Os 45 anos de A Noviça Rebelde


As comemorações do aniversário de 45 anos de “A Noviça Rebelde” estão bombando nos Estados Unidos. Afinal, trata-se de um clássico absoluto amado pelo público e um fenômeno que atravessa gerações. Como explicar tamanho sucesso?  “Vamos começar pelo início – um  lugar muito bom para começar…” cantou a personagem Maria, na interpretação icônica de Julie Andrews – que chegou aos 75 anos em 2010. E é justamente com ela que o estrondoso êxito começou. Uma escolha perfeita, perfect casting, como dizem os profissionais de cinema, a atriz /cantora ideal para interpretar Maria Von Trapp. Tanto  que a imagem guardada pelo público de Julie até hoje é a da sapeca noviça, insuperável. Não é à toa que em noite de Oscar, quando Julie é apresentadora, grandes astros como Tom Cruise, Nicole Kidman, Helen Miren e diretores como Martin Scorcese se levantam para ovacioná-la. É só dar uma olhada no Youtube. São fãs declarados do clássico,: Julia Roberts, Cameron Diaz, Kate Winslet, Kristen Scott Thomas, o casal Cruise – Holmes, Zoë Saldaña, Julianne Moore, Alec Baldwin, Chirstian Slater.

E não há adjetivo que ainda não tenha sido usado para elogiar a grande interpretação dessa atriz completa: irresistível, radiante, memorável, encantadora são alguns, “combinando inocência e entusiasmo num timing cômico perfeito com uma voz de soprano deslumbrante”, segundo a exigente revista Empire. Ou, como no ano de lançamento descreveu a severa Judith Christ, “nenhuma tela é suficientemente grande para conter a contagiante energia de Julie Andrews!” Alguns poucos críticos reservaram cínicos e amargos comentários sobre o filme, criando um mal estar entre o público e as publicações. Para a super rígida e mal-humorada  crítica Pauline Kael o preço pela afronta foi alto: foi sumariamente demitida.

Outros elementos também apresentam grande importância ao se analisar o fenômeno que é a popularidade do longa, destacando-se a brilhante direção de Robert Wise. Reza a lenda que  foi Ernest Lehman, roteirista favorito de Hitchcock,  quem convenceu Wise a falar com Walt Disney, que prontamente lhes mostrou um copião de “Mary Poppins” para apreciarem os talentos de sua nova descoberta, Julie. Wise disse a Lehman:  Achamos nossa garota!

O script do lendário roteirista é perfeito,  inserindo as canções  com muita naturalidade, acrescentando muito humor e diálogos espirituosos, mas preservando o encanto da história real da noviça Maria, no início da Segunda Guerra Mundial, quando é enviada para a casa do capitão Georg Von Trapp para cuidar de seus sete filhos, órfãos de mãe. A noviça conquista a família, e de quebra, todas as plateias do mundo. Wise lembra que o carisma de Julie vai da câmera, direto ao coração do público.

A música composta pelos lendários Rodgers e Hammerstein é simplesmente gloriosa, e todo mundo aprende rapidinho: “Do Re Mi”, “My Favorite Things”, “Climb Every Mountain”, “The Sound of Music”, “Edelweiss”. Para se ter idéia, Gwen Stefani (vocalista do No Doubt) compôs “Wind it Up” em homenagem à Julie cantando “The Lonely Goatherd”. JLS, grupo de Black music, fez uma dançante “Sound of Music”. Ambas interpretações podem ser vistas no Youtube. No Brasil, Caetano Veloso incluiu a romântica “Something Good” em seu CD A Foreign Sound.


Dentro das comemorações de outubro, haverá o lançamento do CD comemorativo com um bônus: “A Noviça Rebelde” chega a “Glee” e Lea Michelle canta “My Favorite Things”. A trilha sonora nunca saiu de catálogo e vendeu mais de 11milhões de cópias.

A Fox ainda relançará o filme em 500 cinemas nos dias 19 e 26 desse mês, em versão sing along, onde o público vai fantasiado e canta junto com o filme. Um evento.

A fotografia do longa, por Ted D. McCord em 70mm Todd-AO, é de um requinte extraordinário. Foi destacada por vários profissionais na revista American Cinematographer como uma das mais bonitas da história do cinema, não só pelas lindas externas, mas nos contrastes do preto com o branco nos hábitos das freiras, em iluminação perfeita.  A cena de abertura é antológica, considerada a mais bela sequência aérea do cinema, com a câmera num helicóptero vindo ao encontro de Julie cantando no alto da montanha.  A sempre bem-humorada Julie conta que passou muito frio e foi derrubada umas 12 vezes pela ventania causada pela hélice.  Um contraponto importante: os figurinos são propositalmente austeros para ir de encontro com o clima de começo da Segunda Guerra.

As coreografias de Dee Dee Wood são de uma espontaneidade vibrante, descritas como dificílimas por Christopher Plummer (o capitão)  em sua autobiografia, mas que, com o talento de Julie, não parecem exigir esforço algum.  Esse ótimo ator emprestou sua autoridade ao personagem com sucesso, o que o manteve  a certa distância dos atores infantis, mas desenvolveu grande amizade com Julie. “Trabalhar com ela é como ser atingido na cabeça com um cartão do dia dos namorados”,  foi seu comentário à imprensa, e que divertiu  muito a atriz. Durante anos Chris teve certo desapego a esse que é seu mais famoso filme e personagem, principalmente por ter sido dublado em seus dois grandes números musicais. O tempo apagou esse ressentimento e hoje ele está de bem com o clássico: graças à sua aceitação, o elenco principal de “A Noviça Rebelde” aparecerá, pela primeira vez desde a estreia, no programa especial de Oprah Winfrey, fantástico projeto que vai ao ar em 29 de outubro.

As homenagens ao querido musical não param aí:  em 2 de novembro será lançado o blu-ray com toda pompa e circunstância, inclusive em um box especial, todo decorado, com script, programa original, fotos inéditas, caixinha de música e outras coisinhas preciosas para colecionadores alucinados. Fatos especiais, documentários, especial de Julie Andrews e Carol Burnett e audições de atores hoje famosos,  mas então desconhecidos,  e que não conseguiram os papéis, estão lá:  Mia Farrow , Richard Dreyfuss, Kurt Russell, entre outros.  Em 8 de novembro o VH1 Save the Music fará um tributo a Julie Andrews e “A Noviça Rebelde”, com a presença de Beyoncé. E a festa não vai ser só para single ladies!

O artista plástico e cinéfilo Waldemar Lopes, autor do texto, e sua homenagem ao filme

É também interessante verificar como “A Noviça Rebelde”, de tão icônico, é citado em vários filmes como “O Sexto Sentido”, “Operação Babá”, “O Mensageiro” e em séries de TV como “Will & Grace”. Aparece em seis listas de melhores de todos os tempos do American Film Institute, em categorias como filme, musical, paixões, canções. Oscars?  Com 10 indicações, ganhou cinco em categorias muito importantes: melhor filme, diretor, montagem, som e trilha sonora adaptada. Julie era a favorita para melhor atriz, mas não ganhou porque no ano anterior já havia vencido por “Mary Poppins”, sua estreia.  “Escapei da maldição de Luise Rainer”, disparou. Todavia, ela ganhou mais um Globo de Ouro, assim como o filme. E teve BAFTA, Grammy, um sem fim de prêmios. Mas talvez o maior deles seja o amor do público: consolidando a fabulosa reputação do musical, constatou-se que, ajustando-se os preços dos ingressos pela inflação, “A Noviça Rebelde” ocupa um espetacular terceiro lugar na lista das  maiores bilheterias de todos os tempos, muito acima de “Avatar”!

Anunciava  com candura o slogan da publicidade na época:  “A Noviça Rebelde: O som mais feliz no mundo todo!”. Para o blu-ray, outra  pura verdade: Quanto mais o vemos, mais nos apaixonamos!”. E ao  surgir  na tela aquele famoso The End, voltamos à  nossa realidade cheios de esperança  em nossos corações , ainda sob o efeito dos últimos versos de “Climb Every Mountain”:  “escale toda montanha, atravesse cada rio, siga todo arco-íris até que você encontre seu sonho!”.

Uma relação de amor entre um filme  inspirador e seu  público, que atravessa gerações e deixa um rastro de alegria por onde passa.  As  palavras da modesta Julie Andrews sobre seu legado ao cinema  estão intimamente ligados a essa obra prima de Robert Wise: “Espero ter trazido às pessoas um pouco de alegria  e que ela possa tê-las  ajudado a esquecer seus problemas por algumas horas. Este seria um legado maravilhoso!”

Influência no Brasil

A influência de “A Noviça Rebelde” também chegou ao Brasil. Tanto que, ao trazerem o espetáculo original da Broadway para o país, os diretores Charles Möeller e Claudio Botelho tomaram certas liberdades ao montar a adaptação. Ao contrário de outras peças baseadas em montagens da Broadway, que trocam somente o idioma, no Brasil o público pôde conferir diversas referências ao longa-metragem e improvisações do elenco.

No cinema nacional, a mais notória referência ao clássico é “O Noviço Rebelde” (1997), estrelado por Renato Aragão. O ex-Trapalhão faz personagem-título, que foge de um coronel cearense e vai parar no Rio de Janeiro, onde passa a cuidar dos cinco filhos de um viúvo (Tony Ramos).

A NOVIÇA REBELDE
(The Sound of Music, EUA, 1965).
Direção: Robert Wise.
Roteiro: Ernest Lehman (roteiro), Howard Lindsay (livro), Russel Crouse (livro), Maria von Trapp (livro).
Elenco: Julie Andrews, Christopher Plummer, Eleanor Parker, Richard Haydn, Peggy Wood, Heather Menzies, Nicholas Hammond, Angela Cartwright, Kym Karath, Debbie Turner, Duane Chase, Charmian Carr, Anna Lee, Portia Nelson, Daniel Truhitte, Norma Varden.
Musical / Drama / Romance.
174 minutos.

Principais prêmios e indicações:

– Oscar: Filme, Diretor, Montagem, Trilha Sonora adaptada, Som.
– Indicação ao Oscar: Atriz (Julie Andrews), Atriz coadjuvante (Peggy Wood), Direção de arte, Fotografia a cores e Figurino a cores.
– Globo de Ouro: Filme de comédia/musical, Atriz em comédia/musical (Julie Andrews).
– Indicação ao Globo de Ouro: Diretor, Atriz coadjuvante (Peggy Wood).
– Indicação ao BAFTA: Atriz (Julie Andrews).
– Sindicato dos Diretores da América (DGA): Prêmio DGA por realização cinematográfica de direção.
– Sindicato dos Roteiristas da América (WGA): Melhor roteiro para musical.

GALERIA

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Disponível em diferentes versões de DVD.

VÍDEOS RELACIONADOS

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Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

12 thoughts on “Os 45 anos de A Noviça Rebelde

  1. Waldemar, que matéria linda.
    Parabéns André, por contar com um colaborador desse naipe.
    Fiquei emocionada…sonhei…viajei…
    beijos a ambos
    Regina Azenha

  2. Com uma estória envolvente e tocante, belíssimas canções, imagens de tirar o fôlego e contando com a presença da adorável atriz Julie Andrews, o musical A Noviça Rebelde há 45 anos encanta platéias de todo o mundo. Um clássico desta magnitude deve ser sempre lembrado e homenageado! Parabéns pela excelente matéria!

  3. A “Noviça Rebelde” é um clássico que marcou época quando foi lançado e ainda hoje encanta a todos. Trilha sonora sensacional, atores perfeitos, paisagens maravilhosas.Julie Andrews mostrou todo o seu talento nesse filme. Adorei a matéria, parabéns Waldemar

  4. A “Noviça Rebelde” é um clássico que marcou época quando foi lançado e ainda hoje encanta a todos. Trilha sonora sensacional, atores perfeitos, paisagens maravilhosas. Julie Andrews mostrou todo o seu talento nesse filme. Adorei a matéria, parabéns Waldemar

  5. A “Noviça Rebelde” é um clássico que marcou época quando foi lançado e ainda hoje encanta a todos. Trilha sonora sensacional, atores perfeitos, paisagens maravilhosas. Julie Andrews mostrou todo o seu talento nesse filme. Adorei a matéria, parabéns Waldemar.

  6. Muito boa a matéria, q aliás não podia faltar para um cinéfilo de bom gosto e romântico como vc. Noviça Rebelde, será sempre um alento para a humanidade e Julie Andrews, a representante maior ,da esperança de um mundo melhor..Vivam “os rebeldes”!!

  7. Tenho certeza q todos os fãs de Julie Andrews adorariam ler esta matéria q você – fã número 1 de Julie – escreveu sobre os 45 anos deste incrível filme, que continua encantando não só os adultos mas também o público jovem e infantil. Parabéns, Wal!

  8. PARABÉNS

    Que bela matéria, Para esse belo filme.

  9. Waldemar,tudo que eu psso falar seria redundancia do que já foi dito por outros ,só digo que um filme imortal,tão maravilhoso como esse , só poderia merecer um critico do mesmo naipe,voce é claro!
    Beijos,parabens de coração,
    Sergio e Gilza

  10. Waldemar,tudo que eu posso dizer sobre seu maravilhoso trabalho seria redundancia do que já foi dito por outros,,um filme como esse só merece um critico do mesmo naipe..voce!
    Beijos e parabens de coração,
    Gilza

  11. Waldemar,qualquer coisa que eu possa falar sobre seu maravilhoso artigo seria redundancia do que já foi dito por outros,só quero assinalar que o imortal filme Noviça Rebelde merece um crítico do mesmo naipe…Você!
    Parabens de coração,beijos,
    Gilza e Sergio

  12. Who better than Waldemar Lopes to write about the talented and lovely Julie Andrews! Certainly there is no one who is a bigger fan or who is more knowledgeable than he is.
    A wonderful article, Wal, and I know she would be very impressed and honored.
    Miss you lots.
    lamyra

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