O Fim do Elo

Meu apartamento: Antigo palco de acontecimentos apoteoticamente íntimos. Instantes cheios de vidas articuladas, falatórios irrefreáveis, conversas intermináveis. Tudo isto já é uma lembrança remota, passado. E como tudo que é passado, faz bem ser relembrado de vez em quando – assim mesmo, só por lembrar. Tragar a nostalgia para dar sabor completo à vida. Na manhã, o perfume típico da cidade grande: o monóxido de carbono entrando pela janela aberta preenchendo delicadamente o pulmão, como se fosse mesmo um tipo de néctar olfativo que nos apresentasse o início da vida na metrópole com seus carros ensurdecedores e sua agitação incansável.

Contemplo solitariamente o copo de Coca-Cola sobre minha mesinha de centro. Engraçado imaginar que há alguns meses atrás eu lutava por um espaço nessa mesma mesinha. Por alguns breves instantes viajo com minha mente para uma época de alegria exagerada. De elos de amizades fortes, contínuos, pulsantes, encantadores de tão intensos. Mágicos! Alguns lances dessa época saudosa: escolhas erradas, outras hilárias e algumas tantas tortuosas. Histórias e mais histórias que terei de contá-las aos poucos para meus netos. Conforme eles forem crescendo. Nem todas são apropriadas para certas idades. Depois dos 17, sim! Aí é que eles vão descobrir muito da vida (da minha vida, porque da Vida mesmo nada poderei ensinar, será um caminho solitário que eles terão de trilhar sem minha ajuda, ou a de ninguém) – espero que tudo ocorra a seu tempo, sem antecedência.

Mas antes que eu me pegue em uma típica amargura literária, algo concreto me traz de volta a esta triste realidade onde coisas são coisas, homens não passam disso, homens, e o perfume das flores anda cada dia mais contaminado. A vontade súbita de ir até a janela avistar os transeuntes fez-me deparar com mais bela das visões – bela no sentido literário, claro, no qual poderia me inspirar para escrever um conto triste ou uma elegia. Porque no sentido humano, foi uma cena lastimável: avisto de longe, com passos contados, Ele, amigo querido de outras primaveras, de incontáveis risadas musicais, ilustrador, designer, grafiteiro… Hoje, andando lentamente parecendo carregar o mundo nas costas. Na verdade, acho que seu fardo está pesado demais. E fardo, uma hora ou outra causa aborrecimentos.

– “De tanto arrastá-lo”, penso eu, “deveria estar levíssimo”. Não está.

Ele foi destas amizades repentinas, que surgem ao acaso e não se espera nada além de um “Bom dia, boa tarde, boa noite”. Na proporção dos dias, nosso elo se estreitava e um laço verdadeiro havia se formado. Éramos, enfim, o que se costuma chamar de amigos. Passei a entender melhor o conceito de arte por causa dele. Por ele também me apaixonei pela cultura Hip-Hop e suas ramificações. Aprendi a avaliar um trabalho artístico em sua pureza e riqueza de detalhes – ou expressões aparentemente incompreensíveis. Cada cor apresentada era um novo aprendizado. Até sua história de vida, suas lições de coragem e sua perseverança realmente, mesmo que se acompanhadas por um estranho, meio de longe, tenho certeza do impacto sofrido por este desavisado espectador.

Sua vida era turbulenta e cheia de retóricas e contradições. Sempre um pormenor a ser resolvido. Uma briga familiar mal interpretada que o fazia explodir emocionalmente. Fugindo um pouco disto, não se pode negar a quantidade de talento carregada por ele. A paixão com que falava de cada experiência vivida, de cada tapa na cara da vida, de cada não.

É penoso vê-lo maltratar-se tanto. Claro, não escolhera nenhum dos fatídicos acontecimentos, nenhuma daquelas explosões bárbaras com palavreados malcriados sendo disparados sequencialmente a esmo, ininterruptamente como se fossem balas de uma metralhadora de dor. Mas, levando em conta todo aquele furação, não acho que alguém agiria de uma forma diferente. Somos todos marcados com essa praga chamada livre-arbítrio. A meu ver, um mal infernal, uma imparcialidade coletiva diante do terror absoluto da vontade pessoal. Um paradoxo caquético. De certa forma – ou em sua totalidade, por que não? – somos mesmos responsáveis por todos os acontecimentos que nos cercam. Até nos imprevistos temos nós nossa parcela de culpa.

Ver um sentimento como a tristeza, ou a decepção estampada no seu rosto, feito máscara eterna; Pierrot derrotado, lamentando a perda da amada é como ser torturado pelas mãos impiedosas e dilaceradoras da inquisição católica. Ainda acho essa comparação um eufemismo para retratar quão difícil é ser observador dessa cena. Seus olhos percorrem a rua na altura dos bueiros. O que dizer sobre sua mochila jeans? Daqui do alto pode-se notar o vazio que ela carrega… Onde está o arco-íris doméstico?

Por mais que eu me esforce, não consigo lembrar o momento exato em que tudo aquilo aconteceu. No dia que ele foi expulso do ciclo familiar. No dia que as dores aumentaram e ele deixou de lado alguns sonhos. Aos poucos, foi ficando desleixado no trabalho. As ilustrações estavam longe daquelas cobertas de elogios pelos amigos da agência, ou de conhecidos que se esbarravam vez ou outra e, cumprimentando-o, ainda diziam algo do tipo “Você é genial, parabéns”, ou “Vi seu quadrinho na última edição da revista.Muito bom, garoto!”. Os desenhos muitas vezes eram desconexos com o tema textual.

Por mais querido que ele fosse, seu desempenho baixo acabou ocasionando sua demissão. Desde aquele dia, nunca mais vi uma ilustração sua nem em jornal de “quinta”. O que dizer dos seus grafites? Das oficinas que realizava em São Paulo? Nunca mais escutei uma notícia sua. Por um tempo achei que só havia parado, dado uma pausa, talvez estivesse um pouco cansado. “A vida precisa de pausas”, já dizia Drummond. Até que, em uma dessas cinzentas segundas-feiras, vi seu portfólio na lixeira, coberto por um molho amarelado e um jornaleco de quinta – que, aliás, não tinha uma ilustração sua. Naquele momento, senti um frio percorrer minha espinha. – “Como assim, nada de desenho!?”.

No entanto, o fim mesmo é encontrá-lo agora, andando como quem procura algo há muito perdido e sem esperança alguma de encontrar. Perdido, meio deslocado sem pertencer a este mundo. Movido somente pela necessidade.

Acabei de perceber uma coisa: desde que ele parou de desenhar, eu não enxergo cores no céu. Desde que adotou a melancolia, esse meu amigo, mal sabe que o mundo, por estas bandas de Nova Iguaçu, anda em escalas de cinza a preto e branco. Sem graça. Sem cor. Sem ele.

“Roberto!”, grito da janela.

Ele me lança um olhar furtivo. Sorri. Convido-o para minha casa. Ele recusa gesticulando com as mãos. Atravessa a rua devagar com o semáforo na cor vermelha e sua dor tem fim, quando um carro o lança a 32 metros de distância do ponto de impacto. Roberto ainda é meu amigo. Só que agora, sem dores.

Foi colunista da extinta revista digital Acerto Crítico, do ano de 2000 até seu término em 2006. Foi colunista fixo dos blogs Jovem Repórter e CulturaNI , onde abordava cultura pop, música, cinema e cotidiano cultural da Baixada Fluminense. Escreve contos no seu blog pessoal “Se Nada Mais Der Errado”. Colabora com o CineZen desde 2010. É roteirista por formação – e, por orgulho – da HQ “Cotidiano”, pela editora “Maustouche”. Escreveu o roteiro dos curtas-metragens ” Ainda bem que estamos aqui” e ” Se nada mais der errado”. É autor de “Pequenos botões e grandes blusas”, distribuído digitalmente de forma gratuita.

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