Preciosa é um dos grandes filmes dos últimos anos


Quando você achar que sua vida está uma merda porque a pessoa amada terminou a relação, o ambiente no trabalho não é como você gostaria que fosse, ou não há dinheiro para a baladinha de final de semana, assista “Preciosa – Uma História de Esperança” e baixe a bola. Sua vida é um paraíso perto dos problemas enfrentados por Claireece Preciosa Jones (Gabourey Sidibe), ou simplesmente, Preciosa (Precious).

Preciosa é negra, obesa (fatores que não deveriam ter maiores consequências, mas que a fazem enfrentar o preconceito que ainda há na sociedade), e espera o segundo filho de seu próprio pai. Não bastasse sofrer abusos sexuais por aquele que devia amá-la, protegê-la e educá-la, ela também é vítima de ofensas e agressões da mãe (Mo’Nique), e não sabe ler nem escrever.

A princípio, a trama pode parecer uma daquelas excessivamente melodramáticas utilizadas em telefilmes norte-americanos para mostrar certas realidades daquele país. Mas não há nada de melodrama aqui. O que o diretor Lee Daniels (de “Matadores de Aluguel” com Helen Mirren e Cuba Gooding Jr., que saiu direto em DVD no Brasil) concebeu foi uma história pungente, triste, mas que pode servir de alento para quem vive dramas parecidos – daí o subtítulo brasileiro “Uma História de Esperança”.

Baseado no livro “Push” (cujo título foi modificado na adaptação cinematográfica para não haver confusão com o filme de ação contemporâneo homônimo), que o próprio Daniels leu, “Preciosa”, o filme, apesar de não ser uma história inspirada em alguém verídico, representa a situação de tantas meninas ao redor do mundo. Não é um filme de fácil digestão, mas é uma situação que precisava ser contada. E quem der chance ao longa-metragem dificilmente ficará indiferente.


Produzida por duas celebridades da televisão americana, Oprah Winfrey e Tyler, trata-se de uma obra visceral, filmada com câmera na mão (exceto os sonhos da protagonista, rodados de forma clássica), intensificando a proximidade com a realidade e calcado principalmente nas atuações memoráveis da novata Gabourey “Gabbie” Sidibe e da comediante Mo’Nique, que interpreta Mary, a mãe da protagonista.

Mo’Nique, por sinal, dá vida a uma das personagens mais execráveis e desprezíveis da história do cinema. A vontade que eu tive foi de pular no pescoço dela a cada agressão física ou verbal propagada contra a própria filha ou a neta com síndrome de down, batizada simplesmente de Mongo.

Não satisfeita em humilhar Preciosa, Mary aproveita o auxílio desemprego e a pensão que deveriam ser utilizados em favor de sua filha e da neta, para usar essa “ajuda” em benefício (se é que pode ser considerado algo benéfico) próprio: passar os dias sentada, em frente à televisão, comendo feito porca, e criticando quem tirar o seu “sossego”. A forma como Mo’Nique se entrega ao papel é tamanha que ela venceu os principais prêmios do ano, incluindo o do Sindicato dos Atores, o Globo de Ouro e o Oscar de atriz coadjuvante.

Sidibe não fica atrás. Estreando no cinema e já faturando uma indicação à premiação da Academia, a atriz precisou dar vida a uma personagem quase 10 anos mais nova que sua idade real (ela tinha 26 anos no lançamento do longa, enquanto Preciosa tem 18 no filme) e encarna com perfeição um menina, que, para se proteger do mundo exterior, mantém a cara fechada, não troca olhares com ninguém, tentando parecer invisível. Para escapar um pouco da realidade, vez ou outra Preciosa sonha que é bem sucedida artisticamente e que tem um namorado branco.

Os atores coadjuvantes também têm boas atuações. Começando por Paula Patton, como a professora Blu Rain, que surge na vida de Preciosa quando esta última vai parar nunca escola “alternativa”, por estar grávida novamente. Blu Rain, com muita paciência, não apenas ensina Precious e suas amigas a ler e escrever, mas a encarar a vida por outra perspectiva. E cada olhar e expressão de Patton transmite o envolvimento da professora com a vida dessas meninas. Fica subentendido que Blu Rain é homossexual, o que a torna um alvo de discriminação tanto quanto suas alunas.


Também se destacam as presenças da cantora Mariah Carey e do músico Lenny Kravitz, totalmente despidos de qualquer glamour. A primeira, como uma atendente do serviço social, e o segundo como um assistente de enfermagem que vira amigo da personagem principal.

Revelado no Festival de Sundance, a Meca do cinema independente mundial, onde foi premiado em três categorias, “Preciosa – Uma História de Esperança” recebeu mais de 70 prêmios ao redor do mundo e mereceu suas seis indicações ao Oscar para Filme, Direção, Atriz, Montagem, Atriz coadjuvante e Roteiro adaptado – venceu nessas duas últimas categorias.

É um filme forte. Mas se puder, encare esta empreitada e se emocione. Você estará à frente de uma obra que pode parecer sobre determinada raça ou classe social, mas se vista sem pré-conceitos, é um tratado sensível e universal sobre a força da mulher, diferenças, tolerância, amor, respeito, amizade e sim, esperança – fatores com os quais convivemos diariamente sem ás vezes nos darmos conta. É um longa-metragem direto, reto, enxuto, um dos grandes trabalhos cinematográficos dos últimos anos.

PRECIOSA – UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA
(Precious: Based on the Book “Push” by Sapphire, EUA, 2009).
Direção: Lee Daniels.
Roteiro: Damien Paul.
Elenco: Gabourey “Gabbie” Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Lenny Kravitz, Mariah Carey, Sherri Shepherd.
Drama.
110 min.
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Estreia nos cinemas brasileiros: 12/02/2010.

Disponível em DVD.

Principais prêmios e indicações:

– Oscar: Roteiro adaptado, Atriz coadjuvante (Mo’Nique).
– Indicação ao Oscar: Filme, Direção, Atriz, Montagem.
– BAFTA: Atriz coadjuvante (Mo”Nique).
– Globo de Ouro: Atriz coadjuvante (Mo”Nique).
– Indicação ao Globo de Ouro: Filme dramático, Atriz em drama (Gabourey “Gabbie” Sidibe).
– Independent Spirit Awards: Filme, Diretor, Primeiro roteiro, Atriz (Gabourey “Gabbie” Sidibe), Atriz coadjuvante (Mo”Nique).
– Crítica de Londres: Atriz do ano (Mo”Nique).
– Crítica de Los Angeles: Atriz coadjuvante (Mo”Nique).
– Crítica de Nova York: Atriz coadjuvante (Mo”Nique).
– Sindicato dos Atores (SAG): Atriz coadjuvante (Mo”Nique).
– Festival de Sundance: Audiência, Grande júri, Júri especial.
– Festival de Toronto: Prêmio do público.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

One thought on “Preciosa é um dos grandes filmes dos últimos anos

  1. Discordo de você em dizer que é uma história triste, acho que tem partes triste, ja que a jovem acabou completamente erguida, com seus rebentos, com sua dignidade inabalável e com todos os pontos nos is colocados no local certo.

    É de fato um grande filme dos anos 00… não me toquei com a participação do Kravitz no papel do enfermeiro.

    Grande filme MESMO!

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