Laranja Mecânica

Ricardo Prado relembra clássico de Stanley Kubrick banido do Reino Unido, que influenciou o movimento punk e até hoje é motivo para debates
Por Ricardo Prado * (24/07/2009) // Comente

laranjamecanicaLaranja Mecânica ((A Clockwork Orange, Inglaterra / EUA, 1971). Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Anthony Burgess. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, John Clive, Adrienne Corri, Carl Duering, Paul Farrell, Clive Francis, Michael Gover, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Godfrey Quigley. Crime / Drama / Ficção. 136 min. (Cor).

A história do livro “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, já era estranha e cruel. Nas mãos do antológico cineasta Stanley Kubrick, autor de clássicos como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968), “Dr. Fantástico” (1964) e “Spartacus” (1960), que comprou a encrenca, transformou o livro em um dos filmes mais perturbadores de todos os tempos. A crítica social por trás da história do adolescente psicopata Alex DeLarge (Malcolm McDowell) transforma-se num horrendo e sempre contemporâneo retrato da sociedade. É difícil encontrar algum cinéfilo que não guarde boas lembranças deste clássico.

Ambientado numa Inglaterra futurista controlada por um Estado opressor, o enredo gira em torno do jovem problemático Alex DeLarge e a maneira com que ele lida com suas três paixões: Beethoven, estupro e ultraviolência. Esta última palavra não é um exagero, e sim uma das expressões únicas do Nadsat, gíria desse futuro próximo que mistura algumas palavras em russo e inglês. Alex e seus amigos se divertem matando aula, roubando carros ou estuprando donas-de-casa ao som de “Cantando na Chuva”. Eventualmente, Alex é preso e condenado a 14 anos de reclusão. Dois anos depois, porém, é oferecida a ele a possibilidade de sair se participar de um projeto ainda em fase de testes: a técnica Ludovico. E é aí que começa o lado ácido de “Laranja Mecânica” (não, esse lado não era o dos espancamentos realizados com esculturas fálicas).

A técnica Ludovico consiste numa aplicação de terapia de aversão, ou seja, um jeito de evitar que alguém venha a fazer alguma coisa simplesmente por tê-la induzido a repudiá-la. O programa é patrocinado pelo governo, e escolhe Alex como sua cobaia por causa de seus aparentemente incuráveis problemas. Amarrado a uma cadeira, sob efeito de drogas e com os olhos abertos forçados por uma estrutura de metal, ele assiste a intermináveis seqüências de extrema violência projetadas num telão. Depois de vários dias sob o tratamento, Alex fica impossibilitado de qualquer pensamento ou ação violenta. Torna-se uma “boa pessoa”, cumprindo o objetivo da técnica Ludovico. Aí é que se explica o título da história, já que a bondade em Alex é tão natural quanto uma laranja mecânica. Existe aí um subtexto interessante sobre a moral. Até que ponto nós somos responsáveis por nós mesmos? Será que Alex, após submetido à técnica, havia se tornado uma boa pessoa? Para a sociedade, está de bom tamanho. E para ele próprio?

laranjaum

Lendo, a história parece séria e trágica. E é, mas em “Laranja Mecânica”, o enredo não é conduzido dessa forma. Há muita, muita ironia em cada vírgula do roteiro. O filme todo não é só uma crítica social, mas também uma sátira. Alex não dá a mínima para regras e faz questão de zombar delas. É um dos precursores do humor negro bem aplicado.

Como se trata de um filme de Stanley Kubrick, o tratamento visual merece um destaque à parte. A ambientação dessa Inglaterra futurista-mas-nem-tanto é um dos acertos. Tudo é meio branco, meio rosado e bem vazio. Algumas das naves de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” eram assim. O uso de lentes olho-de-peixe, bem abertas, ajuda a criar uma atmosfera diferenciada. Kubrick também é um cineasta que não entrega a trilha sonora a qualquer pessoa, também. Sob o comando de Wendy Carlos (que já foi Walter Carlos, antes de sua cirurgia de troca de sexo), temos em “Laranja Mecânica” uma mistura de música eletrônica com clássicos eruditos. Às vezes, misturados mesmo. Em uma cena onde Alex leva para o quarto duas garotas, ouvimos uma versão acelerada e eletrônica de “William Tell Overture”.

Diferente do que Kubrick fez com “O Iluminado”, anos depois, a adaptação de “Laranja Mecânica” foi fiel ao livro, com exceção do último capítulo. O livro termina bem, já o filme… É importante ressaltar que o autor, Anthony Burgess, expressou satisfação ao assistir ao filme, classificando-o como “brilhante”, além de ter adorado o uso da trilha sonora. Kubrick e Burgess brigaram alguns anos depois, devido a um impasse relacionado à violência de “Laranja Mecânica”, classificada de anti-cristã. Burgess vinha de família católica e se irritou quando Kubrick o deixou isolado para rebater as críticas.

O valor de “Laranja Mecânica” se deve a uma mistura de vários elementos que, por sorte, estavam aí, disponíveis: Malcolm McDowell dá um show no difícil e ambíguo papel de Alex DeLarge, Wendy Carlos arrasa no comando da trilha sonora e, claro, a direção calculada de Kubrick organiza tudo de forma fenomenal. É o tipo de filme que é um prazer rever, sempre.

10,0 é pouco

laranjatres

Conteúdo relacionado:



Desejo e PerigoMilagre em Sta. Anna

Escreva seu comentário

Campos obrigatórios