Junior Brassalotti em papo exclusivo
Imagens: Divulgação / Acervo pessoal Junior Brassalotti

Junior Brassalotti pode ser considerado um exemplo de profissional competente que faz o que faz não somente por saber e entender o ramo no qual trabalha. Atua também por amor. Ao cinema. Ao teatro. À cultura. Diretor de produção do Curta Santos, ator, produtor cultural, artista circense, Junior voltará aos palcos com o espetáculo “O Que Terá Acontecido a Rosemary?” dia 25, em Santos – a peça também será apresentada nos dois dias seguintes, em Cubatão. O CineZen aproveitou a notícia do espetáculo para bater um papo exclusivo com ele, que falou ainda sobre sua trajetória profissional, a relação com o cinema e o teatro, o Curta Santos, o legado de Toninho Dantas, e o movimento teatral na região. Junior participará, em 2 de abril, no Ao Café, da segunda edição do CineZen Convida, que ainda terá as participações do coordenador do CINEME-SE, Eduardo Ricci, do cineasta Carlos Oliveira, e do cinéfilo e palestrante Waldemar Lopes. Confira a entrevista completa:
Primeiro nos conte um pouco sua história. Como você se tornou ator, produtor, diretor de festival e agitador cultural?
Junior Brassalotti - Comecei em 1994, no extinto Projeto Carlitos, da Secretaria de Cultura de Santos, que iniciou muita gente que ainda está na estrada. Dali já conheci uma galera que fazia parte de grupos de teatro amador e fui me enfiando até entrar substituindo um ator. Tinha um pessoal nesse grupo que participava da organização do FESTA – Festival Santista de Teatro Amador, onde eu também me enfiei na produção. Fiz o FESTA até 2001 como produtor e, em 2005, fiz também, daí parei por causa do Curta Santos mesmo e já estava trabalhando com alguns grupos como ator e até vivendo basicamente de teatro nesse época. Até hoje já passei de 30 peças de teatro, como ator, diretor, maquiador. Até figurino assinei já. Em 2000, comecei a dirigir também algo que sempre tive vontade, dei sorte com os elencos e fiz alguns espetáculos como diretor e ganhamos vários prêmios. Nunca parei de fazer cursos e aulas, e viajei muito pelo país com peças infantis e adultas. Do teatro, pulei para a dança, que já gostava, fiz teste pra Cia Atrium de Dança Contemporânea (hoje Athos), de Miriam Carbonaro, e entrei como bailarino. Fiz vários espetáculos de dança e até prêmio de bailarino ganhei. Hoje ainda estou na Cia, a qual também produzo. Estamos preparando um espetáculo novo pra esse ano em homenagem ao maestro Gilberto Mendes.
Em 2004, abriu a Escola Livre de Circo na Oficina Pagu. Já tinha feito algumas aulas anos antes, então entrei, fiz cinco anos de escola, passei a dar aulas de circo, o que faço até hoje e adoro, pelo nosso grupo, OS PANTHANAS, demos aulas em todas as cidades da Baixada Santista e Vale do Ribeira. Formamos grupo, montamos espetáculos e profissionalizamos a equipe. Foi só ai que tirei meu DRT, como palhaço, por pura opção, pois depois de mais de 10 anos trabalhar como ator, bailarino e palhaço, vi que o palhaço era o mais bonito e difícil de todos, e uma coisa sempre ajudou e completou a outra. Nesse grupo, vamos estrear outro espetáculo de rua esse ano também, chamado”Uma Palhaçada Federal”, que fala de política pelo olhar do palhaço.
No meio disso tudo já me metia e tentava entender como funcionam as políticas públicas voltadas pra cultura e como eu poderia ajudar a classe artística além do meu trabalho de ator/produtor. O produtor nasceu da necessidade de viabilizar meus projetos, de criar espaços e possibilidades de trabalho pra mim e para os outros, acreditando sempre no potencial da cidade e que aqui poderia ser um campo fértil, não só de talentos que já notório, mas de possibilidades de trabalho através da cultura sem perder o foco do artista como provocador e agente transformador e questinador da sociedade na qual se insere, senão é vazio… Paralelo a isso, em 2002, surge a produção do Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo aqui, que deu origem ao Curta Santos, mas isso já outra longa história de amor…
Como surgiu a ideia do espetáculo e por que homenagear “A Malvada” e “O Que Terá Acontecido à Baby Jane?”
JB - A ideia é do autor do texto, também protagonista do espetáculo, Kadu Veríssimo, alguém que eu já admirava e escreveu esse texto como homenagem ao circo-teatro, aos melodramas, às divas do cinema e seus filmes e situações clichês que nós amamos não contar pra ninguem que amamos… Ele pegou as tramas desses dois filmes e fez uma história hilária e contemporânea, que fala dessa doença moderna da meritocracia e desejo avassalador pela fama, por mais vazio que seja isso. Toda comédia é acima de tudo crítica, nós assumimos o besteirol como referência, mas por trás dele vai toda uma reflexão sobre a solidão dos personagens, essa doença dos 15 minutos de fama a todo custo, que aquele menino Warhol cantou um tempinho atrás, mas tudo embalado num monte de clichês que a plateia identifica de imediato e ri. Muitas vezes de si mesmo.
Bem, daí o Kadu chamou o André Leahun, que já tinha feito muito trabalho de comédia no teatro, resolveram me chamar sabe Deus por que, André sugeriu o nome do Luiz Fernando, que também produz, e dai começamos a estudar e nasceu essa perversão imoral que a gente não tem o menor pudor de fazer. Entramos em cartaz de novo aqui em Santos, em abril num novo espaço cultural no Centro, o Teatro Aberto, do lado do Theatro Guarany, e em maio subimos pra temporada na capital paulistana. Estamos atrás de patrocinio aliás, interessados, junior@curtasantos.com.br, por favor.
O espetáculo faz referência ao cinema e você trabalha tanto com teatro, como a sétima arte. São artes complementares? Qual a mais complexa ou difícil? Prefere alguma?
JB – O cinema é a arte que percorreu o século XX de uma maneira avassaladora. Não dá pra não tê-lo como referência. Teatro é a base do ator e sempre vai ser, salvo raríssimas exceções, mas acho que um se alimenta do outro não tem como… é um sem número de peças que viram filmes, todo filme começa da palavra escrita, e até hoje ninguém superou Aristóteles na hora de estudar como se escreve bem, está tudo nele…
Enquanto complexidade, cinema é um epopéia não é? Nem vou entrar aqui na dificuldade de fazer cinema NO BRASIL! outra pauta… Mas é um trabalho hercúleo levantar a produção de um filme e as filmagens em si, mas comunga no teatro no sentido da arte coletiva.
E pra mim, não vivo sem os dois. Teatro é paixão, cinema é amor. Fui parar no teatro por que queria entender o que era fazer aquilo que aquele moço que eu achava bom fazia, não sabia que isso era atuar e que aquilo que ele fazia era cinema e que tinha que ser ator pra estar naquela tela, e que para ser bom ator teria que fazer teatro… Em tempo, o moço era o Jack Nicholson.

Junior no espetáculo "Os Phantanas", Teatro Brás Cubas
Santos é uma cidade que possui muitas pessoas lidando com cinema e teatro. Mas no teatro, por exemplo, parece que não há uma movimentação unida. Qual a sua opinião sobre o teatro em Santos? O que fazer para aumentar o público dos espetáculos locais?
JB – Na verdade, sinto a classe teatral como a mais organizada de todas. Existe um movimento cultural que está cada vez mais se pluralizando e unindo forças, mas o pontapé inicial é sempre dos reclamões do teatro.
Um grande orgulho pra classe teatral, por exemplo, foi em 1998 quando o então recém eleito prefeito Beto Mansur quis fechar a Secult, juntar pasta com Turismo e educação, acho. A classe deu plantão na Câmara, deu escândalo, manifestações, fez abaixo assinado, plantão nas sessões da Câmara, sempre cheios de bom humor e com apresentações artísticas e tanto barulho público que ele não teve alternativa, senão voltar atrás e manter a Secult… Colocamos a opinião pública a nosso favor, mobilizamos as classes todas, foi o último momento de união real da classe artística em Santos que me lembro, ou seja, se não fosse o Teatro santista, hoje não teríamos uma Secretaria de Cultura. Isso é histórico. Justiça seja feita, à frente desse movimento na época estava o Toninho Dantas.
Outra vitória recente da classe é a implementação do Facult, uma lei de incentivo local, que padece de alterações, que tenho certeza, serão feitas visando a melhoria do edital para as próximas edições, que é um fruto de um longo processo que finalmente frutificou.
Hoje é um período meio estranho e nebuloso que já vem de algum tempo. Houve sim uma queda de qualidade nos trabalhos dos grupos estabilizados, o que afastou o publico e o interesse da imprensa local – aliás, essa sempre foi uma grande aliada do Teatro santista, com chefes de redação/jornalistas sensíveis e que pensavam e refletiam o papel do produtor/produto cultural junto a esses. Hoje isso já não acontece, mas sinto ventos positivos surgindo. O poder público tem papel nisso também. Reformou-se muito teatro (Coliseu, Guarany), mas não se trabalhou o ser humano. A Escola de Artes Cênicas até hoje não disse a que veio, já passou por várias administrações e nunca se viu um espetáculo de ponta. Mas, ahhh… a esperança…
E para trazer o público de volta para os nossos espetáculos acho que falta apenas uma coisa: bons espetáculos.
Em relação ao cinema, você dirige o Curta Santos, principal evento cultural da cidade atualmente e um dos festivais de curtas mais importantes do país. Ano passado perdemos o saudoso Toninho Dantas. Como foi a transição em lidar com a perda de alguém fundamental para o evento e seguir com o mesmo nível de excelência? Quais os principais desafios do Curta Santos daqui pra frente?
JB – Nunca iremos fazer o Curta Santos sem o Toninho. Ele está nos nossos ossos. Quem trabalhou/conviveu com ele entende. Ele deixou uma equipe coerente e apaixonada pelo evento, pela cultura local e pela cidade. Não só trabalhávamos juntos, mas acreditávamos nas mesmas coisas. Daí a segurança em seguir adiante, coesos uns com os outros e com ele. O Ricardo Vasconcellos (diretor geral) é um líder nato. A Tássia, que cuida das mostras, é de um profissionalismo ímpar. O Zé, que cuida da imprensa ultra responsável. O Rodrigo, que está conosco a alguns anos, mostrou a que veio. A Raquel Pelegrini sempre ponta firme… Enfim, um pessoal cheio de gás e que entendeu a “lição”. Toninho, jamais alcançaremos o padrão dele, pois não somos ele, faremos o que acreditamos ser sempre o melhor, mas estudando, discutindo, duvidando, provocando, atentos ao real que cerca e de olho em quanto podemos melhorar nossa sociedade através da arte. Sem nunca ter certeza, mas sempre de mãos dadas com a dúvida, que nos move, nos questiona, nos instiga e faz ir em frente. Já dizia o eterno Brecht: “De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida”.
O Curta Santos é um desafio novo a cada ano, com ou sem o Toninho, sempre foi. Sempre partimos do zero, do nada, conversamos muito até chegar ao tema, que sempre nos move e dá a liga do evento como um todo, até os recursos para viabilizar o mesmo. O principal pra gente é nunca se repetir, tentar ficar com olhos abertos para o mundo, para o ser humano, acompanhar o real, e refletir sobre ele no presente, de uma maneira que possamos falar ao maior número de pessoas possíveis, mas através das obras de terceiros. Louco isso, não? Pois não produzimos as obras, somos janela de exibição, discutimos o mundo a partir do olhar do outro.
Percebemos na Baixada Santista pessoas abnegadas em realizar arte e cultura. Atualmente, qual o papel dos governos nacional, estadual e municipal no incentivo à cultura? Estamos no caminho certo?
JB - Entendo o raciocínio. Durante muito tempo a cultura foi feita pelos abençoados abnegados. Acho que é fase pessoal também, o processo é sempre a profissionalização, não sinto que é dever do Estado bancar todo e qualquer projeto que eu ou seja lá quem for tiver em mente, pois ideias todos têm. Mas incentivar e criar mecanismos de apoio, facilitação e suporte aos artistas e produtores com projetos sérios, histórico de realizações de inegável qualidade e resultados, com uma desBURROcratização ampla dos editais e leis de incentivo, isso sim. Daí a nossa luta por condições melhores de trabalho, é uma luta na verdade por um coletivo que consome, uma luta por pessoas que nem conheço.
Fique à vontade para deixar um recado para os leitores do site.
JB - Culturem-se, curtam-se, teatrem-se. Fazemos e pensamos cultura, somos comunicadores e precisamos da plateia pra trocar, pensar junto. Vivemos nessa Santos que cresce a cada dia, num momento de expansão econômica e imobiliária, mas ignora-se o ser humano, nossos valores atávicos e históricos, nossos costumes caiçaras estão se esvaindo nas areias e sou temeroso em relação do que restará no andar da história, pois somos uma cidade que tem o potencial de outras tantas de ponta, mas que sob alguns aspectos anda na contramão da própria história e herança cultural. Venham a público e manifestem-se, critiquem, curtam, mas não passem desapercebidos, trabalhamos pra vocês! E por vocês. No mais, borandá e parabéns pelo bom gosto de acompanhar esse blog e o trabalho com o qual o André vem nos presenteando!

Parabéns, Junior! Ótimo trabalho! Santos precisa de mais pessoas como você!
Jr. Parabéns pelo belissimo trabalho.A Cultura agradece!
Bela entrevista, cheia de conteúdo. Parabéns ao Júnior e ao André.