Inimigo Público nº 1 – Instinto de Morte

inimigopublicoInimigo Público nº 1 – Instinto de Morte (L’Instinct de Mort, França, 2008). Direção: Jean-François Richet. Roteiro: Abdel Raouf Dafri, Jean-François Richet, Jacques Mesrine (livro). Elenco: Vincent Cassel, Cécile De France, Gérard Depardieu, Gilles Lellouche, Roy Dupuis, Elena Anaya, Florence Thomassin. Policial / Crime / Biografia. 113 min. (Cor).

Num mundo caótico como o nosso, onde a violência é notícia recorrente do cotidiano, dá até para entender, ainda que em sã consciência seja impossível aprovar, porque existem tantos filmes que a retratam com glamour.

Em 1994 Oliver Stone, a partir de roteiro idealizado por Quentin Tarantino, jogou na cara da mídia e da sociedade um longa-metragem sobre casal de criminosos (interpretados por  Woody Harrelson e Juliette Lewis, ao melhor estilo Bonnie e Clyde) que após uma série de assaltos e assassinatos viravam celebridades, levando a mídia e persegui-los para obter mais pontos de audiência.

Muita gente não entendeu “Assassinos por Natureza”, acusando-o de mostrar bandidos como heróis, mas é só produções como o recente “Inimigos Públicos” (sobre a trajetória do ladrão de bancos John Dillinger) ou este “Inimigo Público nº 1 – Instinto de Morte” serem produzidos que notamos o poder midiático de histórias violentas. Ainda mais se forem verídicas.

De alguma forma, muitas pessoas têm um tipo de predileção por tramas do gênero, e, por isso mesmo, para cada obra que retrata uma figura “do bem”, à maneira de “Escritores da Liberdade” (sobre professora, vivida por Hilary Swank, que dedicou a vida em ajudar estudantes de escola pública americana), surgem dez produções como “Inimigo Público nº 1 – Instinto de Morte”.

inimigotresOliver Stone nada mais fez do que retratar, propositalmente de forma exagerada, o que acontece no mundo real. Sob esse ponto de vista, é compreensível porque a trajetória do criminoso francês Jacques Mesrine também virou filme.

“Inimigo Público nº 1 – Instinto de Morte” é o primeiro de dois longas que narram a vida do falecido gângster (morreu vítima de uma emboscada em 1979, fato apenas insinuado no início da projeção), que ficou famoso na França e no Canadá por ser impiedoso e pelas incríveis fugas de presídios que realizou.

Essa primeira parte da cinebiografia do francês acompanha o crescimento de sua má fama. Começa com sua presença na Guerra da Argélia, em 1959; sua passagem pela Espanha, no ano seguinte, período em que conheceu Sofia, a mulher com quem iria se casar; os golpes em Paris durante a metade da década de 60, época em que foi apresentado a Guido, espécie de “guru” para Mesrine; até a prisão no Canadá, em 1972, quando foi autuado após uma perseguição de carro junto de sua então amante, Jeanne Schneider, outro casal que foi comparado pela mídia, sempre ela, a Bonnie e Clyde.

Como cinema, a história de Mesrine até poderia render um bom thriller. Mas o diretor Jean-François Richet, que acertou no tenso “Assalto à 13ª DP”, já começa a obra com o pé direito, covarde ao avisar, nos créditos iniciais, que um filme jamais consegue retratar com exatidão a vida real de qualquer pessoa. Sempre há, segundo ele, um pouco de ficção. Ou seja, o cineasta cria um álibi para justificar a forma esquizofrênica como buscou “entender” a personalidade do protagonista.

No início da trama, os traumas vividos por Mesrine na guerra na Argélia chegam a ser sugeridos como o motivo da vida errante do bandido, que depois é mostrado como um sujeito ingrato, pois joga fora várias oportunidades de trabalho honesto para sempre voltar à criminalidade.

A direção e o roteiro – baseado inclusive numa autobiografia escrita pelo próprio Mesrine – falham, mas ao menos o elenco se sai bem.

inimigoquatroVincent Cassel, que engordou vinte quilos para o papel, é experiente em encarnar homens propensos à violência e ao crime, como em “Irreversível”, “Senhores do Crime”, “Doze Homens e Outro Segredo” e “Treze Homens e um Outro Segredo”.

Gérard Depardieu, que interpreta Guido, não precisa se esforçar para atuar de forma convincente. Aliás, o veterano ator voltou a dividir a tela com a belga mais fofa do mundo Cécile de France (formaram casal em “Quando Estou Amando”), que se mostra versátil na pele de Jeanne Schneider. Cécile surge praticamente irreconhecível em cena, morena e de óculos, diferente de personagens anteriores como a lésbica da dobradinha “Albergue Espanhol”/”Bonecas Russas”, e as doces mulheres de “Um Lugar na Platéia” e do próprio “Quando Estou Amando”.

Também está no elenco a bela espanhola Elena Anaya (de “Pecados Inocentes”, com Julianne Moore), como Sofia, esposa do bandido.

A sensação que fica ao final do longa é que bons atores foram desperdiçados num filme que fez sucesso em sua terra natal (junto com a continuação levou mais de nove milhões de franceses aos cinemas).

No Brasil, ainda que filmes violentos também levem multidões aos cinemas, “Inimigo Público n 1 – Instinto de Morte” passou praticamente em branco nos cinemas, mas pode conseguir carreira em home vídeo como thriller policial, principalmente pela ótima cena da fuga do personagem central da penitenciária canadense, tensa e bem filmada como toda produção que se preze do gênero deve ser. Mas é muito pouco para um projeto ambicioso que reuniu grandes atores europeus.

A continuação, para quem ainda se interessar, previamente batizada “Inimigo Público nº 1 – Parte 2”, conforme promete a Califórnia Filmes, chega ao Brasil até o final do ano.

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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