DVD: Os Mercenários é diversão tosca esquecível


Houve um tempo em que significado de bilheteria no cinema era filme com atores super marombados, bastante porrada, explosões, mocinho contra bandido. Tudo muito superficial. Exagerado. Truculento. Boçal. Histórias que hoje soam até engraçadas. Mais exatamente nos anos 80 e início dos 90, quando Stallone, e o atual governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, estrelaram, respectivamente, filmes como “Rambo – Programado Para Matar” (1982) e “Comando para Matar” (1985). Esses filmes tinham tramas que consistiam, basicamente, no exército de um homem só. Um cara fodão que precisava salvar ou resgatar alguém, ou provar a honra americana perante o mal vindo do terceiro mundo ou do oriente. Eram anos de Reagan e, depois, George Bush pai, na presidência dos EUA.

Além desses longas, outros exemplares do gênero marcaram época como “O Justiceiro” (de 1989, com Dolph Lundgren), “O Grande Dragão Branco” (de 1988, com Jean-Claude Van Damme), “Matador de Aluguel” (de 1989, com Patrick Swayze), “Nico – Acima da Lei” (de 1988, com Steven Segal) e “Fuga de Nova York” (de 1981, com Kurt Russel). E ainda havia um subgênero, no qual os heróis precisavam enfrentar missões na selva do terceiro mundo. Fora a franquia “Rambo” e “Comando Para Matar”, foram produzidas tosquices como “Comando Delta” e “Braddock” (ambos protagonizados por Chuck Norris em 1986 em 1984), entre outros.

Todas as produções, quando não conseguiam êxito nas bilheterias dos cinemas, alcançavam boa carreira em VHS, para depois serem reprisados eternamente na TV. E os maiores ídolos do período foram Stallone (em virtude das séries “Rambo” e “Rocky”, e outros sucessos – “Cobra”, “Condenação Brutal” etc), Schwarzenegger (alçado à fama em “Exterminador do Futuro”, e que ainda fez “Conan”, “Vingador do Futuro” e “True Lies”), e Bruce Willis. Este último, num nível um tanto diferente, pois “Duro de Matar”, de 1988, apesar da ação constante, possuía ritmo, cinismo e humor que não vigoravam nas demais obras do gênero.

Vieram os anos 90, esse tipo de ação “pra macho” saiu de moda (ainda que, em home vídeo, o público-alvo não deixasse de existir), e nos anos 2000, década em que franquias dos anos 80 reviveram (“Rambo”, “indiana Jones” e “Duro de Matar”), porém sem a força (o trocadilho serve) de antes, a moda foi realizar ação cult. Câmera na mão, astros com portes físicos próximos da vida real interpretando personagens sensíveis e com dúvidas existenciais, e roteiros “inteligentes”. Surgiram a franquia “Bourne” e os novos “Missão Impossível” e “James Bond”.

Ao realizar “Os Mercenários”, Stallone, protagonista, diretor e co-roteirista do filme, não tentou ressuscitar sua carreira (ele fez isso em “Rocky Balboa”, de 2006), nem tentou criar um filme com pretensões artísticas ou algo semelhante. Simplesmente realizou uma diversão entre amigos. Mais ou menos à maneira quando George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon e outros se juntaram na série “Onze Homens e um Segredo”. Mas com a diferença de que, enquanto os filmes de Steven Soderbergh reuniram astros do momento numa trilogia com vontade de ser cult, Stallone chamou artistas da velha guarda (exceção de Jason Statham, principal astro de ação da atualidade), alguns cujas carreiras vão mal, para uma brincadeira. Um revival na acepção do termo (além da música, o cinema também tem seus revivals da década retrasada).

Fosse “Os Mercenários” rodado nos anos 80 ou 90, seria grande sucesso. Hoje, soa fora de época, uma piada. Mas quem pode afirmar que não foi essa a intenção? Criar uma autoparódia (mesmo porque o longa não mudará a carreira de ninguém do elenco masculino). Relembrar os velhos tempos. Simplesmente, tirar uma onda. Tipo: “Dane-se o que pensarão, vamos voltar a fazer o que fazíamos de melhor”. E se houve algum tipo de pretensão, talvez tenha sido dizer pra Hollywood: está na hora de um pouco de ação de verdade. E nesse sentido o longa funciona como uma espécie de quebra numa sequencia de filmes de ação cool, com objetivos “artísticos”. Tudo que é demais enjoa. E assim como todos os filmes citados nos primeiros parágrafos desse texto saturaram depois de um tempo, já estava chato ver tantos filmes feitos ao redor do mundo pegando carona em Jason Bourne.

“Os Mercenários” é ação oitentista pura. Para o bem e para o mal. Dos principais atores de ação dos 80, só não marcam presença Van-Damme, Steven Segal (Stallone diz ter chamado os dois, que teriam recusado o convite) e Chuck Norris. A trama é antiga: existe uma missão na qual um ditador de um país latino fictício precisa ser derrubado. A diferença é que não há mais o exército de um homem só. Mas uma turma boa de briga que inclui, além de Stallone, Lundgren e Statham, o astro de artes marciais Jet Li, os lutadores Steve Austin (campeão de MMA) e Randy Culture (da luta-livre), e o ex-jogador de futebol americano Terry Crews. Colabora com a equipe um ex-soldado que agora faz tatuagens, interpretado por Mickey Rourke. Eles precisam matar um ditador (vivido por David Zayas, da série “Dexter”) de uma ilha na América Latina (locação brasileira), financiado por um ex-agente da CIA (Eric Roberts, irmão de Julia e que viveu papel semelhante em “Batman – “O Cavaleiro das Trevas”). E pela frente há a filha do ditador, encarnada pela mexicana residente no Brasil Gisele Itié.


Numa cena divertida, que deve ter levado ao êxtase os fãs de ação dos anos 80, Stallone se reúne com Bruce Willis (o sujeito responsável por contratar o grupo) e Arnold Schwarzenegger. A tal cena, curtinha, resume bem o espírito de autoparódia: os três, que já foram sócios na vida real, trocam farpas, que culminam com Stallone dizendo, sobre Schwarzenegger: “ele quer ser presidente” (na realidade ele não poderá, pois não nasceu nos EUA). Quem não cresceu vendo os filmes estrelados pelo trio ficará boiando, mas quem viveu essa época e gosta dos filmes entenderá as piadinhas e dará risada com elas.

Já houve quem chamou o filme de “Sex and The City” para homens e de “os Deformados” (principalmente pelas aparências de Stallone, que tem cavanhaque e sobrancelha desenhados, e Mickey Rourke). Teve quem o comparou ao ruim “Rambo IV”, que radicalizou na direção ao gore, sem humor e tampouco saudosismo. E quem também disse –  uma grande bobagem – que o longa foi produzido para ganhar dinheiro. Grande novidade! Não existe, mesmo no cinema “de arte”, diretor ou produtor que não queira reaver com a obra, o investimento feito nela. A não ser que já seja milionário e atue no cinema por passatempo.

Obviamente o filme tem vários defeitos. Atuações caricatas (David Zayas é o maior exemplo, muito ruim), a relação entre os personagens de Stallone e Gisele não convence (e para um filme assim, a atriz, que defende bem seu papel, não tem os atributos físicos aproveitados como deveria), e algumas cenas são confusas. No entanto, em âmbito geral, “Os Mercenários” entrega o que promete. Ação. Tiros. Humor tosco. Truculência. Perseguições de carros. Explosões. Nostalgia. É um trabalho endereçado a um público reduzido. E que teve sua carreira nos cinemas do Brasil prejudicada pelas asneiras ditas por Stallone durante a Comic-Con 2010.

Como brincadeira, “Os Mercenários” é diversão masculina garantida e boa alternativa para quem busca uma história despretensiosa e com muita testosterona, principalmente em home vídeo. E que logo pode ser esquecida.

OS MERCENÁRIOS
(The Expendables, EUA , 2010).

Direção:  Sylvester Stallone.
Roteiro: Dave Callaham, Sylvester Stallone.
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin, David Zayas, Giselle Itié, Gary Daniels, Terry Crews, Mickey Rourke, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger.
Ação.
103 min.

Estreia nos cinemas brasileiros: 13/08/2010.

Lançamento em DVD no Brasil: 01 e 02/12/2010.

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *