A Primeira Liberdade

Durante minha vida, aquela seria a primeira das muitas privações que teria da nossa tão querida e amada liberdade.  A primeira experiência de exclusão social e parcial privação de sentidos.  Este tipo de experiência nos impacta de forma tão intensa que nossa vida pode ser marcada com um antes e depois delas. Comigo, não foi diferente.

Estava deitado. A lembrança mais forte puxada pela memória abalada é que eu estava deitado. Uma escuridão total pairava sobre mim. Notei a força da ausência da luz porque, quando forcei um pouco os olhos a fim de abri-los, a sensação era a mesma que se tinha ao mantê-los fechados.

Não me lembro de como fui parar naquela estranha cela. Minha mente fraquejava ao tentar resgatar um resquício que fosse, um fragmento qualquer do momento anterior ao cárcere. Instantes a mais de esforço revelaram alguns lances de imagens sem nenhuma ligação entre si: primeiro, um milhão de vozes pareciam estarem presas no mesmo lugar; depois, as vozes foram diminuindo. Surgiu, neste ponto, a imagem em esboço de apenas duas pessoas. Um homem e uma mulher seguidos de uma agitação alucinante que não distingui com perfeição.

A prisão era realmente assustadora. “Mas que porra!”, pensei. “Como diabos vim parar nesse lugar?”. As grades que me prendiam,  eu não conseguia alcançar. Mas vez ou outra esbarrava nela e, por causa da escuridão que transformava o lugar em um labirinto, me perdia constantemente.

Ao contrário do que se pode pensar nestas situações, a alimentação era farta.  Davam-me água, sucos e refrigerantes. A parte sólida não ficava devendo: chegava em abundância e qualidade inquestionável. As lembranças das melhoras refeições da minha vida futura devo a esta primeira experiência.

Porém, nem tudo eram flores e logo as torturas começaram: era comum que mãos estranhas passassem pela cela e apalpassem meu corpo. Nenhum toque era desrespeitoso. Os toques incomodavam bastante já que a origem deles era desconhecida por mim. O clima pesado me fazia pensar em milhões de coisas aterradoras que possivelmente estavam a minha espera. “Quem está fazendo isso comigo, Deus?”, perguntava para mim mesmo. “Com que finalidade?”. Em meio à escuridão, não havia quem pudesse me socorrer.

Os meses foram avançando e eu já havia me adequado à rotina imposta pelos que me mantinham – sabe-se lá por que razão – naquelas condições insanecedoras. Minha visão continuava a mesma e, depois de pouco esforço, pareceu-me vantajoso ficar com os olhos fechados. Afinal, faria alguma diferença?

A única coisa que senti mudar foi meu corpo. Mesmo não o vendo, notei um crescimento descomunal dos primeiros dias mantido preso. Anos depois, fui imaginar que neste momento, talvez, eu estivesse acreditando estar sob o afeito de alguma droga sintética. Que as luzes que me recordava eram uma boate louca da Baixada Fluminense e o casal era a lembrança remota de mais uma manifestação voraz do meu insaciável apetite sexual.

Um dia, enfim, ouvi algo sobre a minha “chegada”. “Deve ser algum código”, formulava. As vozes, antes tão escassas, tornaram-se mais ricas do que nunca: um falatório geral. Senti medo como nunca antes na minha vida. Vida? O que eu teria vivido até ali?

Foi aí que aconteceu o que eu nunca iria imaginar. As vozes se alvoroçavam no lado de fora. Agitação geral. Uma movimentação desenfreada até que pude ver um finíssimo rastro de luz por entre uma brecha pequenina à minha frente. Depois ela se tornou maior, as vozes mais fortes, cada vez mais altas. Eu queria ficar, mas não consegui. Fui arrastado por uma força desconhecida na direção daquele buraco nunca antes notado até aquele derradeiro instante.

De repente, as vozes cessaram. Aí então pude ver uma mulher linda, estampando um sorriso genuíno nos lábios. Os donos das vozes em silêncio e o único som que se ouvia era uma espécie de grito de liberdade vindo de mim: Meu choro rompia os limites das desconhecidas e pouco confortáveis mãos do estranho que equilibrava meu pequenino corpo.

Pessoas no outro lado da sala acompanhavam meu choro quase que ensaiadamente e, ali, naquele instante, foi posto à prova todo o meu conhecimento sobre realidade: Eu havia nascido.

Foi colunista da extinta revista digital Acerto Crítico, do ano de 2000 até seu término em 2006. Foi colunista fixo dos blogs Jovem Repórter e CulturaNI , onde abordava cultura pop, música, cinema e cotidiano cultural da Baixada Fluminense. Escreve contos no seu blog pessoal “Se Nada Mais Der Errado”. Colabora com o CineZen desde 2010. É roteirista por formação – e, por orgulho – da HQ “Cotidiano”, pela editora “Maustouche”. Escreveu o roteiro dos curtas-metragens ” Ainda bem que estamos aqui” e ” Se nada mais der errado”. É autor de “Pequenos botões e grandes blusas”, distribuído digitalmente de forma gratuita.

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