A Saudade da Antiga Aurora

Já faz algum tempo desde que recebi a ligação da Taiane anunciando sua morte. Sinceramente, até hoje, eu custo a acreditar nela. Custo a acreditar que me roubaram um amigo confidente, gente de beleza rara e cheia de sonhos. Tipo de gente que costuma mudar o mundo. Não lhe deram a oportunidade de mudar nada, meu amigo…

A voz da Taiane tremia ao telefone. Eu, meio aturdido, tentei acalmá-la, pois seu nervosismo misturado ao choro compulsivo não ajudava na compreensão de uma sílaba sequer das palavras atropeladas que brotavam de sua boca. Analisando rapidamente a situação, pude supor que a notícia, tão difícil de ser dita, dolorosamente proferida, seria algo relacionada a você. “Sofreu algum acidente, meu Deus?”, pensei de imediato. “Será que está na UTI, internado ou o quê? Quantas vezes o avisaram sobre o jeito inconseqüente que pilotava aquela moto!”.

Infelizmente, meus palpites eram otimistas demais.

Por conta da inquietude de minha amiga, me dispus a ir até a casa dela para que me contasse com calma o que lhe causava tamanho desespero e dor. No caminho de pedras, apertava meu passo, olhando sempre em frente, tentado não supor que o pior lhe havia acontecido.

Quando cheguei na esquina da casa de Taiane – que ficava de frente para a sua – a grande movimentação de pessoas me alarmou mais ainda: gente nunca vista por meus olhos estavam chorando, chorando e chorando. Senti a dor vazando de todos aqueles desconhecidos irem junto a mim, receptáculo de todas as feridas expostas a olho nu, mas ao mesmo tempo, imperceptíveis na carne. Doía dentro do ser, na alma.

Taiane me esperava na frente de sua casa. Ao abraçar-lhe, ela sussurrou, quase sem forças, aquilo que eu já sabia, havia acontecido com você: “O John morreu, Wanderson. Mataram o John”. Minha primeira reação ante a notícia foi me jogar no chão, levar as mãos à cabeça e não pensar em absolutamente nada.

Olhava o choro rasgante de sua mãe. Os estranhos tentando acalmá-la. Os moradores do bairro – que, mesmo sem conhecê-lo ou reconhecê-lo como um amigo de seus filhos, se compadeciam daquela pobre mulher cuja alma sofria como estando no próprio inferno.

Assisti àqueles momentos como um espectador fitando um filme qualquer. Para mim, era inconcebível que um amigo, no auge de seus libertários dezoito anos, havia sido assassinado imprudentemente durante uma blitz policial. Um engano. Não pude atravessar a rua para abraçar sua mãe – nem sequer olhei nos olhos da Taiane durante o resto da semana. Passei seis dias seguidos relembrando as conversas, os sorrisos e me veio a saudade.

Mesmo hoje em que, por conta do tempo decorrido, involuntariamente, a gente acaba aceitando certas fatalidades, se acostumando a elas, desperto na madrugada sonhando com aquele dia.  Encaro-me diante do espelho e , pouco a pouco, vou me rendendo perante a tua cruel retirada.

Após sua morte, choveu durante uma semana…  Seria o mundo de luto? Não, claro que não. Viu, John? Até Deus chorou por você.

Foi colunista da extinta revista digital Acerto Crítico, do ano de 2000 até seu término em 2006. Foi colunista fixo dos blogs Jovem Repórter e CulturaNI , onde abordava cultura pop, música, cinema e cotidiano cultural da Baixada Fluminense. Escreve contos no seu blog pessoal “Se Nada Mais Der Errado”. Colabora com o CineZen desde 2010. É roteirista por formação – e, por orgulho – da HQ “Cotidiano”, pela editora “Maustouche”. Escreveu o roteiro dos curtas-metragens ” Ainda bem que estamos aqui” e ” Se nada mais der errado”. É autor de “Pequenos botões e grandes blusas”, distribuído digitalmente de forma gratuita.

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