Quizás, quizás, quizás

Quando eu era pequena e comecei a aprender inglês, gostava muito da palavra umbrella. Diferentemente de paraguas, parapluie e guarda-chuva, que são autoexplicativos, umbrella tem um som que lembra os pingos da chuva caindo no chão.

Ferme la bouche* foi uma das primeiras expressões que aprendi em francês e adorava. Sim, um pouco mal educada, mas é bem divertida e, às vezes, necessária. Porém, a minha palavra favorita nessa língua é rien*. O R de rien coça no céu da boca e termina com o afago do “ãn” da última sílaba. Conheci essa palavra, primeiro, na voz de Cássia Eller e, depois, de Edith Piaf – que a canta de uma forma mais visceral. Como é bom respirar fundo e cantarolar bem alto: “Non rien de rien. Non, je ne regrette rien!”* Espero que no dia do meu último suspiro eu possa dizer isso: je ne regrette rien! Ops, soou um pouco dramático. Desculpe-me, mas é a influência de Piaf nesse parágrafo.

Em português, a palavra que eu mais gosto é saudades. A tão dolorida e tão difícil de ser explicada saudades com seus SSS que quase se prolongam em um suspiro.

Mas a melhor palavra para mim é a espanhola: quizás. Por quê? Ela tem um pouco do SSS do saudades, mas traz toda a esperança do mundo. Sem contar que a canção “Quizás, quizás, quizás”, diferente daquelas que também grudam que nem chiclete, é maravilhosa. Dá vontade de sair dançando. Também gosto do vale com o seu som de B no final de uma frase. Mas quizás é sensacional, estupenda. Quando eu digo quizás, eu posso tudo. Tenho todas as oportunidades e todas as possibilidades. É como se eu tivesse dentro de mim aquela fé que, dizem, remove montanhas. Aquele pensamento positivo que livros de autoajuda, do tipo de O Segredo, garantem que podemos realizar tudo com a força do pensamento. Quizás pode vir acompanhada de um por que não? É, isso mesmo, por que não? Por que não podem aparecer soluções para coisas que aparentemente não têm solução? Por que não pode aparecer uma oportunidade que faz com que aquele sonho tão desejado torne-se real? Quizás, nada na vida acontece por acaso e quem sabe escolhemos sem perceber as pessoas que entram nas nossas vidas e somos nós que decidimos o que vamos experimentar a cada dia. Se isso for realmente verdade está na hora de aprendermos a domesticar o nosso cérebro. Quizás, quizás, quizás…

* quizás – talvez

* Ferme la bouche – Cala a boca

* rien – nada

* Je ne regrette rien – Eu não me arrependo de nada.

* Quizás – Talvez

Non, je ne regrette rien

http://www.youtube.com/watch?v=kFRuLFR91e4
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Quizás, quizás, quizás

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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