A Malvada
A Malvada (All About Eve, EUA, 1950). Direção e roteiro: Joseph L. Mankiewicz. Elenco: Bette Davis , George Sanders , Celeste Holm , Gary Merrill , Hugh Marlowe. Drama. 138 min. (Cor).
Quando se fala de “A Malvada”, geralmente se aponta como notável o número de indicações ao Oscar que teve: 14 (ganhou seis), marca superada só em 1997, por “Titanic”. De forma alguma o valor deste filme está só nisso. “A Malvada” é um dos raros exemplos de competentes críticas e sátiras da indústria do entretenimento. Enquanto “Crepúsculo dos Deuses” (1950) denuncia a realidade dos bastidores de Hollywood, o foco de “A Malvada” é no teatro, e as pessoas envolvidas com ele, boas ou más. O filme também brinca com certas convenções de narrativa e marca uma das mais memoráveis transições de personagem da história do cinema. Tem um roteiro inteligente e elenco que vale o espetáculo. Não tinha como dar errado.
O filme começa com a entrega do prêmio Sarah Siddons (fictício, mas que virou realidade baseado em “A Malvada”), que vai para as mãos da jovem e bela Eve Harrington (Anne Baxter). O narrador, o crítico de teatro Addison DeWitt (George Sanders), começa a contar como começou a carreira de sucesso da atriz. De origem humilde, a inexperiente Eve dá sorte de a mulher de um roteirista simpatizar com sua história, e a leva para conhecer a grande estrela de sua vida, Margo Channing (Bette Davis). Também simpatizada com a menina, Margo chama a moça para trabalhar com ela.
Aos poucos, Eve vai adentrando no mundo do teatro, impressionando a todos ao seu redor com sua graça, beleza e talento. A grande reviravolta de tudo é o fato de que Eve não é exatamente inocente e sabe muito bem o que está fazendo. Vale tudo quando se está em jogo o sucesso. A principal vantagem, e aí está a principal crítica à indústria do entretenimento, é que Eve é jovem, ao contrário de Margo, que já começa a envelhecer (tal como sua intérprete, a lendária Bette Davis, que, em 1950, não fazia mais papéis de mocinha).
Exemplos de como o mundo do entretenimento está cheio de “Malvadas” estão no próprio elenco do filme. Anne Baxter ainda ascendia como atriz, enquanto Bette Davis já estava consagrada. Ainda assim, Anne passou a pressionar a tudo e a todos para ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz, em vez de Melhor Atriz Coadjuvante, rivalizando com Davis. Quem venceu na categoria acabou sendo Judy Holliday, por seu trabalho em “Nascida Ontem” (1950). Diz-se que os esforços de Anne só serviram para diminuir as chances de Davis ganhar.
Grande parte de sua qualidade provém do elenco, afiadíssimo. Bette Davis está com tudo. Toma todo o drama para si e nos faz rir e chorar com sua personagem, trágica e real. Anne Baxter, como a “Malvada”, dosa entre o belo e o cruel como pouco se vê. George Sanders encara um homem charmoso e monstruoso com perfeição. “A Malvada” também foi responsável por revelar a ainda estreante Marilyn Monroe, que já interpretava uma moça cabeça-de-vento, que aparece numa festa acompanhando DeWitt.
“A Malvada” não tem época. Vai ter o mesmo efeito se visto hoje ou daqui a 50 anos. É a realidade da indústria, queiramos nós ou não. As comparações com “Crepúsculo dos Deuses” são compreensíveis, até por terem sido lançados no mesmo ano, mas tem um corpo de personagens mais abrangentes. Bette Davis ainda não havia chegado ao ponto de Norma Desmond, mas a existência de pequenas golpistas aqui e ali tratava de acelerar o processo.
10,0 é pouco

CONCORDO COM TUDO . ESSA BETTE É FODASTICA!
Para mim, esse é um dos melhores filmes já lançados! O roteiro é basicamente simples, sem muitos enfeites e é bastante objetivo naquilo que pretende: mostrar os dois lado de um acontecimento. Eve é a boa moça, mas também a mulher obstinada que faria tudo para chegar ao topo; Margo é uma atriz condescendente e caridosa, e, também, alguém que não suporta a ideia de ser colocada de lado.
Gosto particularmente da maneira sutil como é exibido a transformação das personagens principais. Margo, a princípio, parece estar incomodada à toa, já que a impressão que temos que é ela está apenas sendo intolerante naquele momento; depois percebemos que a série de gentilezas de Eve são na verdade maneiras de estudar o seu objeto, que é Margo. Assim, conhecemos a verdade por trás de suas ações: nem Margo é cruel no seu julgamento nem Eve é tão gentil como aparenta.
A fotografia do filme é mesmo muito boa e a maneira como o diretor captou as cenas é magnífica. Quanto as atuações, o adjetivo que tenho para utilizar é “impecáveis”. E mesmo assim essa definição ficaria aquém do que Davis e Baxter merecem. Devo ainda completar dizendo que não apenas elas, mas o elenco todo estão muito bem – todos merecem elogios!
Gostei do seu espaço, vou acompanhá-lo com frequência.
Obrigado Luís, é sempre bom quando recebemos comentários de leitores apaixonados por cinema. Volte sempre e se tiver algum filme clássico que gostaria de ver resenhado é só pedir. abraços, André Azenha (editor)
E pensar que esse filme concorreu ao Oscar junto com “Crepúsculo dos Deuses”. Duas obras-prima do cinema numa época em que Hollywood fazia filmes maravilhosos. Tempos que não voltam mais.