Señor Antonio e Senhor Antônio

Próxima à Estação Sáenz-Peña, em Buenos Aires, há uma banca de jornal onde trabalha o simpático Señor Antonio. Baixo e gorducho, ele sempre recebe seus clientes com um sorriso no rosto. Seus óculos com aros grossos presos numa correntinha destacam os olhos pequenos e brilhantes. O pouco cabelo, que ainda resta em sua cabeça, está branco. Não tem como não pensar em um vovô querido ao encontrá-lo.

A sua cara redondinha se ilumina, mostrando os dentes amarelados pelo tempo, quando alguém entra para comprar cartões-postais. Empolgado, começa a ajudar o desconhecido na escolha dos lugares. Na hora de dar o troco, sempre se atrapalha. Não há como se preocupar com ele, pois alguém de má índole pode ludibriá-lo com facilidade.

Ao saber que sou brasileira, começa a lembrar dos tempos áureos em que ia até o sul do Brasil de carro nas suas férias. Naquela época ganhava em dólar e a vida era próspera. Filhos de imigrantes espanhóis, señor Antonio sempre trabalhou com comércio. Foi com seu trabalho que conseguiu pagar os estudos dos seus filhos: um engenheiro e uma professora.

No final dos anos 90, señor Antonio tinha uma pizzaria. Tudo ia muito bem até assaltarem o lugar. Os bandidos deram coronhadas na cabeça do señor Antonio, que ficou vários dias internado no hospital. Durante muito tempo ficou com a sua saúde debilitada e a família teve de vender o restaurante para pagar as despesas médicas. Nessa época, a vida não era tão próspera. Apesar de recuperado, ele ainda tem sequelas. A família decidiu comprar uma banca de jornal para que señor Antonio voltasse a trabalhar. Não que ele devesse, pois alguém que trabalhou tantos anos, tão duro, deveria poder descansar na sua velhice. Mas sua “jubilación” não é suficiente para pagar os remédios.

Señor Antonio carrega nostalgia dentro dele. Parece que só quem fala espanhol sabe o real significado dessa palavra. Nostalgia é a lembrança melancólica, é quase um tango, de momentos passados e tão queridos.

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Próxima à Avenida Angélica, em São Paulo, há uma banca de jornal onde trabalha o simpático Senhor Antônio. Baixo e gorducho, ele sempre recebe seus clientes com um sorriso no rosto. Seus óculos com aros grossos presos numa correntinha destacam os olhos pequenos e brilhantes. O pouco cabelo, que ainda resta em sua cabeça, está branco. Não tem como não pensar em um vovô querido ao encontrá-lo.

A sua cara redondinha se ilumina, mostrando os dentes amarelados pelo tempo, quando alguém entra para comprar cartões-postais. Empolgado, começa a ajudar o desconhecido na escolha dos lugares. Na hora de dar o troco, sempre se atrapalha. Não há como se preocupar com ele, pois alguém de má índole pode ludibriá-lo com facilidade.

Ao saber que sou santista, começa a lembrar dos tempos áureos em que trabalhara no porto de Santos. Naquela época ganhava bem e a vida era próspera. Filhos de imigrantes portugueses, senhor Antônio foi para São Paulo trabalhar com comércio. Foi com seu trabalho que conseguiu pagar os estudos dos seus filhos: um engenheiro e uma professora.

No final dos anos 90, senhor Antônio se aposentou. Tudo ia muito bem até o seu filho ser vítima de um sequestro relâmpago. Os bandidos deram coronhadas na cabeça dele, que ficou vários dias internado no hospital, mas não resistiu aos ferimentos. A família gastou muito dinheiro com as despesas médicas. Nessa época, a vida não era tão próspera. Com o dinheiro que sobrou do seguro de vida do seu filho amado, senhor Antônio decidiu comprar um uma banca de jornal para voltar a trabalhar. Não que ele devesse, pois alguém que trabalhou tanto anos, tão duro, deveria poder descansar na sua velhice. Mas sua aposentadoria não é suficiente para pagar os remédios e ele não tem mais o seu filho para ajudá-lo com as despesas.

Senhor Antônio carrega saudades dentro dele. Parece que só quem fala português sabe o real significado dessa palavra. Saudades é a lembrança suave, é quase um samba uma bossa nova, de momentos passados e tão queridos.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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