HQ do Capitão América causa polêmica política nos EUA
A edição 602 do gibi “Captain America”, publicada esta semana nos EUA, rendeu algumas dores de cabeça à Marvel. Uma cena mostra o personagem-título e Falcão observando um protesto nas ruas de uma cidade do país, onde um dos cartazes usa a frase “Tea Bag The Libs Before They Tea Bag You”.
A frase, quase intraduzível, refere-se tanto a uma prática sexual – teabagging, colocar ou bater repetidamente com o saco escrotal na cabeça ou boca de uma pessoa – como a um evento da história dos EUA, a Boston Tea Party, revolta que ocorreu na época colonial daquele país, no século XVIII, na qual quilos de chá inglês foram jogados no mar em forma de protesto contra a exploração realizada pela então colonizadora Inglaterra.
Em 2009, um movimento chamado Tea Party fez protestos em cidades norte-americanas contra o aumento de impostos e principalmente contra o programa do governo Obama (os “Libs”, liberais) de apoio em dinheiro às grandes corporações em processo de falência, como os bancos e as montadores de automóveis.
A página da edição 602 chegou ao site da “FoxNews”, integrante da mídia conservadora (anti-liberais) dos EUA, que entendeu a cena como uma crítica da Marvel ao movimento Tea Party. Herb London, especialista político do Hudson Institute, entende a cena como “uma tentativa clara de minar o movimento Tea Party”.
Em outro site, o “Publius Forum”, o colunista Warner Todd Huston também criticou a publicação: “Não é fantástico que um herói dos quadrinhos com décadas de idade agora esteja sendo utilizado para levar os leitores contra nosso próprio sistema político, para difamar gente que defende os princípios americanos reais na vida real – ainda mais um herói chamado ‘Capitão América’?”.
A “Fox News” foi atrás de mais informações sobre o escritor da série, Ed Brubaker, e localizou no Twitter dele críticas contra a direita norte-americana – como ataques à ex-candidata a vice-presidente Sarah Palin. O autor, ao ser entrevistado, diz que a intenção da cena era “mostrar o clima no país em vários lugares fora do lar usual do Capitão América e do Falcão, Nova York”. Brubaker também afirmou que não escreveu a tal frase polêmica.
Joe Quesada, editor-chefe da Marvel, explicou que a frase no gibi foi um erro de produção, resultado da pressa do fechamento da edição. A página chegou ao letreirista com os cartazes em branco, Como precisava fechar a página rapidamente, ele buscou referências na Internet e encontrou a frase do movimento “Tea Bag”, e a utilizou sem ter noção de seu significado político.
“Sempre deixei bem claro para nosso grupo editorial e nossos criadores ao longo dos anos: nossas séries não são palanques. Sempre fiz questão de nunca expressar publicamente minhas crenças políticas e acho que não me cabe fazer isso usando a Marvel como púlpito. Nossos leitores têm vários pesos e medidas, e precisamos respeitar este fato”, escreveu Quesada ao “Comic Book Resources”.
“Sim, temos personagens com alguns atributos que fazem parte de suas personalidades, como crenças políticas e afiliações religiosas, mas tentamos lidar com estes com o maior cuidado possível, e, quando mostramos apenas um lado da moeda, encorajo meus editores e criadores a mostrar equilibridamente o outro lado. Sempre temos sucesso? Não, às vezes as coisas passam. É o que acontece quando produzimos 80 títulos por mês”, continua o editor-chefe.
Quesada admite que é um erro editorial grave, pelo qual ele se responsabiliza. E adianta que em qualquer reimpressão da edição (em coletâneas, principalmente), a frase será substituída. “Captain America #602”, da forma que chegou às bandas na semana passada, acaba de virar raridade – a edição está sendo vendida a mais de US$ 15 no “eBay” (o preço de capa é US$ 3,99) – embora alguns, como forma de crítica, a comercializem por US$ 0,99.