Curtindo a Vida Adoidado

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Um clássico absoluto que marcou uma geração e continuou conquistando admiradores nas décadas seguintes, “Curtindo a Vida Adoidado” se tornou o que é devido a uma série de fatores. O filme completará três décadas de seu lançamento nos EUA em 11 de junho. No Brasil, chegaria aos cinemas somente em 19 de dezembro. Mas o Espaço de Cinema sai na frente e relembra esta pérola das Sessões da Tarde.

A obra-prima de John Hughes, cineasta que melhor compreendeu o universo da adolescência na história do cinema, tem roteiro certeiro, gags imperdíveis, ótimo elenco, representa o desejo de milhões de adolescentes e principalmente: possui, dentro de sua trama cômica, um subtexto universal resumido na frase do protagonista Ferris Bueller, interpretado por Matthew Broderick: “A vida se move muito rápido. Se você não para e olha em volta de vez em quando, pode perdê-la”. É papo sério no formato de cultura pop.

Inacreditavelmente escrito por Hughes em apenas seis dias, para evitar uma greve do sindicato dos roteiristas, a comédia mostra um dia na vida de Ferris. E é só “o” dia começar que logo percebemos o por quê do personagem ter virado cult, célebre, ídolo da garotada que ainda brincava de He-Man e jogava Atari nos anos 80.

Ferris não precisa ser fortão, atleta ou garanhão para conquistar nossa simpatia. Ele é simplesmente… legal. Ou “cool”. Dos nerds aos atletas, das patricinhas às garotas de torcida, não há quem resista ao carisma do rapaz, inclusive seu melhor amigo Cameron (Alan Ruck) e sua namorada, Sloane (a gatinha Mia Sara).

Ao acordar e perceber que o céu está lindo, Ferris decide que não pode desperdiçar um dia especial indo à escola. Finge estar doente, monta um aparato invejável (quem não sonhou usar os truques dele na época de colégio para fugir da aula?) no quarto para despistar os pais, tira Cameron de casa e Sloane da escola e sai (na Ferrari pertencente ao pai do amigo) para curtir os locais mais descolados de Chicago.

Por tabela, causa a revolta do diretor (Jeffrey Jones) mala da escola e da irmã mais velha e invejosa (Jennifer Grey), que faz de tudo para entregar o caçula.

Divertido do início ao fim, “Curtindo a Vida Adoidado” já nasceu clássico. Apesar das roupas e penteados característicos da década de 80, as situações apresentadas durante a trama são atemporais.

Entre tantas cenas inesquecíveis, aquela que mostra Ferris em cima de um carro alegórico, numa parada alemã em Chicago, e que leva milhares de pessoas a cantarem determinada música, conseguiu o feito de fazer uma canção que foi interpretada pelos Beatles ser mais lembrada pelo filme do que pelos fab four. “Twist and Shout”, de Phil Medley e Bert Russell.

Mas nada sairia tão na mosca se o elenco não demonstrasse tamanha química e desenvoltura em cena.

Matthew Broderick, apesar de não ser mais um garoto na época das gravações, caiu como uma luva para o papel principal. Sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Ator em Comédia/Musical. O jeitão moleque, simpático, um pouco cínico, cúmplice do espectador (já que mais de uma vez olha para a câmera e dialoga com o público) fizeram o personagem impulsionar a carreira do intérprete, que mesmo mantendo-se trabalhando e famoso ao longo dos anos, jamais repetiu o feito.

O restante do elenco não fica atrás. A Sloane de Mia Sara (que depois ficaria nua em filmes B como “Timecop”, com Van Damme) une classe e sensualidade. O par ideal para Ferris.

Alan Ruck, na casa dos 30 anos na época do longa, não aparenta a idade e completa de forma perfeita o trio protagonista na pele do sujeito inseguro que teme o pai e a qualquer momento pode se revoltar.

Jennifer Grey – que passou a namorar Broderick durante as filmagens e no ano seguinte estrelaria outro sucesso, “Dirty Dancing”, ao lado de Patrick Swayze – está perfeitamente insuportável como a irmã megera. Há ainda: um surpreendente Jeffrey Jones (mais magro que seu personagem em “Amadeus”) vive o diretor rabugento; o novinho Charlie Sheen (no mesmo ano fez “Platoon”) em pequena aparição; os atores Cindy Pickett e Lyman Ward (que se casaram na vida real), respectivamente a mãe e o pai de Ferris; até os dois “figuraças” do estacionamento onde Ferris, Sloane e Cameron deixam a Ferrari. Todos estão em sintonia com o espírito da obra.

Com trilha sonora deliciosa, “Curtindo a Vida Adoidado” garante sorrisos do início ao fim, principalmente para os jovens, que vibram a cada façanha do protagonista. Ferris, na mesma década que deu ao mundo Rambo e tantos “heróis” anabolizados, foi o verdadeiro ícone da garotada.

10,0 é pouco

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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