O Besouro Verde não empolga nem faz rir

Seth Rogen e Jay Chou

Herói veiculado em rádio, TV e quadrinhos, faltava ao Besouro Verde sua versão definitiva para o cinema. E continuará faltando. Com nomes respeitáveis envolvidos no projeto, “O Besouro Verde” conta com bons momentos espalhados ao longo da trama. Mas na maior parte é um emaranhado de clichês de filmes de super-heróis, perdendo-se entre a ação, a tentativa criar algo novo e a paródia. Pouco faz rir ou empolga.

Christoph Waltz

Séries dos anos 60 têm ganhado versões cinematográficas ao longo desta década. Em dois exemplos, a adaptação deu certo. Casos de “Missão Impossível 3” e “Star Trek”. A fórmula foi manter a essência da história, fazer várias referências às séries clássicas para agradar antigos fãs, porém atualizando a temática, com o objetivo de angariar novos admiradores. Tudo com gente talentosa, claro.

Os realizadores de “O Besouro Verde”, de currículos respeitáveis, não souberam se seguiam essa fórmula ou parodiavam o seriado televisivo. Seth Rogen, fã do personagem, produtor, astro e roteirista do filme, e o diretor Michel Gondry, profissional criativo, que já trabalhou em clipes da banda Radiohead e fez o cultuado “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, mantiveram as referências à série clássica. Bruce Lee, o antigo Kato, é citado de inúmeras formas, inclusive com o famoso soco de uma polegada, desferido pelo mesmo personagem, agora interpretado por Jay Chou. O cineasta também incrementou o visual. As cenas de luta, que alternam movimentos acelerados e desacelerados dos atores, remetem às sequencias dirigidas por Zack Snyder em “300” e “Watchmen”, também adaptados das HQs. E a trilha sonora é descolada. Mas a obra sofre de elenco sem inspiração e roteiro irregular.

Cameron Diaz

Rogen faz Britt Reid, filho do magnata da mídia de Los Angeles (Tom Wilkinson), vivendo feliz e irresponsável até que seu pai morre misteriosamente. Num lapso de perdição, despede todos os antigos funcionários da mansão. Ao descobrir que o café ao qual está habituado perdeu o sabor, pede que o antigo responsável pela bebida seja recontratado. Trata-se de Kato, mecânico da família, que se revela o criador não apenas da tal máquina “especial” de café, mas de todas as engenhocas eletrônicas dos Reid, inclusive artigos militares, e também mestre em artes marciais. Ambos ficam amigos e, depois de uma bebedeira, decidem combater o crime. Com uma diferença: se passarão por bandidos, com o intuito de gerarem pânico nos vilões da cidade.

Se Rogen geralmente agrada em comédias, como o tipo bonachão, maluquete, mas de bom coração, quase um Zé Colmeia live action, aqui ele exagera em todos os sentidos, chegando mesmo a incomodar. A construção do personagem também não ajuda. Reid é alguém egoísta, muito mais egocêntrico que Tony Stark (o Homem de Ferro). Kato, por sua vez, ganhou um intérprete sem sal. A graça do personagem, na série dos anos 60, era a habilidade real para as artes marciais. Cortesia do mestre Lee. Só que Chou não possui um milésimo da habilidade do falecido astro, não é engraçado e nem consegue ser levado a sério. A trama ainda brinca com a relação quase homoerótica entre Besouro e Kato, que cai por terra pela falta de química entre os atores. Vai ter gente com saudade de Batman e Robin dos anos 60.

O elenco coadjuvante é outra decepção. Christoph Waltz, que viveu um dos maiores vilões do cinema recente, em “Bastardos Inglórios”, surge apático. Parece estar apenas cumprindo o contrato. E Cameron Diaz, tadinha, perdeu toda a graça. Nem como peça de decoração ela serve aqui. Salvam-se James Franco e Tom Wilkinson, em pequenas aparições.

Durante o longa, percebe-se algo de Super-Homem (o jornal importante para a trama), Batman e Homem de Ferro (o uso da tecnologia) e o típico vilão megalomaníaco, rescaldo de Lex Luthor, Rei do Crime (inimigo do Demolidor) etc. E outras cenas poderiam ser deletadas. Exemplo? A quebradeira da dupla dentro da mansão. Longa e esquecível.

A história só melhora no ato final, quando ganha contornos definitivos de ação e Gondry mostra por que é considerado bom diretor. Acerta nos efeitos visuais, na elaboração das sequencias, orquestra bem as coreografias. Atenção: essas cenas podem ser vistas numa sala de projeção normal. Não é necessário vê-las em três dimensões. Não à toa, “O Besouro Verde” fracassou nas bilheterias norte-americanas e não teve a melhor recepção da crítica. Tem seus instantes divertidos, é verdade, mas resta saber se o espectador está disposto a gastar e esperar por eles.

O BESOURO VERDE
(The Green Hornet, EUA, 2011).
Direção: Michel Gondry.
Roteiro: Seth Rogen, Evan Goldberg, George W. Trendle (série de rádio “Besouro Verde”).
Elenco: Seth Rogen, Jay Chou, Cameron Diaz, Christoph Waltz, Tom Wilkinson, David Harbour, Edward James Olmos, James Franco.
Ação / Comédia – 12 anos.
119 minutos.

Estreia no Brasil: 18/02/2011.

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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