Nova York, Eu Te Amo retrata com ternura a metrópole americana

Sou natural de Santos, mas todos os dias vou para São Paulo trabalhar, no bairro Itaim Bibi, centro empresarial repleto de prédios e ruas e calçadas lotadas. E São Paulo é o tipo de cidade que, por vezes, me assusta. O trânsito caótico, a pressa das pessoas, a violência em alguns pontos do município, a disparidade social, a desesperança e a solidão que, segundo alguns amigos, surgem após algum tempo morando na capital paulista. São exemplos de como uma megalópole pode nos engolir. Mas ao mesmo tempo, São Paulo também apaixona. Quem adentra a cidade descobre sua riqueza cultural, bairros charmosos, a diversidade de raças, cores, estilos, a presença de amor e amizade que parecem desaparecer quando olhamos São Paulo em sua totalidade. É um local intenso, para o bem e para o mal. Esses dois lados de São Paulo já apareceram juntos ou separadamente em algumas obras cinematográficas como “Não Por Acaso”, de Philippe Barcinski, “O Invasor”, de Beto Brant, “Linha de Passe”, de Walter Salles, entre tantos outros. São diretores que, de alguma forma, conseguiram ver beleza em meio ao caos.

Você deve estar se perguntando por que estou falando de São Paulo se esse texto avalia um filme sobre Nova York. Bom, eu nunca estive, infelizmente, na cidade americana. Mas imagino que, segundo livros, filmes, documentários e relatos de pessoas próximas, que a atual “capital do mundo” gere as mesmas sensações e sentimentos que a cidade brasileira. Talvez em doses maiores. O lado caótico de Nova York já foi mostrado inúmeras vezes no cinema – “Warriors – Selvagens da Noite”, de Walter Hill, “Táxi Driver – Motorista de Táxi” e “Gangues de Nova York”, ambos de Martin Scorses, “Wall Street – Poder e Cobiça”, de Oliver Stone etc. Talvez até porque seja mais fácil mostrar o que é ruim, do que tentar flagrar o belo entre os arranha-céus e as avenidas batizadas com números do município americano. Mas alguns cineastas buscaram outra direção em “Nova York, Eu Te Amo”, longa que reúne diversos arcos realizados por diretores diferentes, da mesma forma como aconteceu no inferior e irregular “Paris, Eu Te Amo” (2006).

São histórias de pessoas comuns, interpretadas com talento e entrega por atores como Bradley Cooper (“Se Beber, Não Case”), Natalie Portman (“Thor”), Orlando Bloom (“Tudo Acontece em Elizabethtown”), Christina Ricci, Ethan Hawke e muitos outros (alguns irreconhecíveis). E foram escolhidos cineastas igualmente capazes como Brett Ratner (“X-Men 3 – O Confronto Final”), Allen Hughes (“O Livro de Eli”) e Shekhar Kapur (“Elizabeth”). Este último é responsável pelo trecho mais triste do filme, escrito por Anthony Minghella, que morreu antes de poder dirigi-lo e a quem o longa é dedicado. Conta com Julie Christie, John Hurt e um estranho Shia LaBeouf (que ainda não convence como ator dramático) interpretando um deficiente físico. É o episódio que destoa do restante do filme, cujas histórias, de forma geral, misturam romance e comédia. São diferentes maneiras de amor e como o ser humano pode expressá-lo. Uma versão menos fantasiosa de “Simplesmente Amor” (que se passa na Inglaterra).

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Destaque para o encontro da judia Natalie Portman com um indiano no comércio de diamantes, que, apesar das culturas opostas e radicais, se entendem (este arco também foi o segundo trabalho de Portman como diretora – antes ela fez um curta-metragem em 2008 com Lauren Bacall e Ben Gazzara); o encontro de batedores de carteira (um deles Andy Garcia); o trecho dirigido por Brett Ratner, sobre um jovem que passa o dia com uma paralítica (Olivia Thirlby, a melhor amiga de Ellen Page em “Juno”); e aquele em que Chris Cooper escuta os devaneios de uma suposta desconhecida.

Enfim, são todas situações escritas e dirigidas com ternura e que mostram ser possível encontrar beleza onde ninguém mais vê. Acima de tudo, “Nova York, Eu Te Amo” nos diz que, em cidades como Nova York e São Paulo, ainda existe quem se apaixone, ame, emocione, enfim… tenha alma. Alma!

NOVA YORK, EU TE AMO
(New York, I Love You, EUA, 2009).
Direção: Jiang Wen, Mira Nair, Shunji Iwai, Yvan Attal, Brett Ratner, Allen Hughes, Shekhar Kapur, Natalie Portman, Fatih Akin, Joshua Marston, Randy Balsmeyer.
Roteiro: Fatih Akin, Yvan Attal, Allen Hughes, Shunji Iwai,Wen Jiang, Joshua Marston, Mira Nair, Brett Ratner, Randall Balsmeyer, Shekhar Kapur, Natalie Portman.
Elenco: Bradley Cooper, Shia LaBeouf, Natalie Portman, Orlando Bloom, John Hurt, Christina Ricci, Ethan Hawke, Robin Wright Penn, Andy Garcia, Chris Cooper, Blake Lively, Justin Bartha, Julie Christie etc.
Drama / Romance.
103 min.

Estreia nos cinemas brasileiros: 18/12/2009.

Lançamento em home vídeo: 20 e 21/07/2010.

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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