Milagre em Sta. Anna
Por André Azenha
Milagre em Sta. Anna (Miracle at St. Anna, EUA / Itália, 2008). Direção: Spike Lee. Roteiro: James McBride, baseado em livro de James McBride. Elenco: Derek Luke, Michael Ealy, Laz Alonso, Omar Benson, Valentina Cervi, Matteo Sciabordi, John Turturro, John Leguizamo. Drama / Guerra. 160 min. (Cor).
Spike Lee se tornou um cineasta mundialmente conhecido e respeitado após ter causado furor em Cannes com “Fala a Coisa Certa” (1989), filme ousado, polêmico, engajado política e socialmente, no qual foi roteirista (indicado ao Oscar) e diretor.
Com seus trabalhos posteriores comprovou ser um autor praticamente monotemático (salvo exceções, como o divertido “O Plano Perfeito”), mostrando as dificuldades e as injustiças sofridas pelos negros de inúmeras formas. Sua postura social enquanto realizador é digna, admirável, mas não resulta sempre em ótimos filmes.
Um exemplo de trama feita com a melhor das intenções, porém irregular cinematograficamente, é “Milagre em Sta. Anna” – o título faz referência ao massacre de Sant’Anna di Stazzema, quando 560 italianos, a maioria mulheres, crianças e velhos, foram assassinados de forma fria e covarde por oficiais da SS.

É um “filme de guerra” a partir do ponto de vista de quatro soldados negros que se perdem na região da Toscana, na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Após um deles salvar a vida de menino italiano, acabam parando num vilarejo.
Tecnicamente o longa segue a cartilha de outras obras que retratam tal período histórico. Há clara influência de “O Resgate do Soldado Ryan” (que parece ter virado a bíblia para diretores que pretendem realizar grandes sequencias de conflito armado), com resultado correto – este foi o trabalho com maior orçamento na carreira do diretor, US$ 45 milhões, igualando “O Plano Perfeito”.
O elenco também se sai bem. Desde o garotinho Matteo Sciabordi, cuja atuação soa extremamente real ao misturar o temor perante a guerra e a ingenuidade de uma criança, até o seu “salvador”, interpretado pelo grandalhão Omar Benson Miller, e a bela romana Valentina Cervi, umas das pessoas da pequena vila.
Também atuam antigos conhecidos de Spike Lee, como John Leguizamo e John Turturro. Este último, em sua nona parceria com o diretor.
“Milagre em Sta. Anna” tinha todas as condições de se tornar um trabalho memorável. Spike Lee aproveita para mostrar que o preconceito, a maldade e a traição podem surgir de quem menos se espera. Dos americanos, alemães ou italianos mostrados na trama. Uma frase elucida a questão, quando um dos soldados negros diz: “É humilhante perceber que você é tratado como humano em outra nação (Itália) e que dentro de seu país você é tido como um animal”. Crítica que, para tristeza de quem tem bom coração, se adapta perfeitamente aos dias atuais.
Infelizmente, todas essas qualidades são prejudicadas pelo roteiro irregular, que prolonga situações desnecessariamente, e condensa outros momentos que poderiam ter sido trabalhados de forma mais detalhada e menos melosa. Tivesse acertado nesse quesito, Spike Lee teria feito um filme capaz de figurar entre as grandes obras do cinema que abordam a Segunda Guerra.
Cotação: 7,0
