virginia Madsen, Julie Christie, Michael Shanks, Shiloh Fernandez.
Fantasia / Terror / Suspense.
110 minutos.

Estreia no Brasil: 21/04/2011.

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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