A mulher-esqueleto e o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

“O amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimento. A paixão morre e volta.” –  Clarissa Pinkola Estés

Kate Winslet e Jim Carrey como Clementine e Joel em "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" (Divulgação)

Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava e ele jogou-a ao mar de um penhasco. Um dia um pescador atirou a rede e a pescou. Ele pensou que havia pescado um peixe grande. Quanto mais ela lutava, mais ficava presa. Ao ver o esqueleto, o pescador disse: “Argh!” e jogou-a fora de seu barco. Mas ela ficara emaranhada na linha de sua vara de pescar. Saiu correndo quando desembarcou de seu caiaque, porém ela vinha aos solavancos bem atrás dele. Não percebera que ela estava presa a ele.

Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor. Ao acender a lamparina, percebeu que o esqueleto estava ao seu lado. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Ele se acalmou e, bem devagar, começou a soltá-la da linha de pescar. Cobriu-a de peles para aquecê-la. Depois, o homem adormeceu e começou a sonhar. A mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo e sentiu sede. Ela bebeu aquela lágrima até saciar a sua sede. Enquanto estava deitada ao seu lado, estendeu a mão para dentro do homem e retirou seu coração. Enquanto marcava o ritmo daquele “tambor”, ela começou a cantar em voz alta. “Carne, carne, carne!”

Quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. E cantou para ter todas as coisas de que as mulheres precisam. Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro, enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro. As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que a mulher-esqueleto e o pescador foram embora. E eles sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d’água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem.

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Boa parte dos colaboradores do Cinezen citou “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” como um dos dez melhores filmes da década. Para quem ainda não o assistiu, é sobre a história do casal Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet). Eles eram muito diferentes e quando a relação entra em crise, ela termina e decide contratar um especialista para apagar todas as lembranças que ela tem do ex-namorado. Joel descobre isso e faz o mesmo, mas, no meio do processo, muda de ideia. Até que seria uma maravilha se existisse um máquina dessas, não?

Enfim, esse filme discute relacionamentos. Vivemos numa época em que as pessoas têm medo de se envolverem e, se problemas aparecem, simplesmente apertam a tecla delete. É mais fácil desistir do que persistir. Afinal, isso requer muito tempo e energia. Lembrei-me do conto do povo inuit (aborígenes do Canadá) sobre mulher-esqueleto*.

Precisamos aprender a encarar a natureza da vida-morte-vida nos relacionamentos. A paixão não é algo que obtemos, mas sim algo gerado em ciclos e distribuído. Numa relação há vários finais e reinícios. Temos medo da morte porque esquecemos que dela vem uma vida nova. Por isso, muitos têm ojeriza a compromissos porque têm medo da morte. Essas pessoas sempre estão procurando pescar um peixe maior do que o anterior que já pescou. Preferem ficar sempre nesse processo, pois se sentem mais seguras.

Quando nos apaixonamos é como se tivéssemos pescado um peixe grande. O outro é o nosso tesouro, queremos gritar aos quatro ventos a nossa sorte. Logo em seguida vem um tempo de esperanças, como também de  receios dos dois lados. Relaxamos e compartilhamos nossos sonhos futuros, como também nossas tristezas passadas.

Mas temos de desembaraçar a linha dos ossos da natureza da morte, para isso, é preciso tocar o “não-tão-belo” no outro e em nós mesmos. E é aí que muitos relacionamentos terminam. Precisamos adormecer e sonhar. É preciso saber entregar o nosso coração. Isso não é fácil, pois quem já o entregou, tem medo de ser ludibriado e, mais uma vez, esse é o momento que muitos relacionamentos terminam.

Aqueles que têm coragem de continuar, aprendem com a natureza da vida-morte-vida. Os que fogem disso acreditam que o amor é apenas uma dádiva. Entretanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e renascimentos. Deixamos uma fase e entramos em outra. A paixão morre e volta. Amar significa suportar inúmeros finais e recomeços num mesmo relacionamento. Será que realmente devemos esquecer aquilo que vivemos? Talvez esse “brilho eterno” sempre estará guardado em algum lugar dentro de uma mente sem lembranças.

*Para quem se interessou sobre a história da mulher-esqueleto, fica a indicação do livroMulheres que correm com lobos, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés. “Closer – Perto Demais” “500 Dias com Ela” também são ótimos filmes que falam sobre a vida-morte-vida nos relacionamentos.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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