Avatar revolucionou o mercado


Foram quase 15 anos necessários para conceber o projeto. E a espera valeu à pena. “Avatar”, primeiro filme dirigido por James Cameron desde o ultra hiper super sucesso “Titanic”, vencedor de 11 estatuetas no Oscar, é um espetáculo visual sem precedentes. Um passo a frente em relação a tudo o que tem sido feito via computação gráfica no cinema. É um filme para ser visto e curtido mais de uma vez.

Assim como outros trabalhos tecnicamente revolucionários do cineasta – e a lista é grande: “Exterminador do Futuro 1” e “2”, “Aliens, O Resgate”, “O Segredo do Abismo”, “True Lies”, o próprio “Titanic” – sua nova obra tem um roteiro simples, que lembra bastante a trama de “Dança com Lobos”: alguém que aprende a viver numa sociedade diferente e acaba defendendo a nova “família” contra a barbárie. No caso, em 1990, Kevin Costner era o homem branco que se aproximou dos índios apaches. Já em 2009, Sam Worthington foi o humano inserido numa comunidade alienígena nativa.

A trama de “Avatar” se passa no futuro, em 2156. O ser humano virou colonizador numa lua distante chamada Pandora, onde há um mineral valiosíssimo (um quilo vale US$ 20 bilhões!) capaz de ressuscitar nosso planeta, destruído por sua própria sociedade.

Sam Worthington vive um paralítico, ex-fuzileiro, que aceita fazer parte desse programa de colonização no lugar do irmão gêmeo falecido. Ele comandará, por meio de sensores neurológicos, o corpo artificialmente de um avatar, ser desenvolvido a partir do DNA humano junto com o de um Na’vi, espécie alienígena que vive naquele ambiente venenoso aos terráqueos. O objetivo da missão: se aproximar da população nativa, aprender seus costumes e depois convencê-la a deixar suas terras. Caso contrário, haverá guerra.

Apesar do roteiro repleto de clichês e que remete a tantas outras produções (além de “Dança com Lobos”, temos a mente que guia um outro corpo, cortesia de “Matrix”), Cameron caprichou tanto nos detalhes visuais que fica impossível não mergulhar na trama. Além disso, o enredo tem a capacidade de nos fazer envolver com sua mensagem ambientalista. Nada mais oportuno numa época em que o ser humano castiga cada vez mais seu próprio habitat.

Em “Avatar”, os Na’vi possuem uma ligação profunda com a natureza. Toda a existência de Pandora está ligada, como se fosse um sistema de rede, uma network. É um universo selvagem, natural, mas que funciona como as últimas tecnologias da informática.

O poder dessa mensagem é tamanho, que nos pegamos torcendo contra nossa própria espécie. No filme, os heróis são os alienígenas. Algo corajoso até, se pensarmos que em tantas outras produções (inclusive em outro blockbuster do mesmo ano, “Star Trek”) são os aliens que visam dominar o universo.

Aqui não. Os seres humanos (exceto alguns da trama) é que pretendem conseguir, não importa como, o tal mineral precioso. Mesmo que seja necessário extinguir uma sociedade inteira que vive de forma pacífica.

É mais empolgante ainda quando percebemos que até os marines americanos, retratados sempre como heróis em filmes de guerra, são derrotados. “Avatar” surgiu também para romper mitos do cinema.

Mas nada disso adiantaria se tecnicamente o longa não fosse impecável. E Cameron, mais do que ninguém, sabe como empregar a tecnologia em favor da arte. Sim. Apesar de ser uma produção “arrasa quarteirão” e megalomaníaca, “Avatar” é o oposto de filmes como “2012”. É um ambiente maravilhoso, que utiliza efeitos especiais em favor de uma história.

Cada detalhe da fauna e da flora de Pandora soa extremamente real. É como se estivéssemos presenciando realmente um outro mundo. E belo.

Já os Na-vi (que têm a pele azul e lembram muito criaturas de um gibi dos anos 80, “Timespirits”) possuem algo que outros filmes feitos por CGI (como “O Expresso Polar” e “A Lenda de Beowulf”) não conseguiram. Seus olhos demonstram vida. São verossímeis. Para isso contou também as boas interpretações de Sam Worthington, Zoe Saldana e Sigourney Weaver, que aparecem nas duas formas, interpretando de verdade, e emprestando suas feições e expressões às figuras alienígenas (destaca-se também o vilão encarnado por Stephen Lang).

Para chegar a esse resultado impressionante, Cameron (eleito para a Calçada da Fama de Hollywood na época) criou uma tecnologia inovadora, que fez cada ator usar um equipamento especial na cabeça, semelhante ao capacete do futebol americano, permitindo a captura de movimento com clareza e precisão inéditas, seis vezes maior que o poder de captação usado anteriormente no cinema.

Outra inovação criada para o longa foi a Câmera Virtual, que possibilitou ao diretor filmar cenas dentro de seu mundo gerado pelo computador, como se estivesse em um estúdio de Hollywood.

E “Avatar” é uma obra magnífica. O resultado preciso de quando arte e produto comercial se cruzam. Um novo marco na história da sétima arte realizado por James Cameron, que mantém sua carreira regular e admirável e superou seu próprio recorde. Até então, “Titanic” detinha a maior bilheteria da história. “Avatar” não somente tomou o posto, como faturou mais de US$ 2 bilhões e também virou o filme mais assistido no Brasil. O sucesso do longa no país trouxe Cameron para um evento ambientalista na Amazônia e, depois, à São Paulo para divulgar o lançamento do DVD do filme.

Era o grande favorito do Oscar 2010, mas foi injustamente preterido nas principais categorias. Os “sábios” da Academia decidiram consagrar o bom (mas inferior) “Guerra ao Terror”, um filme que pouca gente viu, mas que mostra soldados americanos como heróis. Já pensou se elegessem o melhor filme do ano uma trama em que os ianques são os vilões? Mas o valor de “Avatar” para a história do cinema jamais será ignorado.

AVATAR
(Idem, EUA, 2009).
Direção e roteiro: James Cameron.
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi.
Ficção científica / Fantasia / Ação / Romance / Drama.
162 min.

Estreia nos cinemas brasileiros: 18/12/2009.

Relançamento nos cinemas brasileiros: 15/10/2010.

Lançamento em DVD e Blu-ray: Abril/2010.

Principais prêmios e indicações:

– Oscar: Direção de arte, Fotografia, Efeitos visuais.
– Indicação ao Oscar: Filme, Diretor, Montagem, Trilha sonora, Som, Edição de som.
– BAFTA: Efeitos visuais, Direção de arte.
– Indicação ao BAFTA: Filme, Diretor, Fotografia, Montagem, Trilha sonora, Som.
– Empire Awards: Filme, Diretor, Atriz (Zoe Saldana).
– Globo de Ouro: Filme dramático, Diretor.
– Indicação ao Globo de Ouro: Trilha Sonora, Canção (“I See You”).

GALERIA

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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