Blu-ray: A Espiã: Amor e sensualidade na 2ª Guerra

Paul Verhoeven, de Robocop e Instinto Selvagem, retomou a carreira com esse filme sobre a relação de uma agente judia e um oficial nazista
Por André Azenha, editor (15/12/2010) // Comente


Morte, sexo, individualidade e nudez… Não nessa mesma ordem, esses três temas são alguns dos pilares do mundo caótico em que vivemos atualmente. E também são temas costumeiramente abordados pelo cineasta holandês Paul Verhoeven. Diretor de “Robocop” e “Instinto Selvagem”, ele se tornou conhecido em Hollywood graças ao sucesso dessas duas produções, mas acabou caindo no ostracismo após as fracas bilheterias de “Showgirls” e “O Homem Sem Sombra”. Então, para dar uma reerguida na carreira, nada melhor que voltar à terra natal.

Assim, Paul foi de mala e cuia para a Holanda, juntou um elenco desconhecido da América, porém excelente, e realizou uma obra que utiliza um amor – em tese – impossível na Segunda Guerra Mundial, como pano de fundo para tratar de seus temas prediletos. “A Espiã” levou 20 anos entre pesquisas e produção para ficar pronto e tem história baseada em fatos reais – os personagens são fictícios.

A atriz também holandesa Carice van Houten protagoniza como a judia Rachel e surge em cena dando aulas para um grupo de crianças num kibbutz em Israel. Um flashback reconta a trajetória da moça, uma ex-cantora durante os últimos anos do conflito entre nazistas e aliados.

Separada dos parentes e escondida na casa de uma família católica (que a obriga a decorar versos da Bíblia em troca do “esconderijo”), ela logo recebe a oferta de ajuda para fugir da Holanda ocupada pelos crápulas de Hitler. No barco em que acontece a fuga, reencontra os pais e o irmão, e juntos com outros judeus, acabam sendo vítimas de uma armadilha – ela é a única sobrevivente.


Algum tempo depois, se junta à resistência, adota o nome Ellis de Vries e recebe a missão – suicida – de se infiltrar no escritório do chefe da Gestapo no país, Ludwig Müntze (Sebastian Koch), tornando-se amante deste. Para acrescentar uma boa dose de drama à situação da personagem, ambos acabam se apaixonando, e mesmo após Müntze descobrir a verdadeira identidade da amante, passa a protegê-la.

Apesar da consistência do time de atores, quem catalisa o espectador é mesmo Carice van Houten. Em certo momento, sua personagem é comparada à Greta Garbo. O mesmo vale para a atriz. De olhar penetrante, bonita, sexy, ela prova ser acima de tudo uma artista completa, revelando ainda seus dotes de cantora. Bem ao estilo das antigas divas, é elegante quando precisa e sedutora em todos os instantes. E como não poderia deixar de ser num filme de Verhoeven, ela passa boa parte da projeção expondo partes de seu belíssimo corpo. Intérprete com I maiúsculo, vive com intensidade uma personagem complexa, que não hesita em usar da sensualidade para hipnotizar soldados (destaque para a cena em que cruza as pernas na bicicleta) e faz de tudo para manter-se viva e derrotar os inimigos.

Porém “A Espiã” não é um filme perfeito e o diretor acaba se utilizando de maniqueísmos para criar uma empatia entre o espectador e o amante de Ellis, chegando a criar dois tipos de nazistas: o bonzinho (como se fosse possível existir nazista “do bem”) vivido com charme pelo talentoso Koch (que se destacou em “A Vida dos Outros”), e Franken, também nazista, uma espécie de Jotalhão da SS, retratado de forma grotesca como um sujeito feio, pelancudo, calvo, com dentes separados e uma cicatriz no rosto, chegando a explicitar sua bizarrice numa cena de nudez que obviamente causa vários “arrrghhhh!!!” a quem assiste o longa. Fora isso, o roteiro tenta ignorar o fato de que, para ter chegado a um alto posto da polícia nazista, Müntze teria exterminado muitos inocentes no decorrer da carreira.

O texto também escorrega ao dar um salto nas atividades de Rachel/Ellis. De sobrevivente à espiã, ela passa a agir como se fosse uma verdadeira agente secreta, conseguindo inclusive plantar escutas – nesse sentido, poderia ao menos ter sido rodada uma cena em que ela tivesse algum tipo de treinamento.

Apesar desses equívocos, o filme é uma obra envolvente, ótimo retrato daquele período, tem competente ambientação de época, excelentes atuações e direção segura, conseguindo deixar o público emocionado ao presenciar como a perseguição naquele período destruiu/transformou várias vidas.

Orçada em 17 milhões de euros, a obra mostra como o retorno do bom filho ao lar pródigo rendeu um filme inteligente, que soube mesclar drama e suspense.

A ESPIÃ
(Zwartboek / Black Book, Holanda / Alemanha / Bélgica, 2006).
Direção: Paul Verhoeven.
Roteiro: Paul Verhoeven e Gerard Soeterman.
Elenco: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman.
Drama / Guerra / Suspense.
145 minutos.

Estreia nos cinemas brasileiros: 11/01/2008.

Lançamento em blu-ray no Brasil: Dezembro de 2010 (já estava disponível em DVD).

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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