Mais uma Vez Solidão

Tenho odiado estes dias:
Minhas drogas acabaram. Minha namorada está em São Paulo, por causa do trabalho. Tenho um livro de 600 páginas para traduzir do qual mal transcrevi o prefácio. A produção do meu livro anda parada feito o trânsito da Avenida Paulista e, para piorar ainda mais, não me tem sobrado um dinheiro excedente para a compra do meu néctar particular: A cerveja!

Toda minha casa tem se resumido ao meu quarto. Por ele sei a mudança dos dias e noites quando constato a escuridão dominadora acompanhada de uma brusca queda na temperatura. Típica dessas noites solitárias. No quarto, acendo a luz da pequena luminária posta em cima da cama. Em seu âmbito ele retém todo meu trabalho, meus livros, meu lazer… Todos inertes.

A partida dela desestruturou-me por completo. Inclusive os cômodos de minha casa: pelo chão, espalhados aleatoriamente, embalagens de comida pronta, na verdade, biscoitos, doces e alguns bolinhos de chocolate de uma marca famosa, fazendo daqui minha cozinha. Uns palitinhos de brigadeiro – que eu adoro – se alternam com a harmonia confusa desse ninho particular. Analisando melhor as coisas, percebo que não tenho me alimentado com muita frequência. A última coisa que meu corpo sentiu percorrer pelo sistema circulatório foi uma dose de heroína comprada de uma traficantezinha na Praça Santos Dumont. Ela cobrou barato.

As noites são embaladas pelo set list do meu MP4 – já que meu computador resolveu parar de inicializar por tempo indeterminado, como greve de servidores públicos.

Músicas avançam pela madrugada sem que minha atenção se volte um único momento para o amplificador – a não ser quando toca “Behind Blue Eyes”, do The Who. Adoro aquela introdução inconfundível! Elas só servem como background musical para esse mergulho solitário. Como em um grande filme de suspense. Não tenho visto filmes…

Acabei de me lembrar de uma garrafa de batida de laranja que escondi no fundo do refrigerador para momentos como estes – pois, como diz um caríssimo amigo, eu “namoro” com a depressão. Tenho que me controlar, é uma garrafa de apenas um litro e meio. Logo eu, um revolucionário, terei de me tornar algo que odeio: um reacionário. Com um pouco mais de esforço mental, quem sabe eu não me lembre de outra substância perdida por entre minhas coisas? Talvez, quem sabe…

Em minha casa – ou seja, no meu quarto – meu olhar perdido, procurando alguma espécie de firmamento, mesmo com a mente confusa, ainda pelo efeito da heroína, não consegue organizar mais que dois pares de palavras desconexas aflorando, em seu criador, uma sensação de inutilidade e paraíso ao mesmo tempo. Ser humano é ser trágico.

Com Hosana em São Paulo, tenho agora aqui uns poucos amigos que forçam minha ligação com a realidade. Não contatei ninguém. Nem o quero fazê-lo. Seria doloroso ver esse meu mundo especial – caoticamente especial – se perder por causa de um diálogo sem fundamento. Não há necessidade. Ainda consigo sobreviver.

Voltando à Hosana: converso com ela quase todos os dias. Não tanto quanto quero, já que ela só consegue me ligar nas pausas conseguidas às pressas no trabalho. Nada suficiente para diminuir a distância ou me fazer sentir um pouco mais vívido. Tecnologia é uma merda nessas horas! Relação de dependência também. Pensando melhor, não há do que reclamar. Prefiro mesmo a saudade atenuada por breves ligações DDD rompendo o véu da distancia e indo assim, amiúde, matando saudade.

Mesmo na putrefação do meu dormitório, que fundi odor de decomposição com alguma espécie de excremento humano, creio ter sentido seu perfume hoje, ao despertar de meu único cochilo, de 20 minutos, nesses quatro dias.

Agora, já é noite novamente. As coisas aqui estão exatamente da mesma forma desde que ela partiu, com exceção de meu estado deprimente.

Melhor parar de lamentar. Nada posso fazer se não esperar seu retorno para meus braços e amá-la tão intensamente como antes. Na noite finda, só disponho de minha garrafa de batida de laranja para mergulhar pelos dias – e fazer rendê-la até onde der!

Há um sentimento de dias mortos como se, em meu interior, eu próprio os tivesse sido por inteiro.

Foi colunista da extinta revista digital Acerto Crítico, do ano de 2000 até seu término em 2006. Foi colunista fixo dos blogs Jovem Repórter e CulturaNI , onde abordava cultura pop, música, cinema e cotidiano cultural da Baixada Fluminense. Escreve contos no seu blog pessoal “Se Nada Mais Der Errado”. Colabora com o CineZen desde 2010. É roteirista por formação – e, por orgulho – da HQ “Cotidiano”, pela editora “Maustouche”. Escreveu o roteiro dos curtas-metragens ” Ainda bem que estamos aqui” e ” Se nada mais der errado”. É autor de “Pequenos botões e grandes blusas”, distribuído digitalmente de forma gratuita.

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