Bastardos Inglórios recria desfecho da 2ª Guerra com inteligência

Com ótimos diálogos, excelente elenco vencedor do SAG, trama de duas horas e meia de Quentin Tarantino prende a atenção do público até o fim
Por André Azenha, editor (03/02/2010) // 6 comentários

bastardosBastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA / Alemanha, 2009). Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Gedeon Burkhard, Jacky Ido, B.J. Novak, Omar Doom, August Diehl, Denis Menochet. Guerra. 153 min. (Cor).

Quantas vezes você deixa uma sala de cinema realmente feliz pelo que acabou de assistir? Comigo, nos últimos tempos, a sensação de euforia, de ficar entusiasmado, tem sido rara. Ano passado, lembro-me de ter me sentido assim quando acabara de conferir “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Em 2009, até o dia 10 de outubro, uma sexta-feira, nada parecido havia rolado. Até conferir o novo filme de Quentin Tarantino, “Bastardos Inglórios”, que estreou mundialmente em Cannes.

Dizer que Tarantino é foda é clichê. Assim como também virou clichê escrever que ele é mestre em pegar a arte dos outros, misturar tudo e criar algo novo. Ou melhor, não é novo. Mas é algo com a cara dele. É legal, “cool” diriam os “antenados”. É passatempo divertido, mas também é cinema autoral dos bons.

E quando a gente achava que o diretor, roteirista, produtor e ator já havia alcançado tudo o que podia enquanto autor no cinema (sim, autor), eis que ele surpreende a platéia cinéfila novamente ao dar novo fôlego para um tema usado á exaustão na sétima arte: a Segunda Guerra Mundial. Fora isso, o filme consegue outra proeza. Apesar de longo, com mais de duas horas e meia de duração, prende a atenção do espectador até o fim.

Um grupo de judeus americanos é recrutado pelo sargento Aldo Raine (Brad Pitt) com o intuito de levar pavor aos nazistas. Não basta fazer o inimigo prisioneiro. O lema do seleto grupo, batizado de Os Bastardos, é capturar membros da horda de Hitler e matá-los com requintes de crueldade. Enquanto isso, nós conhecemos a trajetória da judia Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), que teve sua família chacinada por soldados da SS e encontrou refúgio em Paris, onde se tornou dona de um cinema.

inglorious_2Essas duas trajetórias terão o mesmo destino: o lançamento de um longa alemão que mostra um nazista matando americanos (esse filme dentro do filme foi dirigido por Eli Roth, diretor de “O Albergue” e que aqui interpreta o “Urso Judeu”, cuja arma para dar cabo dos inimigos é um taco de baseball!), e que irá acontecer no cinema de Shosanna. Ela planeja vingar-se incendiando o próprio estabelecimento, e consequentemente queimando o alto escalão do governo nazista. Já os Bastardos pretendem se infiltrar na festa e explodir o local.

“Bastardos Inglórios” traz elementos de outras obras do diretor (exceção ao roteiro em ordem cronológica, diferente dos trabalhos anteriores, que misturavam passado e presente). Assim como em “Kill Bill”, tem a trama dividida em capítulos, mostra lâminas decepando o couro cabeludo tal qual fez Uma Thurman fez com Lucy Liu naquele filme, e repete a trilha sonora que reverencia os velhos faroestes de Sergio Leone. A violência exagerada, por sinal, está novamente presente. Há tiroteio generalizado como em “Cães de Aluguel” e tortura num cômodo pequeno como em “Pulp Fiction”.

Outra marca registrada do cineasta, os ótimos diálogos, novamente dá as caras. Dessa vez com menos referências pop, já que se trata de uma história de época. Tudo a favor de uma trama ágil, que fará muita gente vibrar, e até se sentir vingado, pelo que os nazistas fizeram a milhões de pessoas naquele período.

Mas para não soar meramente vingativo, o diretor consegue também embutir uma crítica ao público, que sorri com as mortes dos oficiais alemães, mas se indigna na cena em que o alto escalão nazista comemora ao ver, no longa já citado, um herói de guerra deles fuzilando soldados dos EUA. Será que só do lado aliado havia gente inocente? Todos nós temos tendência a estereotipar culturas diferentes é o recado.

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Colabora para o êxito da obra o excelente elenco vencedo do principal prêmio do Sindicato dos Atores. Brad Pitt, além de servir para atrair o grande público (a filmografia de Tarantino não possui lá graaaandes bilheterias), se diverte como o oficial do interior, de sotaque carregado, mostrando versatilidade após uma sequencia de interpretações completamente diferentes, como em “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “Queime Depois de Ler”.

As belas Diane Kruger (a Helena de “Tróia”) e Mélanie Laurent (que esteve em “Paris”) mergulham fundo em suas respectivas personagens. A primeira, uma famosa atriz alemã que também é agente dupla. A segunda, a judia que busca vingança e precisa conter-se quando é cortejada por um herói nazista (Daniel Brühl), quase como a vida da protagonista de “A Espiã“. O expressivo ator germânico August Diehl, que no excelente “Os Falsários” interpretou um judeu, novamente está expressivo dessa vez ao estar do outro lado, na pele de um oficial SS.

Mas de todos, é Christoph Waltz que merece os maiores elogios. Sua encarnação do coronel nazista Hans Landa, famoso por conseguir encontrar judeus nos mais difíceis esconderijos, é espetacular.  Ele rouba a cena sempre que aparece, consegue mudar de feição com naturalidade, da cordialidade à brutalidade, e chega a falar alemão, inglês e italiano com fluência. Não à toa que venceu foi eleito o melhor ator em Cannes em 2009 e venceu o SAG, Globo de Ouro e tem tudo para faturar o Oscar da categoria.

Imagem de Amostra do You Tube

Pois é. Com um roteiro inteligente, que diverte, mas não brinca com a inteligência do espectador, bons atores, bela trilha musical e cenários magníficos, Tarantino acertou outra vez.

Há quem possa reclamar da forma caricata como os personagens foram desenvolvidos. Mas esse foi o intuito. Reduzir cada um deles à sua essência. O sulista americano (Pitt), a francesa requintada (Laurent), os nazistas brucutus… Pois “Bastardos Inglórios” não tem a pretensão de ser um retrato da história, como “Operação Valquíria”. É provocação do início ao fim.

Por isso temos até David Bowie na trilha musical. Se Sofia Coppola inseriu um All Star no século XVI em “Maria Antonieta”, e foi elogiada por isso, porque Tarantino não teria o direito de colocar uma canção criada décadas mais tarde pra trazer determinada cena, passada nos anos 40, para os dias atuais? Ele fez um de seus melhores trabalhos, um tremendo êxito após o quase despercebido “À Prova de Morte” e estreou levando multidões aos cinemas americanos. É cinema de clichês, sim. Mas é foda. Só uma certa cena no ato final, durante a exibição do filme nazista, já vale a conferida. A gente termina o filme com um sorriso gigantesco na face e com uma certeza: Tarantino é do caralho.

PS: “Bastardos Inglórios” teve oito indicações ao Oscar, inclusive para Melhor Filme e Melhor Diretor, superando o recorde anterior de Tarantino, que era de “Pulp Fiction”, com sete.

10,0

Lançamento em DVD.

Configurações do DVD: Menu interativo; Seleção de cenas; Formato de Tela: Widescreen; Áudio: Inglês e Português (ambos 5.1 Dolby Digital); Legendas: Espanhol, Inglês, Português, Japonês, Chinês, Coreano, Cantonês, Indonésio.

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Confira mais imagens do filme (aqui).

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André Azenha é jornalista, editor dos sites CineZen e CulturalMente Santista, autor do livro Poesia a Quatro Mãos, feito em parceria com sua mãe, a poetisa Regina Azenha. Trabalhou com o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, escreveu para a revista Época São Paulo e colabora com veículos de imprensa de vários estados. Em 2011, mediou o ciclo Documentários Comentados, no SESC Santos. É assessor de imprensa e realiza encontros culturais, a maior parte de caráter beneficente.


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6 Comentários
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  1. O Tarantino sempre aparece nos filmes dele, mas neste, ele não apareceu. Será que eu perdi alguma coisa? Ah, e eu adorei o barman da taberna, onde teve o tiroteio.

  2. Não apareceu não Ellem! Mesmo no “Kill Bill” ele não apareceu. bjos André

  3. Muito bom mesmo o filme. Daria um 8,5 tranquilamente. Concordo com a interpretação do personagem de Landa foi fenomenal.
    É um filme que mistura tensão, pois você fica preocupado de os “mocinhos” serem descobertos com suas táticas desastradas de espionagem o filme inteiro, com bom humor. O desfecho do filme é sensacional e acho que cada um se sentiu dando uma forcinha para aquelas metralhadas que não direi aqui o que fazem. Contudo, já que o autor usou a comparação, Batman o cavaleiro das trevas ainda fica bem à frente, na minha opinião. Abs

  4. Oi Márcio,

    obrigado pela visita ao CineZen e certamento “Bastardos Inglórios” entra pra lista dos melhores filmes da década. “Batman – O Cavaleiro das Trevas” foi um fenômeno, mas certamente o novo filme de Tarantino é o melhor longa do diretor desde “Pulp Fiction”, ainda que “Kill Bill” seja excelente.

    Abraços,

    André Azenha

  5. Novamente Tarantino nos presenteia com uma fábula inventiva. Com diálogos longos e geniais, Bastardos Inglórios é certamente uma das relíquias da década. A atuação do desconhecido ator Waltz, sem sombra, de dúvidas é a mais completa dos últimos 15 anos. Muitos comparam a sua atuação à de Heath Leader, mas ele é melhor pois mantém a excelente a atuação em quatro línguas (Alemão/ Francês/Italiano/Inglês)

  6. Filme muito bom… Bemmmm Tarantino… mas esse filme vale msm por uma interpretacao em especial Hans Landa (Christoph Waltz).

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