Eu Vos Saúdo, Maria

Jean-Luc Godard recontou a concepção de Jesus Cristo em filme polêmico
Por Ricardo Prado * (18/09/2009) // Comente

Por Ricardo Prado

euvossaudoEu Vos Saúdo, Maria (Je vous salue, Marie, França, 2005). Direção e roteiro: Jean-Luc Godard. Elenco: Jara Kohan, Manon Andersen, Myriem Roussel, Philippe Lacoste, Lange Gabriel, Thierry Rode. Drama. 105 min. (Cor).

Jean-Luc Godard já foi chamado de revolucionário, polêmico, louco, e diversos outros nomes, mas “Eu Vos Saúdo, Maria” é a personificação de seu lado polêmico. A premissa já chamava por encrenca: o filme reconta a história da concepção de Jesus Cristo por Maria nos tempos atuais, tendo jovens nos papéis dela, de José e do anjo Gabriel. O tom não é de homenagem, nem sátira e nem de subversão de gêneros. Apresenta-se com uma narrativa despretensiosa e tímida, apesar de estarmos acostumados a tratar essa história como épico.

Maria é uma estudante que joga basquete e trabalha no posto de gasolina do pai. José largou o colégio e trabalha dirigindo um táxi. Apesar de nunca ter dormido com o namorado e ser virgem, Maria fica grávida. José fica indignado, e o relacionamento dos dois, que já estava em crise, vira um inferno. É um robusto Gabriel que traz senso de volta à mente de José, que repentinamente se vê diante de algo como intervenção divina. A narrativa também alterna com a história de João, que dá aulas de ciências e insiste que a vida no planeta tem origens alienígenas. Ele chega a ter um caso com uma aluna, Eva, que lhe oferece uma maçã.

O elenco é composto, basicamente, por desconhecidos. Podemos ver uma Juliette Binoche em início de carreira, no papel de Juliette, que estuda com Maria. A protagonista é interpretada por Myriem Roussel, que aproveitou o sucesso (infame ou não) do filme para trabalhar em mais alguns projetos, mas não fez muita coisa de destaque. É uma pena, porque a atriz mostra um domínio excepcional de um personagem até hoje não decodificado direito, ainda mais em um filme com premissa tão diferente. Tanto ela quanto Thierry Rode (José) foram trabalhar mais com televisão depois de “Eu Vos Saúdo, Maria”.

euvossaudotresComo era de se esperar, o filme causou polêmica na época de seu lançamento, chegando até a ser criticado pelo papa João Paulo II. Também foi proibido no Brasil, pelo então presidente José Sarney. E durante o Festival de Cannes, os noticiários repetitivamente mostravam um homem que, indignado, jogou uma lata de creme de barbear no rosto de Godard. Não só a temática como também as várias cenas de nudez frontal e sexo chocaram o público.

Não havia perigo de envenenar as mentes dos católicos como os críticos ferrenhos urravam, já que “Eu Vos Saúdo, Maria” tem um ritmo de narrativa muito introspectivo, quase modorrento. Quem não está acostumado aos trabalhos de Godard pode até pegar no sono durante a projeção. É por conta disso que o filme não pode ser considerado sensacionalista. Oferece um olhar diferente sobre os conflitos pelos quais alguém passa com sua sexualidade, e coloca personagens que temos a impressão de conhecer, mas nem tanto. Extremo pelo tema e não pela abordagem, “Eu Vos Saúdo, Maria” é o que se fazia de polêmico há vinte e poucos anos atrás. Hoje, temos “O Código Da Vinci” e “Anjos e Demônios”.

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