Cabeça a Prêmio: Desesperança na fronteira


Marco Ricca é um dos raros exemplos, no Brasil, de ator que fez carreiras respeitadas em televisão, cinema e teatro – nessas duas últimas artes, além de ator, respectivamente também como produtor e diretor. E foi desse conjunto de experiências que ele partiu para realizar seu primeiro filme como diretor, “Cabeça a Prêmio”, filmado em 2008, que percorreu alguns festivais (chegando a ser premiado em Punta del Este) e ganha lançamento em São Paulo, Rio, Brasília, Campo Grande e Belo Horizonte.

Para o filme, Ricca pisou em terreno conhecido para conceber o projeto. Adaptou, junto com Felipe Braga, um romance de Marçal Aquino – Ricca já atuara em outros longas com participação do escritor, “O Invasor” e “Crime Delicado”, o primeiro adaptado de um livro de Marçal Aquino, e o segundo roteirizado por ele. Ambos, por sinal, dirigidos por Beto Brant, que em outro filme, “Os Matadores”, também partiu de um obra do escritor – o conto homônimo – e cuja história envolve matadores e se passa na divisa brasileira. Ou seja, as comparações entre “Cabeça a Prêmio” e “Os Matadores” são inevitáveis.

Em “Cabeça a Prêmio” somos apresentados a uma família que detém fazendas no Mato Grosso do Sul, na divisa entre Brasil, Bolívia e Paraguai. Os irmãos Waldomiro (Fúlvio Stefanini) e Abílio (Otávio Muller) comandam o negócio – na verdade utilizam a propriedade para transportar drogas dos países vizinhos. Alice Braga faz a filha de Waldomiro, Elaine, que tem um caso com Dênis, o piloto da fazenda (interpretado pelo uruguaio Daniel Hendler). Quando ela descobre estar grávida, o casal decide fugir. Abílio, que ambiciona comandar os negócios, arma para Dênis, e Waldomiro decide por seus dois capangas – Albano (Cássio Gabus Mendes) e Brito (Eduardo Moscóvis) – no encalço do casal. A ordem é matar Dênis. Mas Abílio também pede a Albano, o capanga mais antigo da família, que também assassine Elaine.

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Ao lermos a sinopse, parece que seremos apresentados a uma trama de perseguição e traições. Mas o roteiro demora a “pegar”. Uma subtrama que envolve a relação amorosa de Brito com uma dona de bar (vivida por Via Negromonti), que deveria dar certa humanidade ao personagem de Eduardo Moscóvis, não atinge seu objetivo. Com um primeiro ato arrastado, muita gente pode desistir do filme, que também possui problemas de montagem. Certas passagens são longas demais, e uma sequencia importante do ato final (não vale detalhá-la, pois seria contar o desfecho da trama), sofre um corte brusco que deixa o espectador confuso.

Na coletiva de imprensa no lançamento do longa em Sâo Paulo, Marco Ricca disse que teve a intenção de fazer um filme “de atores”, quis deixá-los à vontade, não “engessá-los”. Talvez pela sua experiência como intérprete de cinema (onde deve ter sofrido nas mãos de outros cineastas) e diretor de teatro, território onde o improviso artístico é essencial. Só que essa liberdade, ao menos nessa produção, contribuiu para que tomadas se alongassem. Algumas cenas nos passam a impressão que seriam perfeitas se acabassem um pouquinho antes.

Mas ainda assim, aqueles que passarem do primeiro ato serão entregues a uma história pungente, com atuações convincentes (o filme traz de volta Ana Braga, mãe de Alice, como a esposa de Waldomiro e mãe de Elaine) e uma história que mostra mais uma realidade brasileira. A diferença é que, ao contrário de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, que se utilizam da violência incessante para mostrar realidades do país, “Cabeça a Prêmio” aborda situações que tendem a conduzir para um confronto final. Não é um filme unicamente social. Mas um drama familiar, um romance impossível, que ainda flerta com filmes policiais e humor. Apesar de originalmente fictícia, é uma história tremendamente real. E assim angustiante.

E por ser triste, e distribuído em somente cinco capitais, é provável que não atraia o grande público, mas quem ver o filme terá uma experiência marcante.

Segundo o diretor, alguns cineastas consagrados (que ele não citou na coletiva de imprensa) protestaram ante o governo de São Paulo, alegando que o estado não deveria investir no filme, já que as filmagens sucederam, em grande parte, no Mato Grosso do Sul. Acontece que elenco, diretor e produtores são paulistas.

Em virtude de tudo isso, e orçado em cerca de R$ 4 milhões, pouco até para o cinema brasileiro, o resultado final de “Cabeça a Prêmio” impressiona. É preciso ressaltar que Marco Ricca, em sua estreia, arriscou, tentou deixar sua marca autoral, e consegue até certo ponto. Um fato honroso e que merece elogios. E os erros poderão ser corrigidos num segundo filme dele como diretor. Fica a torcida para que essa nova fase da carreira cinematográfica dele tenha continuidade.

CABEÇA A PRÊMIO

(Idem, Brasil, 2010).
Direção: Marco Ricca.
Roteiro: Felipe Braga e Marco Ricca, baseado no romance de Marçal Aquino.
Elenco: Alice Braga, Ana Braga, Cássio Gabus Mendes, Daniel Hendler, Eduardo Moscovis, Otávio Muller, Fúlvio Stefanini.
Drama – 16 anos.
104 minutos.

Estreia: 20/08/2010.

Lançamento em DVD: Fevereiro/2011.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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