Lope

Pilar López de Ayala e Alberto Ammann

Algumas pessoas são tão passionais que as suas vidas transformam-se em interessantes biografias. Muitos escritores e poetas têm uma vida cheia de emoção e aventuras que vão além do que escreveram. Confesso que eu ainda não havia lido nada do Lope até assistir o filme. Fiz aquele “google” e li alguns de seus poemas. Gostei.

Fiquei decepcionada em saber que o sr. Félix Lope de Vega tornou-se oficial da “santa” Inquisição após perder um grande amor. Afinal, esse ilustre señor ficou famoso pelos vários casamentos, inúmeras aventuras amorosas extraconjugais e escandalosos romances.

Na pré-estreia, o diretor Andrucha Waddington disse que ficou seduzido pela história daquele escritor que amava tanto a Arte. Ele conseguiu mostrar isso no filme. Waddington contou a história de um jovem que teve de decidir se iria seguir a carreira mais “segura” ou se ia mergulhar na literatura. Na Espanha de Velázquez, Lope era alguém dividido entre dois amores em uma sociedade hipócrita.

Entre lutas de espadas, há um simpático Marques de Navas interpretado por Selton Mello. Foi inevitável pensar: “putz, acho que o meu sotaque quando falo espanhol é igual o dele ou quem sabe pior”. Tenho de confessar que faço parte daquele grupo politicamente correto que pensa muito antes de fazer algo. Decide e ainda continua pensando se tomou a melhor decisão. Por isso, morro de inveja daquelas pessoas que têm coragem de jogar tudo para alto e correr atrás de um grande amor mesmo sem ter certeza se vai dar certo ou não. Que jogam para o alto um bom emprego porque se cansou do chefe babaca. Ou mudam de profissão para fazerem algo que amam, mas que não necessariamente terão retorno financeiro. Ops, acho que estou contando demais o filme. Sorry.

http://www.youtube.com/watch?v=LAz6Ssq_pPc&feature=player_embedded

É claro que toda Sandy tem seu lado devassa. Aliás, ninguém consegue ser politicamente correto o tempo todo. Principalmente, se um dia já se apaixonou. Isabel de Urbina soube ser corajosa e ir contra tudo e todos para seguir alguém tão incerto. (Que inveja da sua coragem!) Valeu a pena? Acho que sim. Dizem que sempre vale, não é mesmo? Lope define muito bem esse sentimento que muitas vezes nos faz capaz de doar a nossa vida e a nossa alma a um desengano. De desenganos e alguns acertos muitos transformam suas vidas em futuros filmes.

Será que podemos ter tudo? Por que não?

DEFINICIÓN DEL AMORDEFINIÇÃO DO AMOR
Desmayarse, atreverse, estar furioso,
aspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso; 

no hallar fuera del bien, centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengano,
beber veneno por licor suave,
olvidar el provecho, amar el dano,

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengano,
esto es amor; quien lo probo, lo sabe.

Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e valoroso; 

não ver, fora do bem, centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

furtar o rosto ao claro desengano,
beber veneno qual licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;

acreditar que o céu no inferno cabe,
doar sua vida e alma a um desengano,
isto é amor; quem o provou bem sabe.

Lope de Vega
(Tradução de José Jeronymo Rivera)
Do livro: “Poetas do Século de Ouro Espanhol” (ed. Bilíngue), Embajada da Espanha, 2000, DF

Leia também: Lope: Beleza sem pungência, por Edu Fernandes

LOPE
(Idem, Espanha / Brasil, 2010).
Direção: Andrucha Waddington.
Roteiro: Jordi Gasull, Ignacio del Moral.
Elenco: Alberto Ammann, Leonor Watling, Pilar López de Ayala, Sônia Braga, Selton Mello.
Drama / Romance – 14 anos.
106 minutos.

Estreia no Brasil: 04/03/2011.

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

 

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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