Nine reúne diretor de Chicago e atores consagrados para celebrar Fellini

nine_posterpequenoNine (Idem, EUA, 2009). Direção: Rob Marshall. Roteiro: Michael Tolkin, Anthony Minghella. Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren, Stacy Ferguson (Fergie), Ricky Tognazzi. Musical. 118 min. (Cor).

Antes de “Nine” entrar em cartaz nos EUA, no final do ano passado, era esperado com grande expectativa por parte da crítica e considerado presença entre os indicados para as principais premiações do cinema em 2010.

Afinal, tratava-se de um musical dirigido por um especialista no gênero, Rob Marshall, do musical “Chicago”, vencedor de seis estatuetas do Oscar, possuía uma trama inspirada num dos grandes clássicos do cinema, “Oito e Meio”, de Fellini (1920-1993), e um elenco espetacular, recheado de atores ganhadores do Oscar: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman e Judi Dench.

Semanas mais tarde, mesmo com as cinco indicações que recebeu no Globo de Ouro, o filme é considerado um fracasso de público e foi recebido com frieza por grande parte da crítica brasileira. Mas “Nine” é ruim? Não. Está longe de ser um longa fraco. O problema está em sua origem.

“Oito e Meio” é um espetáculo na acepção da palavra. Sua história retratava a jornada de Guido (Marcello Mastroianni), um cineasta considerado genial que, pouco antes do início das filmagens de seu próximo filme, não tem a menor ideia de como será o roteiro. Ao ser pressionado pelo seu produtor, a esposa, a amante, entre outros de seu círculo pessoal, mergulha numa crise e passa a misturar realizada e ficção. Com cenas inesquecíveis, o longa fez parte de um tipo de cinema considerado o melhor do mundo  e capturou a essência daquele período.

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Sua marca na história das artes cênicas foi tanta que acabou gerando um musical da Broadway bastante (inferior, segundo gente especializada que o conferiu), estrelado por Raul Julia e que depois ganharia uma remontagem protagonizada por Antonio Banderas.

“Nine”, cujo nome nada tem a ver com o fato de ser o nono filme na carreira do personagem principal, mas sim uma referência à idade do menino Guido, que jamais teria amadurecido (e algumas cenas abordam essa questão de forma competente), é a versão cinematográfica do musical que foi inspirado em “Oito e Meio”. Ou seja, é a reciclagem da reciclagem de algo genial. E convenhamos. Obras geniais  não precisam ser remexidas.

Dessa vez, quem encarna Guido é o britânico e excelente Daniel Day-Lewis, que ao não saber o que escreverá para “Italia”, o filme prestes a ser rodado, precisa lidar com sua amante Carla (Penélope Cruz, que aparece cada vez mais linda e sexy a cada aparição no cinema), a esposa Luisa (Marion Cotillard), Claudia (Nicole Kidman), estrela de seus últimos filmes, a jornalista Stephanie (Kate Hudson), uma prostituta (Fergie, a cantora do Black Eyed Peas) e o fantasma de sua mãe, interpretada por Sophia Loren.

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Alguns fatores realmente jogam contra o filme. Marshall decidiu repetir o que fez em “Chicago” – deixar os números musicais para momentos de delírios ou imaginação de seus personagens -, o que serviu tão bem naquela produção. Mas aqui essa maneira de incluir as músicas na trama soa esquisita, deslocada.

A estória em si é bastante italiana, e por mais que os atores sejam excelentes, é bem estranho ver os personagens conversando em inglês, e cada um com sotaque diferente.

Já o cenário para as canções fica praticamente restrito ao lendário do estúdio Cinecittá, onde Fellini realmente rodava suas produções.

Do time de atores, há quase nada para reclamar. Todos são grandes profissionais. Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Judi Dench, como de costume, saem-se muito bem. Kate Hudson pouco tem a fazer, mas esbanja sexualidade na canção “Cinema Italiano”, a mais agitada de todas, mas que tem letra bobinha. E somente Nicole Kidman e Sophia Loren (a única estrela italiana do elenco) nos frustram quando percebemos que o botox detonou a primeira, e a idade deixou a segunda com a face paralisada.

Se não é uma obra-prima, “Nine” é um filme tecnicamente bem realizado, com roteiro correto (co-escrito por Anthony Minghella  – Oscar de Direção por “O Paciente Inglês” -, que faleceu em 2008 antes de ver seu texto ganhar vida), belas cenas e que pode agradar quem gosta de musicais. Mesmo porque aquele espectador que não é cinéfilo, e vai à sala de projeção apenas para se entreter, dificilmente fará a comparação que a crítica tem feito: avaliá-lo tendo em vista o clássico de Fellini. “Nine” se apequena quando comparado a “Oito e Meio”, mas cresce vertiginosamente posto lado a lado com musicais realizados recentemente. Federico Fellini foi um gênio. Rob Marshall é um bom diretor. E apesar de não parecer, essa distância é imensa.

7,5

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Veja mais imagens do filme.

Lançamento nos cinemas brasileiros: 29/01/2010.

Lançamento em DVD para locação e venda no Brasil: Maio/2010.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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