Cidade de Deus é um dos filmes mais importantes dos últimos tempos


“Cidade de Deus” foi um divisor de águas para o cinema como também para seus realizadores. Dirigido por Fernando Meirelles (Kátia Lund, com quem o cineasta trabalhara no curta “Palace II” é co-diretora), a partir de um excepcional roteiro de Bráulio Mantovani, baseado no livro homônimo de Paulo Lins, o filme retrata a trajetória da favela que dá título ao longa.

Nos anos 60, Dadinho (Douglas Silva) e Bené (Michel de Souza) são pequenos delinquentes na recém-criada comunidade de Cidade de Deus, construída pelo governo do Estado da Guanabara, como parte da política de remoção de favelas.

Na década seguinte, Dadinho virou Zé Pequeno (Leandro Firmino) e continua amigo de Bené (Phellipe Haagensen). Eles assumem o comando do tráfico de drogas na comunidade, agora mais empobrecida e violenta. O conflito entre o bando de Zé Pequeno contra o único foco de resistência ao seu controle total da Cidade de Deus, liderado por Sandro “Cenoura” (Matheus Nachtergaele), acirra-se quando Bené é assassinado. Zé Pequeno então desencadeia uma verdadeira guerra pela hegemonia do comando no crime local.

A história é contada pelo ponto de vista de Buscapé (Alexandre Rodrigues), garoto pobre que sonha ser repórter fotográfico e resiste à tentação de entregar-se ao aparente mais fácil caminho da criminalidade.

Além da denúncia contundente de uma sociedade corrompida e amedrontada pelo crime, ignorada pelos governantes e mergulhada na corrupção, que inclui a polícia (situação que choca ainda mais se constatarmos que, décadas depois, os problemas não diminuíram, pelo contrário), o filme é tecnicamente brilhante.

César Charlone trabalhou com diferentes estilos de fotografia para cada uma das décadas mostradas, a recriação de época é excelente e a trilha sonora certeira. A montagem premiada de Daniel Rezende é energética, de cortes rápidos, mas que jamais deixam o espectador confuso. Junto à direção magistral de Meirelles e o roteiro inteligente de Mantovani (que em meio ao ritmo frenético trata de apresentar todos os personagens ao público, mostrando as motivações de cada um), criam um clima de ação alucinante, mas que atua a favor da trama. Já as atuações são extremamente reais. A grande maioria do elenco é formada por atores não-profissionais – muitos, inclusive, oriundos da favela. Dos “conhecidos”, destaques para Matheus Nachtergaele, a então novata Alice Braga e o cantor Seu Jorge na pele do verídico e trágico Mané Galinha.

“Cidade de Deus” é o principal filme da retomada do cinema nacional, e dos mais importantes da nossa história cinematográfica. Para dar uma ideia de sua relevância, foi considerado um dos melhores da história pelo IMDB (banco de dados mundial sobre cinema) e pelo respeitado historiador e crítico de cinema Ronald Bergan, no Guia Ilustrado Zahar de Cinema, publicado em vários países, e influenciou a indústria cinematográfica mundo afora.

Como exemplo, no lançamento da produção britânica “Juventude Rebelde” (2006), a imprensa do Reino Unido chegou a citar o filme – bem inferior e que aborda a delinquencia nas classes desfavorecidas de Londres – como “a resposta inglesa a ‘Cidade de Deus’”.  O grande vencedor do Oscar 2009, “Quem Quer Ser Um Milionário?”, copia descaradamente a fotografia, o estilo de montagem e partes da trama do filme brasileiro. E o sucesso “Tropa de Elite” também deve bastante ao longa de Meirelles. Não somente pela ação quase documental, mas por disparar contra as pessoas hipócritas que fazem críticas ao tráfico, mas contribuem com ele ao comprarem e usarem drogas. Se nessa década virou moda produzir filmes de temática social, denunciando situações de pobreza, injustiça social e criminalidade (e a lista inclui “Paradise Now”, “O Senhor das Armas”, “O Jardineiro Fiel”, o próprio “Juventude Rebelde”, “Quem Quer Ser um Milionário?”, e tantos outros), muito se deve a “Cidade de Deus”.

Além da repercussão no exterior, transformou seus realizadores em profissionais bastante requisitados, dentro e fora do país. Fernando Meirelles dirigiu depois o thriller “O Jardineiro Fiel”, outro indicado quatro vezes à premiação da Academia, e “Ensaio Sobre a Cegueira”, ambos também adaptados da literatura. E o roteirista Bráulio Mantovani tornou-se o principal profissional da área no país – trabalhou nos roteiros de “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”, “Tropa de Elite”, “Última Parada 174”, “Linha de Passe”, “Tropa de Elite 2” etc.

“Cidade de Deus” cativou o executivo Harvey Weinstein, então presidente da Miramax, que deflagrou uma poderosa campanha de divulgação internacional, /que levou o longa a receber mais de 50 prêmios, incluindo Montagem no BAFTA e Filme estrangeiro pela crítica de Nova York, mais quatro indicações ao Oscar (Diretor, Montagem, Roteiro adaptado e Fotografia), num ano dominado por “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”. Por um erro de estratégia, a comissão que define o candidato brasileiro ao Oscar de Filme estrangeiro escolheu “Cidade de Deus” antes que a obra ganhasse esse reconhecimento estrangeiro. Esperasse mais um ano – o que rendeu as indicações – e o filme teria grandes chances de faturar a estatueta dessa categoria.

Acima de tudo, “Cidade de Deus” mostrou que podíamos esperar algo inovador no cinema, e consolidou – após indicações ao Oscar de Filme estrangeiro de “O Quatrilho” (1995), “O Que é Isso Companheiro?” (1997) e “Central do Brasil” (1998) – o retorno do cinema brasileiro ao panteão de nações que produzem filmes relevantes. Precisava mais?

CIDADE DE DEUS
(Idem, 2002, Brasil).
Direção: Fernando Meirelles, Kátia Lund (co-diretora).
Roteiro: Bráulio Mantovani, baseado em livro de Paulo Lins.
Elenco: Phellipe Haagensen, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Jefechander Suplino, Alice Braga, Emerson Gomes, Edson Oliveira, Michel De Souza Gomes, Roberta Rodrigues, Luis Otávio, Maurício Marques.
Crime / Drama.
130 min.

Estreia nos cinemas brasileiros: 30/08/2002.

Disponível em DVD.

Principais prêmios e indicações:

– Indicação ao Oscar: Diretor, Roteiro adaptado, Fotografia, Montagem.
– BAFTA: Montagem.
-Indicação ao BAFTA: Filme estrangeiro.
– British Independent Film Awards: Filme estrangeiro.
– Festival de Cartagena: Filme, Diretor.
– Crítica de Chicago: Filme estrangeiro.
– Grande Prêmio do Cinema Brasileiro: Filme, Diretor, Roteiro adaptado, Fotografia, Montagem, Som.
– Indicação ao Globo de Ouro: Filme estrangeiro.
– Crítica de Las Vegas: Filme estrangeiro.
– Crítica de Nova York: Filme estrangeiro.
– Festival de Toronto: Visions Award – Special Citation (Fernando Meirelles).
– Festival Internacional do Uruguai: Prêmio especial do júri.
– Festival de Havana: Prêmio Universidade de Havana, Ator (para o elenco), Fotografia, Montagem, Prêmio da Associação Cubana de Imprensa Cinematográfica, Prêmio FIPRESCI  (Crítica), Prêmio Glauber Rocha, 1º Prêmio Grande Coral, OCIC.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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