“Não existem produtores-executivos no Brasil”, diz Jaak Bosmans

Jaak Bosmans dirige o lendário Paulo Autran em gravação de comercial

O cinema brasileiro tem diretores, roteiristas, atores e outros profissionais talentosos. Mas não possui uma indústria propriamente dita. Quais os empecilhos para que, enfim, tenhamos uma indústria de cinema no país? Não nos moldes da antiga Vera Cruz, que produziu tantas obras, mas faliu. Mas uma indústria que perdure, gere empregos, estabeleça de vez o cinema brasileiro. Faltam incentivos estatais? Privados? Segundo o cineasta, professor universitário e poeta Jaak Bosmans, a barreira é uma só. Não existem produtores-executivos no Brasil. “Aquele que vai fazer o cinema existir como negócio, não só arte, nem só diversão, mas indústria. Os poucos que conheço interferem de maneira a mudar todo o roteiro, às vezes querer dirigir”, afirma ele, em entrevista exclusiva ao CineZen.

Jaak, desde seu nascimento, há 59 anos, em Belo Horizonte, leva uma vida voltada às artes. É filho do compositor e maestro Arthur Bosmans e da administradora e diretora de teatro Walkyria Bosmans. Iniciou seus estudos de música clássica como pianista quando tinha sete anos. Desde então, se envolveu com música popular, literatura e claro, cinema. Depois de tornar-se publicitário, em 1974, conseguiu uma vaga no Curso de cinema da Agfa Gevaert, em Mortsel, Bélgica. Trabalhou como assistente de direção do cineasta francês Marc Mopty, no filme “Genese Degrée 3000”, apresentado na Photokina, principal feira internacional da indústria fotográfica e de imagem, que acontece a cada dois anos, na Alemanha, e premiado como um dos melhores documentários do ano na Europa.

O cineasta e o ator Paulo Goulart

Com a censura da ditadura militar, voltou-se novamente para a Publicidade, dirigindo grandes nomes do cinema e da televisão no Brasil, entre eles Paulo Autran, José Lewgoy, Paulo Goulart, Tony Ramos e Paulo Gracindo.

Convidado pela Universidade do Triângulo, em Minas, para lecionar cinema, criou e coordenou, em parceria com a professora literária Kenia Maria Machado de Almeida, o curso de especialização ”O Cinema e a Literatura na sala de aula”. Foi de um vídeo-poema dos alunos desse curso que nasceu a “Poemagem”, movimento aderido por poetas, artistas plásticos e fotógrafos e hoje bastante difundido na internet brasileira.

Num momento que tanta gente deseja “fazer” cinema no país, sem ter a noção exata do que isso significa e o que é preciso para enveredar pelo segmento, Jaak é uma voz a ser ouvida. Tem experiência na realização cinematográfica e no campo acadêmico do setor. “Temos bons professores, assim como pessoas que nunca entraram num set de filmagem, mas com a política do poder da coordenação de curso, é inevitável a panelinha, que nem sempre é formada pelos melhores”, explica ele. Na entrevista abaixo, Jaak fala sobre sua trajetória, cinema brasileiro, escolas de cinema e a “Poemagem”.

Como surgiu seu envolvimento com o cinema? Conte-nos um pouco de sua história.
Jaak Bosmans – Eu fui criado num ambiente artístico. Grandes nomes das artes frequentavam minha casa. Meu pai como compositor e maestro, e minha mãe administradora do Teatro Municipal, estavam sempre recebendo diversos artistas de todas as áreas. Eu gostava de estar sempre perto, participava de algumas conversas, mas tudo me parecia muito distante, uma vez que na escola e entre amigos da turma, meus comentários sobre os assuntos que me envolviam em casa, não criavam nenhum interesse ou participação.

Comecei meu estudo de piano clássico aos sete anos e após quase sete anos de estudos optei pela música popular, o jazz e o blues, tendo participado de várias bandas da época, e de alguns festivais, como compositor em parceria com o poeta Adão Ventura. Mas a engenharia e a medicina eram os cursos “nobres” da época e assim ingressei na Faculdade de Engenharia, ao mesmo tempo em que iniciei como câmera da extinta TV Itacolomi. Ali, foi meu primeiro contato com o “fazer” cinema, apesar de ser em fita magnética. Ingressei logo depois na Escola de Belas Artes da Guignard, onde adquiri uma boa formação, como diretor de arte, uma vez que, como artista plástico, fui um desastre. Tinha boas idéias, mas não conseguia dominar as técnicas. Comecei a escrever muito cedo, ainda com cinco anos já ditava algumas coisas para meus pais, e nos anos 60 entrei como colaborador do Suplemento Literário do Minas Gerais.

Atriz Luiza Tomé e Jaak na entrega do Prêmio Colunista

Havia acumulado muita experiência em quase todas as áreas das artes e tive como aplicar esses conhecimentos e experiências quando comecei, em 1972, a trabalhar numa grande agência de publicidade. Nela, fui assistente da área de produção de peças de rádio e televisão. Foi quando tive meu primeiro contato com película (16 mm PB). Logo passei a dirigir comerciais, passando para o Ektachrome 16 mm, depois o negativo 16 mm  e, em seguida, o 35 mm. Sentindo que na agência o trabalho era pouco diversificado, ingressei então numa produtora que atendia várias agências, com um volume maior e mais diversificado, atendendo não só ao filme publicitário, mas documentários e alguns curtas. E ainda com o privilégio de ser uma produtora de um do filhos de Humberto Mauro, com quem ainda tive alguns contatos. Havia então uma grande vontade de fazer cinema, e consegui uma vaga no curso de cinema da Agfa Gevaert, na Bélgica.

Após terminar meu curso fui convidado pelo diretor Marc Mopty  como assistente de um documentário, apresentado na Photokina, classificado como um dos dez melhores documentários da Europa em 1975. Aproveitei a estada e trabalhei também como assistente do fotógrafo de modas da famosa revista Burda, Frank Phillip. Ainda na Europa, trabalhei com Greta Déses, num documentário sobre a pintura flamenca. Estagiei na RTB, televisão belga, até o momento em que decidi voltar e fazer cinema aqui. Apesar de muito esforço e até mesmo passando por situações bastante difíceis, o país passava por um regime, onde a censura não nos permitia quase nada. Os custos de produção eram altíssimos, e assim, da Boca do Lixo, retornei à Belo Horizonte, onde voltei a me dedicar à publicidade, e com bastante êxito, apesar de me sentir muito frustrado em meu sonho maior.

Dirigi então alguns clipes, tendo um deles exibido na TV sueca e outro na Itália. E não deixei de participar também de muitas campanhas políticas, tanto em âmbito municipal como federal. Algumas muito bem sucedidas, outras não. Em 2002, convidado pela Unitri (Centro Universitário do Triângulo), em Uberlândia, entrei para o quadro docente daquela universidade, que criou o curso tecnológico de cinema, onde lecionei as matérias de direção, produção, roteiros, e interdisciplinares. Criei e implantei os laboratórios de cinema, jornalismo e publicidade. E ainda o sistema de TV interna interativa. Junto com a Drª. Profª de literatura Kênia Maria de Almeida, criei e coordenei o curso de especialização ”O cinema e a literatura na sala de aula”, como trabalho final dos alunos, a apresentação de um vídeo-poema. Ali começou a criação e conceituação da “Poemagem”, que venho realizando atualmente.

Paulo Gracindo e Jaak após gravação

Se tivesse que escolher um momento inesquecível de sua carreira, qual seria?
JB –
Difícil escolher, uma vez que, cada trabalho, tem seu momento inesquecível. Mas ter a oportunidade de dirigir (nem sei se cabe esse “dirigir”) Paulo Autran… Não tem como esquecer.

Você é professor de Cinema. Qual sua opinião sobre o cinema ensinado no Brasil? Há bons cursos superiores?
JB –
Temos bons professores, assim como pessoas que nunca entraram num set de filmagem, mas com a política do poder da coordenação de curso, é inevitável a “panelinha”, que nem sempre é formada pelos melhores. Outra dificuldade é o acesso aos laboratórios, uma vez que não adotam uma política de parcerias como em qualquer país, o que dificulta a aquisição e manutenção do pouco equipamento existente nos laboratórios. Cinema se faz. Não tem outra maneira de aprender. Conheço muitos formados em Cinema que nunca entraram numa ilha de edição, e muito menos conhecem película.

O curso de Cinema deveria só ser aberto com o consentimento do MEC, depois da instalação e inspeção de todos os equipamentos do laboratório, assim como da grade do curso com tempo determinado para o uso do laboratório por todos os alunos. E os pretendentes ao curso deveriam visitar os laboratórios e conhecer de perto não só o laboratório, mas saber da permissão e das aulas práticas a que terão acesso. Muitos mostram seus laboratórios, mas nunca são acessíveis aos alunos, ou seja, uma boa enganação.

Quando surgiu seu envolvimento com a poesia?
JB – Poesia é que nos envolve. E não podemos precisar esse momento. Podemos apenas manifestá-la num determinado momento, através de várias formas. Música, artes plásticas, literatura, dança, e toda manifestação onde há sempre a necessidade de uma nova proposta de absorver o belo. No meu caso a “poemagem”, criada em 2002, foi uma necessidade de atender à demanda de uma nova geração imagética, onde imagem e texto se completam. Um movimento bastante criticado (como tudo que é novo), mas que hoje conquistou seu espaço e vem sendo adotado por muitos poetas, artistas e web designers.

Vera Fisher

Qual sua opinião sobre o mercado cinematográfico brasileiro? Há incentivo de verdade? Quais as maiores dificuldades para criarmos uma indústria de cinema no país?
JB –
Uma só dificuldade! Não existe o produtor executivo. Aquele que vai fazer o cinema existir como negócio, não só arte, nem só diversão, mas indústria. Os poucos que conheço interferem de maneira a mudar todo o roteiro, às vezes querer dirigir (risos). Ou seja, um rico que “gosta de cinema”. Um cinema sazonal. Os incentivos existem, claro, mas nunca aparecem os resultados esperados. E aí responsabilizo os próprios produtores que, ou não administram bem, ou desviam boa parte (do dinheiro) para outros fins.

Como você relaciona cinema e poesia ou poesia e cinema?
JB –
É preciso lembrar que mais de 90% dos filmes são originados de obras literárias. No cinema a poesia é exatamente o olhar poético onde fotografia, cenários, sons, tudo contribui para a expressão. E a poesia cria todas as expressões no imaginário de cada leitor: o cenário, os sons, a luz, o que me parece mais interessante. Não impõe como no cinema, critérios e valores. O que sempre procurei passar a todos os meus alunos e assistentes é a importância do elemento “surpresa”. Este elemento pode se encontrar em qualquer fase do processo – luz, montagem (principalmente), ângulos, sons, e até mesmo a quebra de qualquer convenção (desde que seja uma quebra que faça sentido tanto estético como contextual).

Dos filmes recentes, há algum que tenha chamado sua atenção?
JB – Não. Muita mídia para pouco filme. Uma atenção especial, no entanto, para “Olga”, com direção do Jaime Monjardim a e inconfundível trilha do Marcus Vianna.

Cite seus cinco filmes preferidos de todos os tempos:
JB –
“Laranja Mecânica”, “Amacord”, “Em Cada Coração Uma Saudade” (que não encontro mais), “Blow Up” eO Baile”.

Projetos para o restante de 2010?
JB –
Muitos! Um deles em andamento que é o lançamento de um pacote de três CD-livros com poemagens. Palestras e oficinas sobre poemagem. Um documentário (em andamento) sobre bandas do interior. E escrever muito.

Fique à vontade para deixar um recado aos leitores do CineZen.
JB –
Eu agradeço a oportunida de de estar aqui com você. E espero não só ter respondido, mas acrescentado algumas novas visões a respeito do cinema e da literatura. Deixo meu contato para qualquer dúvida ou adendo ao assunto (desde que eu tenha informação a respeito). Abraço a todos e parabéns ao CineZen, na pessoa do André Azenha, por essa bela e importante iniciativa.

Fotos: Arquivo pessoal/Jaak Boosmans

Mais sobre o entrevistado: jaakbosmans.blig.ig.com.br

Contato: jaakbosmans@yahoo.com.br

Jaak apresenta seu filme "Mulheres Breves" no Sobre Mulheres - Festival de Cinema Feminino, Chapada dos Guimarães
André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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