Lapa Afetiva, Choro e Indagações

É uma temporada triste, esse início de dezembro. Triste porque o tempo corre desenfreadamente e logo as plantas de meus pés estarão tocando outras ruas que não essas as quais conheço todos os segredos. Ando inquieto diante de minha ausência que logo será sentida por aqueles que amo – ou que eu acho que será sentida. E, no meio de todas as vozes confessando o quanto eu lhes sou importante e marquei suas vidas, os rostos transmutando sorriso em lábios trancados, a dúvida sobre o que ela sente ainda paira sobre minha cabeça como nuvens cinzentas antes da tempestade.

Naquele dia de trabalho, não fiz mais que revisar alguns pequenos textos falhos, redigir alguns artigos simples e beber um pouco de cerveja cedida pelo chefe da redação. O calor estava insuportável. Para piorar, o ar-condicionado mais potente do escritório havia quebrado. Comprar as bebidas foi uma forma de acalmar os ânimos e nos deixar um tanto quanto relaxados já que, além de tudo isso, ainda existia a preocupação com a segurança por conta dos últimos acontecimentos no Rio de Janeiro.

Enquanto trabalhava calmamente, minha mente era um mar de inquietação. Mesmo na excelência do que realizava, os companheiros de trabalho logo notaram algo fora do comum comigo. Fazia tudo de forma mecânica, sem paixão, fazendo por fazer, para ter um dinheiro que me garantisse a compra de livros e umas boas noites solitárias regadas a álcool e Bukowski.

– Mas o que é que estava havendo,homem?, perguntou Jana, amiga do trabalho.

– Nada demais, respondi.

– Como não?, insistia. Que olhar perdido é esse, rapaz?

– Ok, ok. Confesso que alguma coisa está me incomodando, mas você não pode me ajudar. Desculpe.

– Sabe que é só pedir, não é Duke? Nosso relacionamento não é devido somente ao trabalho. Estou aqui pronta para te ajudar ou tentar minimizar isso que te incomoda tanto. Não vou te forçar a nada, mais estou aqui…

Olhei para Jana com olhar questionador. As palavras dela bateram forte no meu peito. Atingiram em cheio. Eu sabia o tamanho do carinho que nutria por mim, mas eu vivo me surpreendendo com as pessoas. Balancei a cabeça positivamente e forjei um sorriso amarelo no canto da boca. Jana se afastou e, diferente do que havia se proposto, só piorou minha situação: é esse tipo de coisa que esperava ouvir dEla. A confissão de um sentimento que agente sabe que alguém nos devota, mas é tão doce quando nos confessam e as palavras leves são levadas ao tímpano fazendo outros órgãos além dos ouvidos serem atingidos.

Naquela tarde, fui dispensado cedo. Não entendi bem o motivo daquilo, porém aquilo me daria um tempo maior pra refletir.Caminhei pela Riachuelo, na Lapa, em direção ao Circo Voador. Sentei na escadaria da praça. Meus olhos viam muito mais que mendigos e miseráveis consumindo drogas: enxergava um casal sentado naquela escadaria, o rapaz enlaçando-a com os braços, lhe dizendo ao pé do ouvido a importância daquele momento. Confissões amorosas, coisa de namorados…

O Circo Voador abrigou nosso primeiro show juntos. Fomos assistir “O Teatro Mágico” e “Móveis Coloniais de Acaju”, em única noite de apresentação…  O lugar estava infestado de vida. Mal se podia respirar decentemente, e não só pelas pessoas aglutinadas que faziam piorar meu estado claustrofóbico, as nuvens formadas pelos consumidores de maconha era muito densa, dificultariam até mesmo minha visão do show, não fosse minha proximidade do palco.

Na minha mente, minha viagem. Deus! Por que tudo isto? Minto para mim mesmo dizendo que virei ao Rio pelo menos uma vez no mês. Mentira descarada. Isso só será possível nos grandes feriados, que se resumem a somente três em todo o ano. Na verdade, não é mentir. É criar uma ilusão que me garanta alguma esperança diante da saudade que sentirei dela. Da falta sentida do término de ligações de boa noite ou da contemplação de seu sorriso quando bem entendo. Falta, ausência e saudade. O ano de 2011 se resumirá a isto. Dela, e somente dela. Também dos amigos e companheiros de estrada, mas essa saudade é outra, ínfima diante do que sentirei por ela.

Eu preciso saber o quanto ela me ama. Vou bem por a culpa disso tudo nos livro que li. Minha mãe sempre teve os livros como guardadores de segredos perigosos e indecifráveis, por mais belo o poema que se lesse. Devia ter ouvido minha mãe. Não tenho vergonha nenhuma de reafirmar nosso amor. De ligar para ela recitando os meus melhores poemas criados em homenagem a sua beleza. Em palavras particulares, ou em um sarau, cercado por poetas onde tive de vencer meu medo de público. Imaginei que superar meu medo por ela, mais do que o poema, a impactaria, daria a ela a dimensão do que sinto, um breve rabisco da singularidade. Ela entende essa necessidade que os amantes têm?

No meio de tudo isto, o texto que ela escreveu por ter decepcionado uma pessoa querida encontrava eco na minha cabeça. Era curtíssimo, mas de uma dor penosa. Passa com franqueza o que se sente na decepção. Logo ela, que diz que sente intensamente sem demonstrar, escreveu algo para ele porque, obviamente, decepcioná-lo fez-lhe cair a máscara colorida da alegria. Ela não costuma demonstrar o que sente, a ninguém. O que não quer dizer que não sinta. Repito, ela não demonstra. Nem dor, nem paz, nem amor. Ela sente e sabe que é verdadeiro. Não precisa que mais ninguém saiba. Então me diz o valor daquelas linhas? Por que eu, que ela já disse querer passar a vida ao lado, não mereci uma demonstração dessas quando ela me decepcionou? Não corresponder às minhas expectativas não foi impactante o suficiente? Será que ela quis muito mais que essa vontade de ser melhor? Eu provoquei isso nela? Se provoquei, por que minha resposta foi um silencio ao invés desse grito avassalador?

Deixo registrado que daria minha vida pela dela, se necessário. Mais de uma vez, se possível. As lágrimas já tocavam o All Star desbotado quando um zumbido do meu celular denunciava uma mensagem recebida. Arranco-o do bolso com dificuldade. Levo-o na altura dos olhos e constato:era dEla.

“Você nem suspeita o quanto te amo”

Tem razão. Eu não faço a mínima idéia.

Foi colunista da extinta revista digital Acerto Crítico, do ano de 2000 até seu término em 2006. Foi colunista fixo dos blogs Jovem Repórter e CulturaNI , onde abordava cultura pop, música, cinema e cotidiano cultural da Baixada Fluminense. Escreve contos no seu blog pessoal “Se Nada Mais Der Errado”. Colabora com o CineZen desde 2010. É roteirista por formação – e, por orgulho – da HQ “Cotidiano”, pela editora “Maustouche”. Escreveu o roteiro dos curtas-metragens ” Ainda bem que estamos aqui” e ” Se nada mais der errado”. É autor de “Pequenos botões e grandes blusas”, distribuído digitalmente de forma gratuita.

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