A Batalha de Seattle
Inédito nos cinemas brasileiros, longa reúne grande elenco para retratar manifesto pacífico contra a Organização Mundial do Comércio que virou batalha sangrenta
A Batalha de Seattle (Battle in Seattle, EUA / Canadá / Alemanha, 2007). Direção e roteiro: Stuart Townsend. Elenco: Martin Henderson, Woody Harrelson, Charlize Theron, Ray Liotta, Ivana Milicevic, Michelle Rodriguez, Rade Serbedzija, André Benjamin, Joshua Jackson, Connie Nielsen, Channing Tatum. Drama. 99 min. (Cor).
Durante cinco dias de 1999, dezenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas de Seattle em protesto contra a globalização. Foi um momento histórico, ocorrido durante uma reunião da Organização Mundial de Comercio (OMC). O que era pra ser uma manifestação pacífica, já que desde os anos 60 não se via protestos de jovens contra o capitalismo nos EUA, se transformou num campo de batalha entre manifestantes, a polícia local e a guarda nacional.
O ator irlandês Stuart Townsend (“A Rainha dos Condenados” e “A Liga Extraordinária”) não escolheu um dos temas mais fáceis para sua estréia como diretor. “A Batalha de Seattle”, lançado direto em home vídeo no Brasil, conta a história desses dias em que a capital do rock grunge virou palco de dissonância política, dando voz a uma nova geração de jovens rebeldes.
Escrito com bastante competência pelo próprio Townsend (que também produziu o filme), e contando com um elenco estelar, o longa independente trata de evitar mostrar seus personagens como estereótipos – a situação é verídica, mas as figuras mostradas na obra são criações da mente de Townsend, que jamais cai no melodrama barato.

Seria muito fácil retratar o prefeito da cidade como um corrupto. Ao invés disso, o político interpretado por Ray Liotta (que surge envelhecido) é alguém cansado com as atribuições do cargo e que não quer a responsabilidade de acirrar ainda mais a situação num confronto armado.
O grupo de manifestantes, por sua vez, poderia muito bem ser apresentando como um bando de arruaceiros – é a imagem que ficou para a mídia americana. Mas a turma liderada por Martin Henderson (“O Chamado”), Michelle Rodriguez (“Avatar”) e Andre Benjamin (do grupo musical Outkast e que atuou em “Quatro Irmãos”) é mostrada em perspectiva. São pessoas imperfeitas, com questões a resolver, mas que lutam pelo que acreditam.
Nem os policiais repressores são os profissionais frustrados e desonestos do clichê cinematográfico. A classe policial é representada por dois oficiais interpretados por Woody Harrelson (“Zombilândia”) e Channing Tatum (“G.I. Joe” e “Veia de Lutador“), que preferiam não estar no conflito, se tivessem escolha. Eles enfrentam o dilema de cumprir as ordens, mesmo que resultem numa ação violenta com a qual não concordam. O personagem de Harrelson, por sinal, tem sua esposa grávida (papel da linda vencedora do Oscar Charlize Theron) perdida no meio da manifestação.

Em “Batalha de Seattle” o verdadeiro vilão é o “sistema”.
O longa pode até ser acusado de panfletário, mas jamais de covarde. Esse engajamento inspirou seu elenco. Mesmo sendo um projeto “barato” para os padrões do cinema americano, pôde reunir um excelente time de atores que acreditaram na dignidade e importância de sua mensagem.
É a única ficção cinematográfica a cobrir esse período de indignação contra o neoliberalismo, que como filosofia econômica legou ao mundo uma das piores crises de todos os tempos. O que os protestantes viam há 10 anos se provou premonitório. Mas muita gente continua a acreditar no retrato da mídia perplexa pelos acontecimentos de Seattle: que as manifestações antiglobalização foram pura baderna. Este preconceito conservador fez com que um filme tão importante tivesse que ser produzido de forma independente e encontrasse dificuldades de distribuição nos cinemas. No Brasil, ele chega direto em DVD e logo após em blu-ray. Com tantos filmes “menores” exibidos em festivais e mostras internacionais de cinema no país, esse desdém chega a ser um crime cinéfilo.
9,0
Lançamento em DVD e blu-ray
