Tim Burton faz, em Alice, fantasia tradicional de visual fascinante

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA , 2010). Direção: Tim Burton. Roteiro: Linda Wolverton. Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham-Carter, Crispin Glover, Anne Hathaway, Alan Rickman, Stephen Fry, Michael Sheen, Timothy Spall. Fantasia / Aventura. 108 min.

Após virar a maior bilheteria fora do período de férias nos EUA, consolidar a moda 3D e dividir a crítica estrangeira, a versão de Tim Burton (“A Noiva Cadáver”, “Sweeney Todd”) para a clássica obra literária de Lewis Carroll, já adaptada tantas vezes para tantas mídias, inclusive o cinema (mais de 30 vezes!), chega ao Brasil mais de um mês após ter estreado lá fora.

Nesse tempo, cópias piratas foram comercializadas, o trailer foi exibido à exaustão e toda aquela expectativa gerada ano passado com a possibilidade de conferirmos uma versão gótica/dark – especialidade de Burton – da jornada de Alice murchou um pouco.

Pois bem. “Alice no País das Maravilhas” estreou e a crítica brasileira recebeu o longa com certa frieza. Parte dela alega que o cineasta parece ter se acomodado e buscou sustentar-se no que deu certo em seus outros filmes: novamente trabalhou com parceiros de longa data como a esposa e atriz Helena Bonhan-Carter, o astro Johnny Depp, o compositor Danny Elfman, mergulhou o elenco em maquiagens brancas, investiu numa competente direção de arte, e claro, outra história fantasiosa.

Mas e o visual gótico? Apesar de lindo, o visual do novo filme de Burton soa conservador se comparado às suas obras anteriores. Talvez porque a Disney seja a responsável pelo projeto. Talvez porque ele tentou se afastar da alcunha de cineasta gótico, obscuro. Burton optou por abrandar-se na hora de realizar o filme? Ou decidiu fugir à sua marca registrada, e assim, conceber algo diferente para o “padrão Burton”? Depende do ponto de vista e não vamos perder tempo com discussões filosóficas sobre as intenções do cineasta. O que importa é: o longa é bom ou não?

“Alice”, o filme, não é uma transposição total do livro para o cinema. É como se fosse uma continuação. E traz a protagonista já moça, prestes a se casar com um aristocrata mala. E é um pouco antes de responder ao pedido de casamento, feito diante de dezenas de pessoas convidadas para a festa “surpresa”, que Alice (Mia Wasikowska) vê um coelhinho, decide segui-lo, se enfia de cabeça num buraco e vai parar no País das Maravilhas.

Quando chega ao mundo fantástico, não se lembra que já esteve lá muitos anos antes e passa por uma série de aventuras, que mesclam fatos da história original, com o estica e diminui (e quem leu o livro saberá o que estou falando), com situações que remetem a “Alice Através do Espelho”, segundo livro de Carroll com a personagem, e outros acontecimentos inerentes à imaginação de Burton.

A trama tem seus momentos engraçados, mas empaca, em muitas vezes, pela apatia da protagonista. A australiana Mia Wasikowska, de 19 anos, até se esforça, mas parece estar com anemia a maior parte do tempo. Um pouco porque lhe falta carisma, mais a maquiagem que ajuda a deixá-la com cara de anêmica. E um (a) protagonista sem carisma – ainda mais numa história que, para funcionar, deve contar com a nossa torcida por ele (a) -, seria meio caminho para o fracasso de qualquer filme.

No caso de “Alice” só não o é porque há Johnny Depp e Helena Bonham-Carter, aqueles velhos parceiros de Burton, que roubam a cena sempre que aparecem. Ele como o Chapeleiro Maluco – que tem mais destaque no filme do que no livro. Ela como a cabeçuda Rainha Vermelha. No bom elenco, quem assistir à versão legendada ainda poderá sacar as vozes de Stephen Fry e Alan Rickman, que dublam respectivamente o Gato Cheshire e a lagarta Absolem.

Também há a sempre linda Anne Hathaway na pele da Rainha Branca, que infelizmente tem pouco tempo em cena, e Crispin Glover, lembram dele? O George Mcfly de “De Volta para o Futuro”. Aqui, ele volta a interpretar um vilão (o Valete) numa fábula baseada em literatura – foi ele quem viveu o monstro Grendel em “A Lenda de Beowulf”.

Contam a favor ainda a excelente direção de arte e a trilha sonora de Elfman, outro parceiro das antigas do diretor.

“Alice no País das Maravilhas” pode decepcionar quem sempre aguarda algo inovador de Burton, mas está longe de ser um filme ruim. Não está no panteão dos melhores longas do diretor, como “Edward Mãos de Tesoura” e “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, mas não deixa de ser, ainda que de maneira camuflada, um trabalho autoral, que mexe em solo sagrado – quem mais se arriscaria a transformar o enredo de uma das histórias mais famosas do mundo? Mesmo que essa transformação tente dar sentido a uma história cuja mágica sempre foi não ter sentido. E mesmo que essa transformação traga um diretor acostumado a realizar obras um tanto obscuras para o lado da clássica aventura juvenil. Não é a adaptação cinematográfica definitiva do livro, mas entre defeitos e qualidades, merece uma chance, e em 3D.

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Veja mais imagens do filme.

Lançamento nos cinemas brasileiros: 23/04/2010.

Lançamento em DVD e Blu-ray no Brasil: Julho/2010.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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