2010: O ano do blockbuster brasileiro

No fim de semana do Natal, “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro” ultrapassou em renda “Avatar” no Brasil, com R$ 102 milhões arrecadados. Outro recorde para o cinema nacional em 2010, que já tinha ultrapassado 2003 como o melhor ano da nossa produção, com quase 25 milhões de espectadores, contra 22 milhões daquela temporada que teve “Os Normais”, “Lisbela e o Prisioneiro” e “Carandiru”.

O Filme B, que semanalmente apresenta os números das bilheterias no país, divulgou a lista com os filmes brasileiros de maior público este ano. Pela primeira vez, após a Retomada, três longas tupiniquins venderam mais de três milhões de ingressos cada. Além de “Tropa 2”, “Chico Xavier – O Filme” e “Nosso Lar” conseguiram o feito.  Anteriormente, no mesmo 2003 (“Carandiru” e “Lisbela…”) e em 2004 (“Cazuza” e “Olga”), dois filmes alcançaram tal marca em um mesmo ano.

“Nosso Lar”: Equipe técnica contou com profissionais estrangeiros renomados

Os recordes comprovam: nos últimos 12 meses, o público brasileiro aceitou seu próprio blockbuster. Não o blockbuster hollywoodiano, o “filme de verão” como os gringos chamam, repleto de ação e efeitos especiais – ainda que “Nosso Lar” tenha efeitos bastante competentes e “Tropa 2” boas cenas de ação. Mas obras que fizeram o brasileiro identificar, nelas, sua realidade. Não apenas a da pobreza e violência, como alguns ainda insistem em rotular nosso cinema. Mas o cotidiano do brasileiro médio.  Nossas paixões, esperanças, relações, fé, nossa política.

“Chico Xavier” e “Nosso Lar”, por exemplo, tornaram-se sucessos em virtude da crença brasileira. Independente da religião, o público nacional, em sua maioria, tem muita fé. E esses dois filmes, que retratam o espiritismo, possuem mensagem universal, que transcende qualquer barreira religiosa: a evolução através do aprendizado e do bem. A esperança de que algo melhor nos espera. Somos um povo otimista, mesmo com todas as dificuldades do dia-a-dia. Além deles, outros trabalhos do gênero foram lançados, como “As Cartas Psicografas de Chico Xavier”, um documentário, e por isso mesmo destinado a uma plateia reduzida, e “Aparecida, O Milagre”, talvez a grande decepção no gênero, já que aborda o catolicismo, religião com mais seguidores no país. Esperavam-se milhões de espectadores. Pouco mais de 120 mil foram às salas de projeção ver o longa até o momento.

Christiane Torloni e Nelson Xavier em “Chico Xavier – O Filme”, primeiro de uma leva de longas com temática espírita

“Tropa de Elite 2” virou febre pela temática social e por mostrar aquilo que sabíamos, mas até então ninguém tivera coragem de abordar com tanta força: a podridão em nosso sistema político-social. Seu sucesso não é surpresa. “Tropa de Elite”, o primeiro, já fora um fenômeno. Visto por milhões antes de seu lançamento oficial. A continuação, que teve esquema de segurança forte para evitar a pirataria, expandiu o conceito do anterior e fez história. O filme do ano no país. Um dos grandes da sétima arte do Brasi.

“Lula, O Filho do Brasil” pagou pela pretensão de seus realizadores. Apesar da bonita trajetória de vida do protagonista e de seu grande orçamento, o longa fracassou nas bilheterias. Pegou mal lançar um longa sobre o então presidente em ano de eleição. E erroneamente a obra foi escolhida para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. Fato que remeteu ao cinema de propaganda alemão durante o nazismo. Pior foi o acidente sofrido pelo diretor Fábio Barreto.

Vale destacar positivamente a variedade de gêneros que o cinema nacional apresentou em 2010. Além da religião e do social, tivemos policial (“Federal”), comédia (“Muita Calma Nessa Hora”, “De Pernas Pro Ar”), documentário (“Uma Noite em 67”), drama adolescente (“As Melhores Coisas do Mundo”), drama adulto (“5 x Favela”), drama de temática homossexual (“Como Esquecer”), esporte (“Todo Poderoso”, “Soberano”), apenas para citar alguns exemplos. A produção foi relativamente boa.

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Algumas dessas obras foram apresentadas em festivais internacionais. Porém, o que falta ainda por aqui é um mercado sólido para as produções independentes ou de pouco orçamento. Se produtores descobriram como fazer nossos blockbusters, e nós aprendemos a prestigiá-los, aquelas obras que não conseguem milhões de reais do BNDES ou não contam com o apoio da Globo Filmes ainda enfrentam grande dificuldade para entrarem no circuito. Um tema delicado e complexo. Poderíamos falar sobre incentivos estatais, que já acontecem, bem ou não. Mas num país como o Brasil, de tantos problemas sociais, pedir grandes investimentos do governo no cinema seria, ao menos na atual conjuntura, um desrespeito à sociedade. Educação, saúde e segurança são e sempre serão prioridades. Valeria investir, em larga escala, no cinema enquanto educação. Com cursos e oficinas gratuitas. Na capacitação de profissionais. Afinal, não temos uma indústria formada. Gerar novos profissionais. Renovação sempre é bem-vinda. Os consagrados já possuem seu lugar no céu.

“As Melhores Coisas do Mundo”: Retrato sensível das alegrias e tristezas dos adolescentes brasileiros

Mas a semente está plantada. O ano que chega ao fim é o ponto de partida para uma década que tem tudo para ser “a década” do cinema brasileiro. Temos profissionais talentosos, o interesse do público pelo produto nacional vai ressurgindo… E os problemas podem ser solucionados. Nos resta torcer e continuar comprando ingressos para prestigiar o filme nacional.

Abaixo, o ranking com 85 dos cerca de cem filmes brasileiros ou coproduções nacionais que chegaram aos nossos cinemas em 2010 (número de ingressos vendidos). Alguns surgem fora de ordem porque foram, primeiramente, listados seguindo seus resultados de bilheteria. A fonte é o Filme B.

1. Tropa de Elite 2 – 11.081.199

2. Nosso Lar – 4.060.000

3. Chico Xavier – 3.414.900

4. Muita Calma Nessa Hora – 1.283.391

5. Xuxa em O Mistério de Feiurinha – 1.299.044

6. O Bem Amado – 966.519

7. Lula, O Filho do Brasil – 852.212

8. As Melhores Coisas do Mundo – 310.029

9. Quincas Berro d’Água – 281.173

10. A Suprema Felicidade – 218.124

11. High School Musical – O Desafio – 292.932

12. 5X Favela – Agora por Nós Mesmos – 158.433

13. 400 Contra 1 – A História do Comando Vermelho – 142.534

14. Aparecida, O Milagre – 120.093

15. Federal – 111.695

16. Do Começo ao Fim – 89.258

17. Uma Noite em 67 – 80.766

18. Eu e meu Guarda-Chuva – 97.950

19. Soberano – Seis Vezes São Paulo – 45.434

20. Amor por Acaso – 47.607

21. Como Esquecer – 33.066

22. Segurança Nacional – 37.169

23. José e Pilar – 27.767

24. Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo – 26.361

25. Dzi Croquettes – 23.528

26. Em Teu Nome – 53.721

27. Antes que o Mundo Acabe – 28.390

28. Sonhos Roubados – 23.573

29. Reflexões de um Liquidificador – 23.664

30. O Homem que Engarrafava Nuvens – 19.324

31. Olhos Azuis – 16.193

32. É Proibido Fumar – 15.385

33. Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos – 11.208

34. Cabeça a Prêmio – 10.608

35. A Casa Verde – 24.588

36. Os Inquilinos – 9.813

37. Os Famosos e os Duendes da Morte – 8.406

38. Utopia e Barbárie – 9.909

39. As Cartas Psicografadas por Chico Xavier – 7.336

40. Caro Francis – 5.033

41. Só Dez Por Cento É Mentira – 6.150

42. Rita Cadillac – A Lady do Povo – 4.103

43. O Amor Segundo B. Schianberg – 4.390

44. No Meu Lugar – 5.829

45. Vida Sobre Rodas – 3.491

46. Pachamama – 4.217

47. Todo Poderoso: O Filme – 2.423

48. Cidadão Boilesen – 8.448

49. Quanto Dura o Amor? – 6.212

50. Besouro – 7.388

51. O Sol do Meio-Dia – 2.811

52. Programa Casé – 2.644

53. Praça Saens Peña – 2.138

54. Insolação – 2.235

55. Terra Deu, Terra Come – 2.530

56. Netto e o Domador de Cavalos – 2.170

57. A Guerra dos Vizinhos – 1.829

58. Jards Macalé – 1.805

59. Bellini e o Demônio – 1.933

60. O Grão – 1.976

61. Léo e Bia – 1.367

62. Noel, Poeta da Vila – 4.348

63. Um Lugar ao Sol – 1.806

64. Solo – 992

65. O Abraço Corporativo – 1.001

66. Elevado 3,5 – 900

67. Cildo – 850

68. Veias e Vinhos – 2.500

69. Embarque Imediato – 1.155

70. Topografia de um Desnudo – 1.202

71. Terras – 662

72. Supremacia Vermelha – 568

73. B1 – Tenório em Pequim – 536

74. Ouro Negro – 680

75. Diário de Sintra – 584

76. Meu Mundo em Perigo – 541

77. Plastic City – 426

78. Grêmio 10X0 – 392

79. A Falta que Me Faz – 388

80. A Alma do Osso – 344

81. Fluidos – 274

82. Acácio – 258

83. Alô Alô Terezinha – 378

84. Elza – 248

85. Luto como Mãe – 328

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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