Lawrence da Arábia
Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, Reino Unido, 1962). Direção: David Lean. Roteiro: T.E. Lawrence, Robert Bolt, Michael Wilson. Elenco: Peter O’Toole, Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, Omar Sharif, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains. Drama biográfico / Aventura / Épico / Guerra. 216 min. (Cor).
Considerado um dos melhores filmes já feitos, “Lawrence da Arábia” conta a história verídica do tenente (e, mais tarde, major e coronel) inglês Thomas Edward Lawrence (1888-1935) e suas experiências na Arábia durante a Primeira Guerra Mundial, principalmente os ataques às cidades de Aqaba e Damasco, lidando com questões relacionadas à moral, violência e identidade pessoal. Com quase quatro horas de duração, “Lawrence da Arábia” é um épico do deserto: a maioria das cenas foram gravadas nas terras quentes do Marrocos e da Jordânia. A fotografia faz bom uso das locações, com vários planos em aberto mostrando o isolamento de alguns lugares. Diz-se que os visuais de “Lawrence da Arábia” influenciaram gente como Steven Spielberg, George Lucas, Sam Pekinpah e Martin Scorsese. Sempre perto ou mesmo no topo de listas de melhores filmes de todos os tempos, “Lawrence da Arábia” influenciou a cultura pop e o cinema.
O diretor é David Lean, que fez outros clássicos como “Oliver Twist” (1948), “A Ponte do Rio Kwai” (1957), e viria a fazer “Doutor Jivago” (1965) em seguida. É visível o trato dado a “Lawrence da Arábia” para permanecer atual até hoje. O retrato de Lawrence não é absoluto; é ambíguo. Às vezes visto como um narcisista, às vezes como um Messias, o personagem magistralmente interpretado pelo irlandês Peter O’Toole (indiscutivelmente no melhor papel de toda sua carreira), por mais que o roteiro tome algumas liberdades artísticas com relação a alguns traços da personalidade do tenente. Há de se concordar que algumas adesões melhoram o drama aperfeiçoa o filme como drama, como a aversão e, ao mesmo tempo, o prazer que Lawrance sentia ao executar os divergentes. Outro ponto razoavelmente criticado é o lado narcisista do personagem de O’Toole, que não condiz com a realidade. Dizem até que Thomas Edward Lawrance não gostava de ser colocado sob muitos holofotes, e limitava a autorização dos fotógrafos de registrarem sua imagem no campo de batalha. Há também o fato de O’Toole ser mais alto que o personagem real.
Montado à moda dos grandes musicais (com abertura, intervalo e música final), “Lawrence da Arábia” é o que se pode chamar de “cinemão”. Tem ação, aventura, drama… Menos romance. Aliás, “Lawrence da Arábia” tem a interessante característica de não ter mulheres em seu elenco, algo feito também em filmes como “12 Homens e uma Sentença” (1957), “Fugindo do Inferno” (1963) e, claro, em um dos mais importantes trabalhos de Quentin Tarantino, “Cães de Aluguel” (1992). Isso em nada diminui “Lawrence da Arábia” como trabalho de arte. Aliás, alguns espectadores nem irão perceber. O foco aqui é outro: a identidade de Lawrence, a relação do povo árabe com os ocidentais e a hierarquia do exército são alguns dos pontos-chave do filme. “Lawrence da Arábia” é aclamado como maravilha técnica, mas também é uma maravilha nas questões que propõe. Em certos momentos, o espectador fica na dúvida se as ações de Lawrance condizem com a do herói mistificado do cinema, não percebendo que trata-se de um herói humano.
Este é considerado um dos melhores papéis de Peter O’Toole, e foi um de seus primeiros. Ele se envolveu com a produção de “Lawrence da Arábia” depois que Marlon Brando mostrou-se indisponível e Albert Finney recusou o papel, inseguro sobre o sucesso do filme.
Ele teve problemas com os camelos, principalmente com o desconforto causado ao montar neles. Para resolver o problema, comprou um pedaço de borracha no mercado e usou-a para ficar mais confortável. Em algumas tomadas, é possível ver alguns pedaços do material saindo para fora. Os beduínos que participaram das gravações até colocaram um apelido em O’Toole, chamando o de “Ab al Isfanjah”, ou, “Pai da Esponja”. Diz-se que hoje em dia, inspirados pelo episódio de “Lawrence da Arábia”, alguns beduínos fazem a mesma coisa para aliviar desconforto de guiar os camelos.
Graças aos lançamentos em DVD, o público já tem uma chance maior de conferir “Lawrence da Arábia” em widescreen, da forma que sua fotografia é mais bem aproveitada. Muito de seu charme se perde nas versões VHS standard, assim como nas vezes em que é exibido na televisão.
Aliás, em 1990, foi feita uma continuação para tevê de “Lawrence da Arábia”, chamada “Um Homem Perigoso” (ou “A Dangerous Man: Lawrence After Arabia”), com Ralph Fiennes no papel de Lawrence. A história se concentra nas tentativas de tornar a Arábia independente em 1919, no fim da Primeira Guerra. O filme até que foi bem recebido pelo público, mas, obviamente, não teve o impacto colossal do primeiro.
Um dos pré-requisitos para considerar um filme um clássico é ter notável influência no cinema e na sociedade. Depois de “Lawrence da Arábia”, o gênero épico se fortaleceu como nunca, viabilizando muitos outros projetos, além de alavancar a carreira de Peter O’Toole, que viria a ser um dos melhores atores do cinema como um todo.
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