Chico Xavier – O Filme é bela cinebiografia do mais famoso médium brasileiro

Chico Xavier – O Filme (Idem, Brasil, 2010). Direção: Daniel Filho. Roteiro: Marcos Bernstein. Elenco: Nelson Xavier, Ângelo Antônio, Mateus Costa, Paulo Goulart, Tony Ramos, Christiane Torloni, Cássio Gabus Mendes, Pedro Paulo Rangel, Giovanna Antonelli, Giulia Gam, Luis Melo, Letícia Sabatella, Cássia Kiss, André Dias, Rosi Campos. Carla Daniel, Ailton Graça, Charles Fricks, Ana Rosa, Anselmo Vasconcelos. Drama biográfico. 125 min. (Cor).

Antes de tudo, considero importante informar o leitor que eu sou adepto da doutrina espírita.

Transformar a vida de alguém que fez bem e ajudou tanta gente, mas que teve sua imagem ligada a uma doutrina que não tem o apelo do catolicismo, nem possui o fanatismo da religião evangélica, num país como o Brasil, de tantas disparidades sociais, seria um risco tremendo.

Em âmbito comercial, o “bem”, no cinema, muitas vezes é encarado como brega e não atrai o mesmo público como cinebiografias de figuras controversas, bandidos, artistas maluquetes ou políticos. No campo religioso, sempre há o risco da polêmica e as carolas de plantão que atiram pedras em meio à nuvem de hipocrisia. Mas o diretor Daniel Filho, ateu, não deu bola e levou em frente o projeto de filmar a trajetória de Francisco Cândido Xavier, ou Chico Xavier, o mais famoso médium brasileiro, que faria 100 anos em 2010.

Autor de mais de 450 livros, Chico nasceu no interior de Minas Gerais, em 1910, jamais se considerou um autor e nem fez uso de direitos autorais, convertendo todo o dinheiro arrecadado com a venda dessas obras para entidades de caridade. Faleceu aos 92 anos, em 30 de junho de 2002, horas após a seleção brasileira de futebol ser pentacampeã mundial.

E foi o centro de uma decisão inédita nos tribunais brasileiros. A família de um jovem morto por um tiro retirou a acusação contra o garoto acusado, depois de ler uma carta psicografada pelo médium e assinada pela vítima do crime. A arma teria disparado sem querer e os jurados decidiram pela absolvição do réu. Quer um fato mais cinematográfico que isso?

Baseado no livro “As Vidas de Chico Xavier”, do jornalista Marcel Souto Maior, o roteiro de Marcos Bernstein (“Central do Brasil”, “Zuzu Angel”, entre outros), parte da participação de Chico no antigo programa Pinga Fogo, da extinta TV Tupi, para alternar as cenas da entrevista com a vida do protagonista.

Assim, em “Chico Xavier – O Filme”, presenciamos sua infância pobre, quando ele começou a ver espíritos (entre eles a falecida mãe, que o ajudava espiritualmente) e precisou enfrentar a incompreensão de colegas de escola, familiares e cidadãos locais, até seu encontro com Emanuel, seu guia espiritual, e outros episódios como o do tribunal, a viagem (engraçada) de avião que passou por turbulência, etc. Tudo bem narrado, sem cair para o melodrama nem tentando dar à figura central um tom messiânico. De forma inteligente, o filme tem momentos de comédia, trazendo o personagem central para junto do espectador.

Tecnicamente o longa é correto. Desde a reprodução do início do século passado no interior mineiro até a concepção do programa Pinga Fogo. Mas é o elenco o grande trunfo da obra cinematográfica. Os três atores que encarnam as diferentes fases na vida de Chico Xavier correspondem à complexidade que o papel exige.

Mateus Costa na infância, Ângelo Antônio na juventude (comprovando ser um dos melhores atores do cinema nacional, com outra grande atuação após “2 Filhos de Francisco”) e Nelson Xavier. Este último parece (desculpem o clichê) ter encarnado Chico Xavier, tamanha a intensidade com que incorpora os trejeitos, a fala e o físico do médium.

Os outros atores também têm momentos marcantes. Tony Ramos, que trabalhou com o diretor Daniel Filho na franquia “Se Eu Fosse Você”, tem um depoimento emocionante como o pai ateu que dirige o Pinga Fogo e teve um filho morto que lhe escreve uma carta psicografada por Chico; Christiane Torloni, que faz a esposa esperançosa de Tony; Letícia Sabatella, a mãe de Chico Xavier; Giovanna Antonelli, como a mulher que ajuda a criá-lo e acredita na mediunidade do garoto; Cássia Kiss, mãe do garoto julgado pela morte do filho de Tony e Christiane; Luis Melo, intenso ao viver o pai de Chico; Paulo Goulart na pele do apresentador de TV. Todos esses catalisam a atenção do espectador quando estão em cena. Apenas Giulia Gam, que interpreta a madrinha de Chico, soa exagerada.

Independente de crença, religião, etc, “Chico Xavier – O Filme” é uma história inspiradora, uma justa homenagem a alguém que atraiu a admiração e a fé do público sem precisar pedir contribuições financeiras e nem utilizar construções banhadas a ouro para gerar conforto espiritual. E também serve para nos colocar em nosso verdadeiro lugar.

Há quem possa esperar uma catarse ao final do longa. Um momento de êxtase. Mas Chico foi, por mais paradoxal que possa parecer, um ser bastante evoluído sim, mas ao mesmo tempo, uma pessoa extremamente simples. E Daniel soube encerrar a trama no tom certo.

Já as carolas podem reclamar, mas ao menos pelo exemplo que eu tive na sala de projeção a qual compareci nesta Sexta-Feira Santa, o filme tem tudo para ser sucesso de público, atraindo, além dos espíritas, católicos, evangélicos, ateus, etc.
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Estreia nos cinemas brasileiros: 02/04/2010.

Lançamento em DVD e Blu-ray: Julho/2010.

Leia mais sobre e comente o filme também no Cinemaki.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

8 thoughts on “Chico Xavier – O Filme é bela cinebiografia do mais famoso médium brasileiro

  1. Brilhante resenha.Parabéns.
    A obra de Chico Xavier, realmente merece destaque,independente
    de credos ou religiões.
    Um homem que soube como ninguém exercer os ensinamentos
    cristãos, de amor ao próximo.
    Abraços
    Regina Azenha

  2. infeslimente não tive o prazer de conheçelo pessoalmente.mas sei que é um espirito muito iluminado.fica com deus velho xico.e que vc nós abençõe

  3. Minha amiga !!
    este homem de grandiosa luz , nos deixou varias mensagens ,uma delas em que nosso Jesus Cristo sempre usava , amai vos uns aos outros ……alimentou nosso espírito com varias mensagens , felizmente tivemos um Xico em nosso pais , pena que ainda temos muitos que não conhecem suas obras.

  4. Chico Xavier, como ninguém, conseguiu mostrar a importancia e a verdade da doutrina espírita e, com seus ensinamentos e sua bondade conseguiu aumentar o número de adeptos , não só do espiritismo,como dos seguidores dos ensinamentos de Cristo. Um filme comovente , fazendo juz à pessoa de Chico. Parabéns pela resenha, perfeita.

    Abraços

    Márcia Ramos

  5. Chico Xavier, maior mestre da doutrina espirita. Alem da sua luz contagiante, plantou muito amor no coracao da humanidade…Foi de uma sensibilidade inegualavel…

  6. Já fiquei muito emocionado só de assistir ao trailer, algumas semanas atrás. Daniel Filho dirigiu o filme talentosamente, com interpretações maravilhosas, fotografia, cenários e figurinos lindos, resultando em imagens que evidenciam a bondade de Chico Xavier, para mim, um mensageiro de Deus que veio ao mundo para trazer conforto, paz, amor e auxilio aos necessitados. Fico feliz pelo alto nível do filme, mostrando que o cinema brasileiro pode apresentar obras das quais podemos nos orgulhar. Na sessão que eu fui, senti a platéia arrebatada pela estória de Chico: o respeito das pessoas se manifestava em profundo silêncio e em gostosas risadas com o bom humor do biografado; tampouco ninguém saiu da sala até a última imagem do iluminado médium ter -se ido junto com os últimos créditos. Uma justa e bela homenagem foi feita a quem realmente merece.

    1. Com certeza Waldemar, e esse será o primeiro de uma série de filmes que farão justiça a pessoas importantes da nossa história. Obrigado pelo carinho e pela presença no CineZen, mais uma vez! hehe

  7. Você é suspeito pra falar sobre Chico Xavier..mas brilhante resenha!

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