Nossos Filhos

Por: André Azenha

nossosfilhosNossos Filhos (Our Sons, EUA, 1991). Direção:. John Erman. Roteiro: William Hanley, Micki Dickoff. Elenco: Julie Andrews, Ann-Margret, Hugh Grant, Zeljko Ivanek, Tony Roberts. Drama/16 anos. 90 min. (Cor).

8,5

Se hoje a gripe suína é manchete nos principais veículos de comunicação no continente americano, na virada dos anos 80 para os 90 a Aids alcançou repercussão muito maior na mídia do mundo todo. Não era para menos. A Síndrome da imunodeficiência vitimou pessoas nos cinco continentes, inclusive artistas, músicos e atores – só no Brasil, para citar alguns exemplos, os cantores Renato Russo e Cazuza, e o ator Lauro Corona, faleceram em virtude de complicações decorrentes do vírus HIV –, o que chamou ainda mais atenção da imprensa e da sociedade para o tema.

E como costuma acontecer com assuntos em voga na mídia dos EUA, foi produzido à época este telefilme (disponível em DVD), que informa, ao final da trama, o número de seres humanos falecidos nos EUA por causa da Aids até 1991, ano de lançamento do longa: 108.731.

Julie Andrews interpretaAudrey, que é mãe de um homossexual (Hugh Grant), cujo namorado, outro jovem (Donald, papel de Zeljko Ivanek), está num estágio avançado da Aids e tem poucos dias de vida pela frente. Por sugestão do filho, Audrey viaja para tentar encontrar a mãe (Ann-Margret) do rapaz doente, que o expulsou de casa onze anos antes, ao descobrir sua sexualidade.

Realizado por John Erman, profissional experiente da televisão, que venceu um Emmy (o Oscar televisivo) por seu trabalho em “Minha Vida Por Meus Filhos” (1983), quando dirigiu Ann-Margret, o filme tem cenas feitas escancaradamente para gerar lágrimas. É compreensível. O intuito foi sensibilizar o público, naqueles tempos, não tão informado sobre a Aids.

A produção chama atenção também pela curiosidade em conferirmos Julie Andrews, Ann-Margret e Hugh Grant participando de um drama. As atrizes (que se mantiveram lindas com o passar dos anos) costumam ser lembradas pelos musicais. Andrews por “A Noviça Rebelde” e “Mary Poppins”, Margret por “Amor a Toda Velocidade” (com Elvis) e “Tommy”. Já Hugh Grant, que no início de carreira investiu em papéis dramáticos (como “Lua de Fel”, de Polanski), se tornaria mais conhecido por comédias românticas.

Ainda que algumas sequencias possuam reviravoltas que podem ser antecipadas pelo espectador, como naquela em que a personagem de Margret usa um gravador, típicas de filmes feitos para a tevê, a produção possui muito mais acertos, como o trabalho de caracterização de Donald. O ator esloveno Zeljko Ivanek (“Dogville”, “Manderlay”, “Na Mira do Chefe”) confere verossimilhança à situação do personagem, e a trama, ao evitar retratar o casal protagonista de forma caricata (algo que já ocorreu inúmeras vezes na sétima arte), serve para mostrar que homossexuais são pessoas comuns.

Assistido nos dias atuais, “Nossos Filhos” talvez impressione (e entristeça) -quem tiver um pingo de sensibilidade – pelo fato de constatarmos que, quase duas décadas após seu lançamento, ainda existam pessoas que agem como a personagem de Margret, chamando gays de “bichas” e expulsando filhos homossexuais de casa. Mas ao contrário dela, que no filme em poucos dias reviu seus conceitos, as pessoas da vida real que pensam desta forma “torta” insistem no preconceito (e não somente em relação ao homossexualismo, mas também ao contrário, e às diferenças de raça, religião, classe social, etc, etc). De pessoas assim é que devemos sentir pena e manter distância.

Conteúdo relacionado:

Amor a Toda Velocidade (Viva Las Vegas)

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

One thought on “Nossos Filhos

  1. André, que coincidência vermos no Cinezen dois filmes de Ann-Margret, o delicioso musical Viva Las Vegas e o drama Nossos Filhos, para a TV. VLV é o musical de Elvis que eu mais gosto; Nossos Filhos foi feito com muito profissionalismo, com um ótimo elenco. Em sua autobiografia, Ann-Margret conta como se deu bem com Julie Andrews, apesar de totalmente diferentes, começando pelos camarins: o de Julie era todo organizado, “praticamente perfeito”, como se esperaria de Mary Poppins: já o de Ann era uma bagunça só, como sua personagem no filme. Falando-se em TVmovies, muitas fontes citam como sendo o primeiro filme feito para a TV a produção “High Tor”, musical estrelado por Bing Crosby e a “newcomer” Julie Andrews, que na época brilhava nos palcos da Broadway em My Fair Lady.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *