O sonho renasce em São Paulo

Paul McCartney abriu o show com "Magical Mystery Tour" (Foto: Flavio Moraes/G1)

Escrever sobre o que foi o show de Paul McCartney segunda-feira, 22 de novembro, no estádio Cícero Pompeu de Toledo, em São Paulo, é chover no molhado – sem qualquer trocadilho com a chuva que pairou sobre a capital paulista no dia. Dizer que a apresentação foi sensacional, que Paul é carismático, uma “lenda viva”, que os músicos são excelentes (e o batera uma figuraça), o repertório magistral, todo mundo sabe.

No auge dos seus 68 anos, Paul destina à sua plateia uma atenção que outros coleguinhas do universo pop não possuem, ou não sabem, ou fingem que não sabem. Vozes do contra, mergulhadas em infinito ranço, dirão que a simpatia do ex-Beatle é populismo, hipocrisia, atitude para ganhar público. Tirando as duas primeiras opções, que não cabem ao evento de ontem e ao artista em questão, qual o problema em querer tomar a plateia pelas mãos? Não que Paul precisasse disso. Suas canções são atemporais, clássicos, principalmente aquelas de sua antiga banda. “A” banda. A maior de todos os tempos. E que ele, ao contrário de outros roqueiros ingratos, valoriza e não se envergonha de manter vivo o legado dos fab four.

Tem espectador que é tipo mulher de malandro. Gosta de artista que ignora o público, maltrata-o, cospe, ofende, chega atrasado, toca com o instrumento desafinado, esquece letra de música. Eu não. Apesar dos meus 30 anos, devo ter a mente de alguém de 50, vai ver. Admiro artistas, da música, do cinema, do teatro, todo gênero artístico, que têm educação e valorizam o que recebem. Que retribuem com carinho, entrega e, claro, talento (o essencial), o dinheiro investido pelo ouvinte, espectador, fã, numa apresentação ou obra artística. Não é barato. O show de Paul, por exemplo, tinha ingresso a R$ 700,00.

Fosse gratuito, nada justificaria também algum mau humor. Pois estavam presentes no Morumbi mais de 60 mil pessoas. Que enfrentaram o trânsito caótico de São Paulo, a desorganização pública e privada para a realização do evento (e querem fazer Copa do Mundo), a chuva e os preços superfaturados de sanduíches, que pareciam borracha (R$ 8,00), pacotinhos de amendoim minúsculos (R$ 5,00), entre outras opções “gastronômicas” toscas.

(Foto: André Azenha)

Porém, bastou Sir Paul surgir no palco, em horário marcado, para toda e qualquer indignação desaparecer. E é assim que um artista, na acepção da palavra, deve ser. Fazer o público esquecer dos males do mundo por minutos, ou horas (no caso desta segunda foram três, exatas), e sentirem-se num sonho. Talvez “aquele” sonho, de John Lennon, tenha morrido. Mas ontem, no Morumbi, dezenas de milhares de pessoas participaram de um sonho coletivo, não revolucionário ou com intenção de mudar o mundo, só que imortal na mente de cada um presente no estádio.

Paul McCartney ainda surpreendeu e alterou o repertório que era esperado. Uma das canções trocadas foi logo a primeira, a que abre o show. “Venus and Mars/Rock Show” deu lugar a “Magical Mistery Tour”. Mais três músicas foram mudadas no set list: “Got to Get You Into My Life”e “I’m Looking Through You” que, respectivamente, entraram no lugar de “Drive My Car” e “I’ve Just Seen A Face”. E “Blue Bird” foi um bônus que fãs que assistiram à outros shows do cantor no Brasil não tiveram a chance de escutá-lo cantando.

E ele falou português várias vezes, tentou alguns passos esquisitos, meio que tentando, imagino, dançar algum ritmo brasileiro, agradeceu sem parar, levantou a bandeira do Brasil e ainda brincou com a chuva, cantando: “Tudo bem ‘in the rain””, misturando nosso idioma e o inglês.

Integrante de um raro grupo formado ainda por Elvis, os outros Beatles, Stones e Michael Jackson, Paul McCartney deixou o país com a sensação de dever realizado. Sua felicidade era latente ao término do espetáculo. E o público. Ah, esse jamais esquecerá a noite do dia 22 de novembro de 2010. A noite em que todos cantaram e ecoaram obras primas como “Yesterday”, “A Day in the Life”, “Helter Skelter”, “Hey Jude” e “Let it Be”.

Abaixo, o set list do show:

MAGICAL MISTERY TOUR
JET
ALL MY LOVING
LETTING GO
GO TO GET YOU INTO MY LIFE
HIGHWAY
LET ME ROLL IT
LONG AND WINDING ROAD
1985
LET ME IN
MY LOVE
I’M LOOKING THROUGH YOU
TWO OF US
BLACKBIRD
HERE TODAY
BLUEBIRD
DANCE TONIGHT
MRS VANDERBLIT
ELEANOR RIGBY
SOMETHING
SING THE CHANGES
BAND ON THE RUN
OBLA DI OBLA DA
BACK IN THE USSR
I GOTTA FEELING
PAPERBACK WRITTER
A DAY IN THE LIFE
LET IT BE
LIVE AND LET DIE
HEY JUDE

DAY TRIPPER
LADY MADONNA
GET BACK

YESTERDAY
HELTER SKELTER
SGT. PEPPER

(Foto: André Azenha)
André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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