A Troca

Por André Azenha

atrocacimaA Troca (Changeling, EUA, 2008). Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Michael Straczynski. Elenco: Angelina Jolie, Jeffrey Donovan, John Malkovich, Michael Kelly, Jason Butler Harner, Gattlin Griffith, Eddie Alderson, Devon Conti, Colm Feore. Drama. 141 min. (Cor).

Em 1928, num sábado, em Los Angeles, Christine Collins, telefonista que cuidava sozinha do filho pequeno Walter, saiu para trabalhar e deixou o garoto em casa. Ao retornar do serviço, não o encontrou.  

Desesperada com o desaparecimento, Christine foi à polícia, e pouco tempo depois os oficiais disseram ter resgatado uma criança. Chamaram a imprensa, e na hora que foi reencontrar o menino, a mãe afirmou que aquele não era seu filho. Obstinada, ela não se deu por vencida, protestou, enfrentou os desmandos das autoridades da época (a polícia chega a sugerir que ela “testasse” a “nova” criança), teve a ajuda de um reverendo, e se tornou uma voz que ajudou a mudar parte das injustiças do período naquele local – um exemplo de determinação.

Uma história assim, dramática, emocionante, teria tudo para se transformar em um filme. E ninguém melhor que Clint Eastwood, nascido na época do ocorrido, no mesmo estado da Califórnia (daí boa parte do interesse do veterano diretor em assumir o projeto), e realizador de belos dramas sensíveis e intensos como “Sobre Meninos e Lobos” (que também trata da perda de um filho) e “Menina de Ouro” (vencedor de 4 Oscars, incluindo Filme e Direção), para levá-la ao cinema.

Só que, ironicamente, “A Troca” foi, na verdade, um trabalho encomendado pelos estúdios Universal, com quem Clint não trabalhava desde 1975. O diretor seria Ron Howard (“O Código da Vinci”), que havia comprado o roteiro e acalentou o projeto por algum tempo, mas por causa da agenda lotada, ficou apenas na cadeira de produtor executivo. Clint então assumiu o projeto.

Em parceria com o roteirista J. Michael Straczynski (experiente de inúmeras séries de TV e conhecido pelos fãs dos quadrinhos por sua polêmica passagem no gibi do Homem-Aranha), ele, como de costume, terminou as gravações em pouco tempo (chegando a registrar até oito minutos do longa por dia, índice bem superior à média em Hollywood, que não passa de um minuto) e concebeu um drama clássico, as vezes exagerado, mas que em pouco tempo sensibiliza o espectador.

Para tanto, utilizou-se de uma narrativa limpa, da bela fotografia de Tom Stern, evocando o cinema noir, direção de arte competente e da escalação de bons atores para viverem personagens que facilmente poderiam cair na caricatura, se interpretados por gente menos talentosa.

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Angelina Jolie (linda, linda, linda) novamente se destaca e comprova sua versatilidade, dando grande carga dramática à Christine sem precisar descambar para gestos largos ou gritos histéricos. Vale reparar a forma como ela leva a mão ao rosto par enxugar os olhos. Sutil, simples, e tocante. Sua atuação lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro em Atriz/Drama – a vencedora da categoria foi a também maravilhosa Kate Winslet – e outra ao Oscar.

Os outros atores também conferem verossimilhança aos seus respectivos papéis. John Malkovich faz o firme reverendo Gustav Briegleb, que ajuda a protagonista na luta contra os atos policiais corruptos, Gattlin Griffith encarna com simpática o pequeno Walter (detalhe pra cena em que ele fala para a mãe sobre a briga que teve no colégio), Jeffrey Donovan causa repulsa na platéia como o incompetente e mau caráter capitão Capt. J.J. Jones (responsável pela “troca” das crianças, que batiza a produção) e Jason Butler Harner transborda insanidade na pele de um serial killer.

“A Troca” poderia estar no mesmo nível de outros trabalhos de Clint Eastwood, não fossem alguns deslizes, como a grande importância dada à trama paralela de um assassino serial. Afinal, por mais que a história do criminoso seja de importância fundamental para a conclusão dos fatos, o filme trata-se da jornada da mãe em busca do filho perdido. 

Esse detalhe aliado à sensação de estarmos assistindo vários “finais” (e o diretor parece tentar manipular a platéia para que, assim como ocorre com a mãe, jamais perca a esperança por um final feliz) estica o enredo de forma desnecessária. Pois com pouco mais de uma hora de projeção, o público já terá se envolvido com a causa de Christine e torcido por ela, se indignado com as atitudes da polícia, derramado muitas lágrimas, e estará certo de que acertou ao ocupar as mais de duas horas do seu dia com mais uma bonita obra cinematográfica de Eastwood.

8,5

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André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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